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O homem que fugiu da manada e lucrou US$ 7 bi com a crise

Carla Miranda

21 de dezembro de 2009 | 19h28

Uma reportagem do diário nova-iorquino The Wall Street Journal, publicada nesta segunda-feira, mostra a trajetória de David Tepper, o homem que lucrou bilhões durante a crise financeira internacional. Ele administra um fundo que obteve ganhos de US$ 7 bilhões em 2009, sendo que, para ele próprio, ficaram US$ 2,5 bilhões. Seu segredo: apostar que os Estados Unidos conseguiriam evitar uma crise semelhante à da Grande Depressão dos anos 1930.

Em fevereiro e março, Tepper comprou surradas ações de bancos norte-americanos, num momento em que a maior parte dos investidores estava fugindo dessas aplicações. Ele levou papéis do Bank of America por menos de US$ 3 e ações preferenciais do Citigroup por menos de US$ 1.

Tepper havia lido, ainda em fevereiro, que o Departamento do Tesouro dos EUA iria comprar ações preferenciais de bancos ou adquirir participações que tinham menos chances de retorno, mas também menor risco.

Resultado: em março, o preço das ações do Citi triplicou e, até o início de dezembro, a empresa de Tepper, chamada Appaloosa, lucrou 120%. A título de comparação, os fundos de “hedge” acumulam ganhos de 19% até novembro, após a crise do final de 2008. No ano passado, 1.500 fundos desse tipo fecharam (16% do total), sempre de acordo com o jornal.

Com o sucesso de seu fundo nos últimos meses, Tepper hoje administra cerca de US$ 12 bilhões, “um montante que faz da Appaloosa um dos maiores fundos de ‘hedge’ do mundo”, diz o Wall Street Journal. No ano passado, o patrimônio líquido de seu fundo estava em US$ 2 bilhões.

Os maiores ganhos de Tepper têm sido sempre em apostas que fogem das tendências: em 1997, com a crise asiática, comprou ações na Coreia do Sul e as juntou a uma carteira de títulos da dívida russa, ganhando milhões de dólares quando os mercados se recuperaram dois anos depois. Em 2007, apostou em ferro, carvão e outras matérias-primas, até os preços subirem em 2008.

As apostas de Tepper, no entanto, nem sempre dão certo. No ano passado, por exemplo, perdeu mais de US$ 1 bilhão depois que um executivo do banco Société Général, Jérome Kerviel, revelou ter perdido US$ 7,2 bilhões. Tepper temeu um efeito manada no mercado, com investidores vendendo esses papéis, e desfez-se da parte que tinha; mais tarde, os títulos voltaram a subir.

“Ele é o oportunista quintessencial, investindo em qualquer classe de ativo, mas é preciso ter um estômago de ferro (para lidar com ele)”, disse ao WSJ Alan Shealy, seu cliente há 18 anos. Shealy se refere ao adjetivo derivado do termo de Aristóteles “quinta-essência”, o éter, que, por extensão de sentido, é usado para dizer que algo é extremamente precioso.

Crescido em uma família de classe média, Tepper trabalhou no banco de investimentos Goldman Sachs, de onde saiu em 1993 para fundar a Appaloosa. Ele obteve sucesso com seu empreendimento e, em 2004, chegou a doar US$ 55 milhões para a faculdade em que estudou, a Carnegie Mellon University, cuja escola de negócios passou a se chamar “Tepper School of Business”. Ele também adquiriu participações no time de futebol americano Pittsburgh Steelers e costuma assistir aos jogos realizados no estádio da equipe.

Hoje, Tepper mostra-se disposto a continuar correndo alto risco uma vez que prevê que a taxa básica de juros dos EUA continuará baixa (hoje está entre 0% e 0,25% ao ano). Recentemente, investiu mais de US$ 1 bilhão em títulos do setor imobiliário (especificamente, papéis garantidos por hipotecas de edifícios comerciais) que estavam desacreditados. Ele prevê dois cenários: se a economia melhorar, ganhará uma bolada em juros pagos por esses papéis; se isso não ocorrer, ele se tornará um credor tão influente que conseguirá dizer de que forma essas propriedades deverão ser reestruturadas.

Analistas alertam que ele está assumindo um risco grande, pois o valor desses imóveis continua caindo, e os credores desse tipo de negócio não costumam ter grande poder de influenciar a reestruturação.

Mas a sorte parece estar ao lado da família Tepper desde gerações anteriores. De acordo com o jornal, o pai de Tepper, um contador que trabalhava de domingo a domingo, chegou a ganhar US$ 715 mil na loteria. Por que Tepper deveria parar, agora que é, no mercado financeiro, um apostador profissional?

Acesse aqui a reportagem do Wall Street Journal na íntegra, em inglês

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