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Mailson: aumentam os riscos de colapso do euro

Posição da Alemanha, contra usar BCE como emprestador final, pode gerar pànico

Carla Miranda

28 de novembro de 2011 | 11h36

mailson_da_nobrega.JPGAlemanha rejeita a ideia de usar o BCE como emprestador de última instância, o que pode gerar um pânico incontrolável, escreve Mailson da Nóbrega* (foto), em comentário abaixo.

“O que parecia pouco provável há algumas semanas, começa a tomar corpo: o colapso do euro. Os alemães continuam teimosamente a apoiar saídas para resolver a perda de confiança de investidores nos papéis da Itália e da Espanha. A única instituição com capacidade de financiar esses dois países – ainda solventes – é o Banco Central Europeu (BCE), mas os líderes da Alemanha rejeitam o uso do BCE como emprestador de última instância para os países encrencados da União Europeia. A justificativa é correta – evitar que o apoio os desvie da rota das reformas – mas levada ao extremo pode detonar um pânico incontrolável que levaria a região para o desastre. O risco de isso acontecer poderia amolecer a posição alemã, mas isso pode chegar tarde demais para evitar a catástrofe da desintegração da zona do euro e talvez da própria União Europeia.

A revista ‘The Economist’ desta semana tem matéria especial e comenta o assunto em um de seus editorais. Para a revista, à medida que a zona do euro caminha para o colapso, muitos estão considerando que os líderes europeus tudo farão para salvá-lo. As consequências da destruição da moeda única seriam tão catastróficas que nenhum governo responsável permitiria que isso acontecesse. ‘A desintegração do euro causaria uma recessão global pior do que a de 2008-2009. A região financeiramente mais integrada do mundo se fragmentaria em meio a calotes, falências bancárias e controles de capitais. A zona do euro poderia dividir-se em partes diferentes, ou um grande bloco ao norte e um fragmentado sul.’ Para a revista, dada a gravidade da crise, ‘a sobrevivência da União Europeia estaria em dúvida’.

Acontece que a ameaça de desastre, diz a revista, nem sempre evita que isso ocorra. ‘O risco de a zona do euro se espatifar aumentou de forma alarmante, por conta do pânico financeiro, da crescente fraqueza econômica e da teimosa temeridade dos líderes políticos. As chances de um pouso suave estão desaparecendo rapidamente’. O crescente receio dos investidores de um colapso do euro tem alimentado uma corrida contra os ativos das economias mais fracas, um estampido que nem mesmo fortes ações dos governos parece capaz de estancar.

O pânico que envolve os bancos não é menos alarmante, diz a ‘The Economist’. ‘Seu acesso aos recursos nos mercados de atacado secou, e o crédito interbancário é cada vez mais difícil, tendo em vista que bancos se recusam a emprestar uns a outros. Adicione-se a austeridade fiscal cada vez maior, imposta por toda a Europa, e restará pouco dúvida de que a zona do euro sofrerá uma forte recessão em 2012, com uma queda de produto da ordem de 2%. Crises financeiras passadas mostraram que essa espiral declinante somente pode ser contida mediante medidas corajosas para recuperar a confiança dos mercados. ‘Mas os formuladores de políticas públicas parecem incapazes ou não querem agir.”

A cautelosa chanceler alemã, Angela Merkel, pode ser implacavelmente eficiente em questões políticas, como se viu da forma como ela tirou o tapete de Silvio Berlusconi. ‘Uma contração de crédito é mais difícil de gerenciar. Juntamente com outros líderes, ela se recusa em reconhecer a extensão do pânico nos mercados.’ O BCE rejeita a ideia de agir como emprestador de última instância para governos solventes mas em dificuldades. ‘O receio de criar risco moral, em que o apoio financeiro reduz a pressão para os países devedores abraçarem as reformas, é a razão aparente para bloquear todos os planos de resgate’. Ocorre que isso só reforça o nervosismo dos mercados em relação a todos os títulos da zona do euro, incluindo a Alemanha, e torna mais provável o colapso da moeda.

A situação não pode continuar, assinala a revista. ‘Sem uma dramática mudança de atitude do BCE e dos líderes europeus, a moeda única pode desintegrar-se dentro de algumas semanas.’ Sua morte pode ser causada por qualquer evento, como a falência de um grande banco ou o fracasso de algum governo nos leilões de seus títulos.

Algo pode ser feito para evitar o desastre? A resposta é positiva, assegura a The Economist, mas a escala da ação necessária aumenta à medida que passa o tempo para agir. ‘A única instituição capaz de prover alívio imediato é o BCE. Como emprestador de última instância, o BCE pode salvar bancos mediante a oferta ilimitada de liquidez por muito tempo, mediante um leque amplo de garantias.’ Rejeitar essa lógica para os governos é errado, afirma. “um vasto afrouxamento monetário poderia evitar a recessão e ganhar tempo. ‘Reviver a confiança e reconquistar os investidores para a compra de títulos públicos requer mais do que o apoio do BCE. Exige a reestruturação da dívida grega e a reforma de instrumentos nos quais os investidores acreditem. Isso requer uma barganha política: apoio financeiro de que os países da periferia necessitam em troca de mudanças de regras que a Alemanha e outros demandam.’

A senhora Merkel não pode continuar a ameaçar fracas economias com a exclusão imediata da moeda única e ao mesmo tempo assegurar os mercados de que salvarão o euro. A menos que ela escolha logo uma dessas saídas, conclui a ‘The Economist’, ‘a chanceler alemã vai descobrir que a escolha terá sido feita antes dela’.”

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens relevantes da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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