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Mailson: acordo não trouxe o que o mercado esperava

Se decisão dos países não salvar a moeda, o Banco Central Europeu ainda pode agir

Carla Miranda

13 de dezembro de 2011 | 06h00

mailson_da_nobrega.JPGO pacto entre líderes europeus não trouxe o que investidores esperavam, isto é, a elevação do Banco Central Europeu ao papel de emprestador de última instância, escreve Mailson da Nóbrega*. Leia comentário abaixo.

As dúvidas sobre o acordo europeu

“O acordo saiu na madrugada da última sexta-feira, sem a participação do Reino Unido, o que pode engendrar problemas políticos futuros. Seja como for, o pacto aconteceu. Seu objetivo é estabelecer novas bases fiscais para sustentar o euro. O novo pacto tem duas novidades: (1) os membros da zona do euro que excederem sua meta de déficit fiscal sofrerão penalidades automáticas (antes, elas dependiam de acordo entre os respectivos países); (2) todos os governos incluirão regras de equilíbrio orçamentário em sua própria legislação (antes, isso era norma dos tratados). Os mercados reagiram com moderado otimismo no mesmo dia do anúncio, mas não é certo se essa visão positiva permanecerá. Como em outras ocasiões, o ambiente pode azedar à medida que os mercados não encontrarem, nos detalhes, a segurança de que os europeus terão evitado o risco de calotes na Itália e na Espanha, o que poderia detonar uma crise financeira sem precedentes (muitos bancos europeus quebrariam).

Na verdade, o acordo não trouxe o que os mercados esperavam, isto é, a concessão de um mandato para que o Banco Central Europeu (BCE) funcionasse como emprestador de última instância, comprando ou garantindo a compra de títulos de todos os países da zona do euro. Era uma esperança exagerada, dada a resistência dos alemães a essa medida – vista como um desestímulo às reformas nos países encrencados – e a posição que o BCE havia assumido, de opor-se a esse papel, exatamente na linha germânica. Seja como for, o teste ainda virá ao longo das próximas semanas. Se os mercados comprarem o acordo como capaz de resolver os problemas da área, ainda que a longo prazo, os líderes europeus terão adquirido tempo para agir. Caso contrário, os juros dos títulos da Itália e da Espanha voltarão a subir (haviam caído um pouco na semana passada), podendo criar uma situação insustentável para as respectivas dívidas.

Caso os temores retornem aos mercados e alguma forma de pânico se instale, não restará alternativa que a de usar o poder de fogo do BCE, a única instituição com capacidade de enfrentar uma crise de maiores proporções, mediante emissão de moeda. Ainda que por ora esse não seja o cenário mais provável, sua ocorrência não pode ser descartada. Neste caso, os alemães terminariam concordando. Para voltar atrás, diriam que agora é diferente, pois teriam conseguido impor um acordo com regras fiscais que garantem a sobrevivência do euro.

Uma das melhores matérias que vi sobre o assunto na imprensa internacional foi a assinada por Charles Forelle e Stephen Fidler, do ‘Wall Street Journal’ (http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203413304577087562993283958.html?mod=WSJ_World_MIDDLENews). Para eles, a reação positiva dos mercados na sexta-feira foi motivada mais “pelo alívio de ter visto um acordo do que pelo acordo em si.” O entusiasmo pode arrefecer com a leitura dos detalhes “ou com a continuada falta de clareza sobre o papel a ser exercido pelo BCE.”

Os jornalistas assinalam que as novas regras fiscais já haviam circulado antes e se destinam a enfrentar uma das maiores falhas da moeda única: “os 17 países da zona do euro têm um banco central e uma política monetária, mas pouco controle prático sobre as decisões que uns e outros têm de efetuar gastos”. O acordo final resultou de uma solução de compromisso entre os dois grandes atores do continente. “A Alemanha, o grande disciplinador do bloco, conseguiu muitos pontos apenas por ter obtido um pacto fiscal. A França, cujos bancos são grandes credores dos países mais fracos da zona do euro, conseguiu que a Alemanha cedesse em sua insistência de que eles sofressem as perdas potenciais dos calotes.”

A matéria do WSJ toca no ponto essencial a ser observado nas próximas semanas. O jornal reproduz declarações de Jacques Cailloux, economista-chefe para a zona do euro do Royal Bank of Scotland, em Londres. “A única pergunta que se faz agora é se o acordo político abre o caminho para intervenções mais fortes do BCE nos mercados de dívida soberana”. Não ficou claro o que faria o BCE depois da sexta-feira. Para o presidente do banco, Mario Draghi, diz a matéria, o acordo teria formado “uma boa base” para uma compacta saída fiscal.

Forelle e Fidler dizem ser claro que países da zona do euro contam que o BCE estará pronto para o resgate, se este se tornar necessário. Esses países deram apenas pequenos passos para reforçar o fundo criado para enfrentar a crise, de 500 bilhões de euros, concordando em antecipar em um ano a sua vigência, para 2012.

O tempo e a reação dos mercados dirão se a calma de sexta-feira permanecerá, ou se o BCE virá a ser o salvador-mor da zona do euro ou se a moeda única entrará em colapso. Pelo que está em jogo, a melhor aposta é a de que o euro sobreviverá, ao preço de um longo período de baixo crescimento no bloco. Daí virá uma nova dúvida: haverá condições políticas de sustentar esse sofrimento? Surgirão propostas populistas vencedoras, que tornarão inevitável a desintegração da zona do euro? Aí já estamos no longo prazo. O importante agora é resolver o curto prazo, o que tem tudo para acontecer.”

 

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens relevantes da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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