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Mailson: Grécia não deveria ser sacrificada em favor do euro

Saída não é abandonar a moeda única; é retomar o crescimento econômico

Carla Miranda

20 de agosto de 2012 | 13h39

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* chama atenção para artigo no Financial Times segundo o qual a solução para a Grécia não é sair do euro; é crescer

Se a Grécia tiver que sair do euro, será preciso uma decisão unilateral do país ou sua expulsão pelos demais membros da união monetária. Sem acesso aos mercados de capitais, os gregos não querem sair. Teria que ser ejetada por Bruxelas e Berlim. Seria justificável? Seria ajuizado? É o que pergunta o professor de Política e Economia da Universidade de Atenas, George Pagoulatos, em artigo no Financial Times.

Um argumento comum em favor da saída forçada é o de que a Grécia tem falhado em reduzir seu déficit público. “É verdade que o déficit continua alto e as reformas do setor público engatinham, mas, quando se olha os avanços até agora, emerge um quadro diferente”, diz o professor.  Em dois anos (2010 e 2011), o déficit primário foi reduzido em 8,2 pontos de percentagem do PIB. Catastrofistas observam o déficit comercial e antecipam que a Grécia nunca vai recuperar sua competividade. Ocorre que, diz o autor, “a liberalização do mercado de trabalho e acentuados cortes de salários estão provocando uma necessária ‘desvalorização interna’. Se os custos do trabalho forem incluídos, a taxa de câmbio efetiva da Grécia está em seu nível mais competitivo em uma década”.

Os críticos falam de falta de vontade política, mas o governo conseguiu aprovar no Parlamento, com maioria de dois terços, o mais doloroso programa de ajuste da história recente da Europa, incluindo uma redução de 22% no salário mínimo. Mais 11,5 bilhões de euros de cortes no orçamento estão sendo concluídos. “Os ajustes da Grécia até o momento não justificam a imagem de fracasso”, defende o articulista. Acontece, prossegue ele, “que o quinto ano de recessão é um sinal de que o status quo deixou de ser uma opção. O PIB caiu quase 7% em 2011 e se espera outra queda de 7% em 2012. A Grécia está em uma depressão”.

De todos os problemas gregos, incluindo a austeridade, o mais danoso é a ameaça de sair da zona do euro. “Embora saudáveis, eficientes empresas gregas enfrentam fornecedores exigindo pagamento em espécie para importações. Clientes estrangeiros viram as costas, dizendo que ‘estamos satisfeitos com seus negócios, mas não sabemos se você vai durar muito”. O mesmo se pode dizer da atitude em relação à privatização. Claro, o programa enfrenta sérios obstáculos políticos e burocráticos, mas os investidores ficam de fora, em grande parte, porque temem a substituição da moeda. Outro absurdo argumento mencionado em Bruxelas, sustenta o autor, é o de que a Grécia deve abandonar o euro porque sua dívida pública é insustentável. Acontece que a maioria dessa dívida está em mãos de credores oficiais. A saída detonaria um calote, gerando perdas de capital em outros países europeus, o que envenenaria as relações por anos.

“A solução não é a saída, mas o crescimento”, assevera Pagoulatos. “Uma extensão de dois anos no prazo para cumprimento do ajuste fiscal, como a Grécia tem solicitado, reduziria o impacto da austeridade”.
A Grécia poderia voltar a crescer, diz, “com o duplo impulso de reformas estruturais mais rápidas e investimentos estrangeiros diretos. Instrumentos como os fundos estruturais e mais recursos do Banco Europeu de Investimentos e do Fundo Europeu de Investimento ajudariam”, completa o professor.

As incertezas que cercam a Grécia são em si mesmas desestabilizadoras?. Sim, responde o articulista, “mas a saída do euro seria bem pior”. E prossegue: “Se a Europa aceitasse a saída da Grécia, estaria criando o risco de desintegração da zona do euro. A regra de irreversibilidade da união monetária estaria abalada. A zona do euro se renderia à interminável especulação sobre qual país seria o próximo. Depositantes começariam a corrida contra os bancos em outros países periféricos, O pânico se estabeleceria. Programas de salvação fracassariam diante de assustados investidores. A saída da Grécia traria anos de horror para a zona do euro”, é o fecho do artigo.

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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