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Nobel de Economia ataca agências de ‘rating’ e bancos

Para Amartya Sen, democracia na Europa é ameaçada pela crise

Carla Miranda

27 de junho de 2011 | 12h20

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* (foto), colaborador do Radar Econômico, chama atenção para um artigo de Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, publicado no jornal britânico “The Guardian“.

Escreve Mailson da Nóbrega:

“O economista indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia e autor do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, acaba de explorar novos ângulos em torno da crise europeia e dos planos de austeridade impostos à Grécia. Em artigo para o ‘The Guardian, de Londres, Sen levanta questões, incluindo as relacionadas à democracia europeia, que dificilmente serão consideradas pelos líderes europeus que buscam gerir a crise. Depois que a tempestade passar, todavia, é provável que seus argumentos contribuam para pensar as origens da crise e para adotar medidas para evitar sua repetição.

Seu artigo começa com um alerta: a governança democrática da Europa está ameaçada pelo excessivo papel que as instituições financeiras e as agências de ‘rating’ têm tido no desenrolar da crise. Sen destaca dois aspectos. Primeiro, a necessidade de ‘governança mediante discussão’, defendida por Walter Bagehot e John Stuart Mill (pensadores do século XIX).

Assim, se se aceita que as instituições financeiras e agências de ‘rating’ têm um entendimento realista sobre o que deva ser feito, dever-se-ia ouvi-las, o que não é a mesma coisa que lhes permitir impor medidas a governos democraticamente eleitos. Segundo, Sen duvida se os sacrifícios demandados tornariam viáveis os precários países em crise e garantiriam a continuidade do euro no contexto da preservação dos atuais padrões de amálgama financeira e do número de membros do clube do euro.

Sen parece sugerir que a saída para a crise exige repensar a união monetária europeia. Para confirmar essa interpretação, mais à frente ele relembra que ele foi contra a criação do euro, embora fosse firme adepto da unidade europeia. ‘Minha preocupação  sobre o euro era parcialmente relacionada à renúncia de cada país à sua liberdade de conduzir a política monetária e de promover ajustes na taxa de câmbio, instrumentos que no passado ajudaram enormemente países a sair de suas dificuldades’. Para ele, ‘a maravilhosa ideia política de uma Europa democrática e unida foi empreendida com a incorporação de um precário programa de amálgama financeira’ (o euro).

Sen acha que a estratégia generalizada de ajuste em curso, de ‘sangue, suor e lágrimas’ para reduzir o déficit público, pode matar a galinha que põe os ovos de ouro do crescimento econômico. Ele lembra a relação entre crescimento e arrecadação tributária. E invoca exemplos como o endividamento do pós guerra e do encontrado pelo presidente Clinton, dos EUA. Em ambos os casos, o crescimento ajudou enormemente a resolver o problema.

As razões da crise não escapam à análise de Sen. ‘Como os países do euro chegaram a essa bagunça?’, pergunta ele. Sua resposta está em linha com a quase unanimidade das análises, qual seja, a de que o erro está em adotar uma moeda comum sem maior integração política e econômica.

Ele conclui o artigo admitindo que o rearranjo da zona do euro envolve muitos problemas, ‘mas temas difíceis precisam ser inteligentemente discutidos, em vez de permitir que a Europa vague pela força de ventos financeiros alimentados por mentes estreitas e donas de terrível experiência’ (ele se refere aos erros das instituições financeiras e das agências de ‘rating’, que contribuíram para a crise financeira detonada em 2008).

Sen sugere que o processo para rearranjar a zona do euro comece com a criação imediata de restrições à livre ação das agências de ‘rating’. Isso porque ‘estancar a marginalização das tradições democráticas da Europa tem uma urgência que é difícil exagerar. A democracia europeia é importante para a Europa – e para o mundo’.

É difícil não concordar com as críticas de Sen às agências de ‘rating’. Elas tendem a seguir os mercados. Melhoram a classificação de risco de países quando os mercados estão otimistas e mudam rapidamente quando a confiança cai. Um bom exemplo é a recente elevação da classificação de risco do Brasil pela Moody’s. Entre as razões da medida, está sua crença na robustez do programa fiscal do governo para os próximos anos. Quando se consideram os enormes riscos de não se cumprir metas fiscais em 2012, a decisão da agência é no mínimo precipitada.”

Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens relevantes da imprensa nacional e estrangeira.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

Leia também o artigo de Amartya Sen (em inglês)

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