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Obama conclama população a defender taxa sobre ricos

Presidente diz que os mais pobres sofrerão com corte de gastos e ricos têm que contribuir

Carla Miranda

25 de julho de 2011 | 22h43

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, apareceu na televisão na noite desta segunda-feira, 25, para conclamar os americanos a pressionarem os parlamentares a votar pelo aumento de taxas sobre os 2% mais ricos do país.

Mais uma vez tendo a retórica como seu ponto forte, o presidente americano disse que neste momento de crise todos precisam contribuir, e que os cortes no orçamento, se não forem acompanhados por uma taxa sobre os mais ricos, significariam um peso excessivo sobre a maioria da população.

“Como podemos pedir para um estudante pagar mais pela sua escola antes de pedir que um administrador de fundos pare de pagar taxas inferiores às de sua própria secretária?”, perguntou Obama. “Vamos pedir aos americanos mais ricos e às maiores corporações que abram mão de alguns de seus benefícios tributários e deduções especiais.”

“A única razão pela qual esse plano equilibrado não está indo adiante é o fato de que um número significativo de republicanos no Congresso está insistindo em uma abordagem diferente – uma abordagem que não demanda dos americanos mais ricos e das maiores corporações nenhuma contribuição.”

Mais adiante, acrescentou: “Por isso eu peço a todos vocês que façam com que suas vozes sejam ouvidas. Se você quer uma redução do déficit de forma equilibrada, permita que o seu representante no Congresso saiba.”

O presidente tentou mostrar que os republicanos (oposição) não estariam sendo coerentes com o próprio partido ao rejeitar a proposta de taxar os que ganham mais. “‘Você prefere reduzir déficits e taxas de juros por meio do aumento da receita proveniente daqueles que não estão contribuindo com uma parcela justa, ou você prefere aceitar déficits maiores, altas taxas de juros e desemprego?’  Essas palavras foram ditas por Ronald Regan (ex-presidente republicano).” Para Obama, o calote provocaria aumento dos juros e queda do emprego.

“Jogo perigoso”

Para o presidente americano, a oposição está fazendo “um jogo perigoso que nunca ocorreu antes”. Segundo ele, a maioria dos americanos provavelmente nunca havia ouvido a expressão “teto da dívida” porque, historicamente, esse limite sempre foi elevado quando necessário.

O republicano Regan, disse Obama, aumentou o teto 18 vezes; o também republicano George W. Bush o fez sete vezes. Desde os anos 1950, o Congresso sempre aprovou o limite da dívida, afirmou o atual presidente.

Com um encerramento solene, ficou a ideia de que não aceitar um acordo significa posicionar-se contra a pátria. “O mundo inteiro está vendo. Vamos aproveitar esse momento para explicar por que os Estados Unidos da América ainda são a maior nação do planeta: não apenas porque nós podemos cumprir a nossa palavra e honrar as nossas obrigações, mas porque nós podemos permanecer unidos como uma nação. Obrigado. Deus o abençoe, e Deus abençoe os Estados Unidos da América.”

Durante o discurso, Obama afirmou que, por meio da combinação de cortes de gastos e aumento de taxas sobre os que ganham mais de US$ 250 mil por ano, o governo terá uma redução de US$ 4 trilhões no seu déficit. Segundo o presidente, 98% da população não será afetada pelo aumento de taxas.

Quem é o vilão?

Desde o início do discurso, Obama se posicionou como chefe de Estado, e não como representante do seu governo. Por exemplo, disse “gastamos demais” na última década – uma referência, portanto, não à sua administração, ou não apenas a ela, mas aos antecessores dele. Ele lembrou que herdou um déficit de US$ 1 trilhão nas contas públicas, resultado de aumentos de despesas ao longo dos anos 2000.

Uma vez que tal resultado fiscal não foi iniciado na atual administração e que nenhum dos dois partidos é isento de culpa, como disse o próprio Obama, a questão de fundo que acompanhou todo o discurso é: quem será o culpado por um eventual calote dos EUA? O atual presidente da República, que herdou o desequilíbrio fiscal, ou o Congresso, que ameaça impedir a elevação do teto do endividamento pela primeira vez na história? Obama habilmente deixou tais perguntas nas entrelinhas.

Se o presidente, como expoente máximo do Estado, tende a atrair os holofotes tanto nos momentos de sucesso do país como nos de crise, o discurso, transmitido ao vivo pela televisão, teve o objetivo de virar o jogo, colocando luz sobre a oposição e pintando-a como vilã da história, como um grupo supostamente intransigente que não quer um esforço coletivo (com a participação dos mais ricos) para resolver a crise da dívida americana.

A íntegra do discurso está no site da Casa Branca (em inglês)

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