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Mailson da Nóbrega: Berlim, a nova capital da Europa

A sede da União Europeia ainda é em Bruxelas, mas principais decisões são tomadas na Alemanha

Carla Miranda

31 Outubro 2012 | 15h12

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* recomenda um artigo publicado no Financial Times segundo o qual a Alemanha é quem tem tomado as principais decisões do bloco. Abaixo, comentário de Mailson

 

Gideon Rachman, colunista do Financial Times, escreveu instigante artigo sobre a crescente influência da Alemanha nas decisões da União Europeia (UE), particularmente da Zona do Euro (ZE). Para ele, as principais instituições da UE ainda estão baseadas em Bruxelas, mas suas decisões mais importantes são tomadas crescentemente em Berlim. “A Grécia tem de deixar o euro? Em última análise, a decisão é da Alemanha. Os políticos vão apoiar novos resgates para o sul da Europa? Os debates vitais acontecem no Congresso de Berlim e não no Parlamento Europeu. Para quem o FMI telefona sobre a crise do euro? As conversas mais importantes ocorrem com o governo alemão e o Banco Central Europeu, em Frankfurt”.
Essa mudança de poder de Bruxelas para Berlim se acelerou com a crise do euro. A chanceler Angela Merkel ainda comparece às reuniões de cúpula em Bruxelas, mas a crise mostra que ela é agora a líder mais importante na mesa. Por razões distintas, os líderes europeus chegam lá em posição fraca. A Espanha e a Itália vivem a braços com suas crises. O governo britânico optou por ficar fora do euro e das novas estruturas em construção. Está marginalizado. Os poloneses não estão no euro e têm uma economia relativamente pequena. Resta a França. Por tradição, a cooperação franco-germânica está no centro de qualquer acordo na UE. “Por muitos anos, as cúpulas foram precedidas de uma reunião separada entre a França e a Alemanha e de uma declaração conjunta dos dois países”, diz o articulista. Um alto funcionário da UE fez uma declaração jocosa: “a França precisa da Alemanha para disfarçar sua fraqueza; A Alemanha precisa da França para que não ser perceba como é forte”.

Há quem argumente, prossegue Racham, “que a cooperação franco-germânica sempre avançou aos poucos e que as duas nações vão inevitavelmente estar juntas mais uma vez, embora de forma diferente do passado. O fosso de poder entre os dois países se tornou muito óbvio, enquanto os assuntos que os dividem são muito fundamentais”. De fato, as diversas propostas francesas para os bônus europeus, a união bancária, os gastos em infraestrutura na região e os programas sociais comuns são recebidos com grande suspeitas em Berlim. A Alemanha desconfia que essas ideias traduzem o desejo de que os contribuintes alemães subsidiem a França. Ao mesmo tempo, a contraproposta alemã – o controle dos orçamentos nacionais por um comissário europeu – é descartada pelos franceses, que a julgam uma inaceitável violação da soberania do país. Por tradição, uma solução de compromisso franco-alemão vai ser alcançado, mas esses assuntos são muito básicos e por isso não será fácil chegar lá. “Neste caso, a posição relativamente forte da Alemanha poderia ser decisiva, particularmente, como Berlim suspeita, porque a França caminha para uma profunda crise econômica”, conclui o articulista.

O aumento de poder da Alemanha é visto de forma ambígua na Alemanha. Por óbvias razões históricas, a Alemanha do pós-guerra jamais buscou uma posição dominante na Europa. Depois da reunificação, sempre se disse que o objetivo seria “uma Alemanha europeia, nunca uma Europa alemã”. Acontece que a impaciência com o descumprimento de regras e a incontinência fiscal de outras partes da Europa está tornando os alemães em insistir abertamente na necessidade de uma Europa “mais” germânica. “O preço da assistência financeira alemã será a crescente aceitação de regras e leis formuladas em Berlim”, assinala Racham. Esse tipo de poder pode levar à arrogância. “O problema – se existir – é que vida é muito doce em Berlim. A Alemanha é próspera e Berlim é uma cidade prazerosa e está na moda. Os conflitos da Grécia e da Espanha estão muito distantes. A questão é saber por que Berlim continua uma capital peculiar para a Europa”, arremata o articulista.

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

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