Os riscos do cigarro eletrônico chinês
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Os riscos do cigarro eletrônico chinês

Estudo detecta no vapor dos cigarros eletrônicos níveis prejudiciais de níquel e cromo quatro vezes acima do observado na fumaça de cigarros tradicionais

Economia & Negócios

16 Dezembro 2014 | 10h04

Testes com cigarros eletrônicos em fábrica na China (Foto: NYT)

Testes com cigarros eletrônicos em fábrica na China (Foto: NYT)

David Barboza
THE NEW YORK TIMES
SHENZHEN – Numa oficina suja, em meio a tonéis fumegantes de produtos químicos, operários estão ocupados transformando barras de aço inoxidável em esguios invólucros de metal, um componente crucial dos cigarros eletrônicos.

Não faz muito tempo que a Skorite Eletronics era uma empresa pequena que lutava para produzir peças para canetas. Hoje ela é parte de uma enorme – e pouquíssimo supervisionada – cadeia de fornecimento concentrada aqui, responsável pela produção de 90% dos cigarros eletrônicos do mundo.

Esse ano, os fabricantes chineses devem fornecer mais de 300 milhões de cigarros eletrônicos aos Estados Unidos e Europa, onde chegarão às prateleiras de lojas como Wal-Mart, 7-Eleven, lojas de conveniência de postos de gasolina e tabacarias especializadas em vaporizadores.

Esses dispositivos se tornaram cada vez mais populares, especialmente entre o público jovem, mas centenas de fabricantes de cigarros eletrônicos operam na China sob pouca supervisão.

Especialistas dizem que a fabricação falha ou desleixada pode levar à presença de metais pesados, substâncias cancerígenas e outros compostos perigosos como o chumbo, latão e zinco, que foram detectados em alguns cigarros eletrônicos.

Um estudo detectou no vapor dos cigarros eletrônicos níveis prejudiciais de níquel e cromo quatro vezes acima do observado na fumaça de cigarros tradicionais; outro revelou que metade dos cigarros eletrônicos tinha defeito e alguns liberavam vapor manchado por fibras de silicone.
Também houve relatos de cigarros eletrônicos que explodiram nos EUA quando a bateria ou carregador elétrico sofreu superaquecimento, causando queimaduras.

“Precisamos compreender do que são feitos os cigarros eletrônicos”, disse Avrum Spira, especialista pulmonar da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, “e o processo de fabricação é uma parte crucial dessa compreensão”.

Teste com cigarro eletrônico  em fábrica na China (Foto: NYT)

Teste com cigarro eletrônico em fábrica na China (Foto: NYT)

 

Uma análise das operações de manufatura realizada pelo New York Times em Shenzhen revelou que muitas fábricas são legítimas e realizam esforços de controle de qualidade, mas algumas são operações de baixo padrão que não têm equipamento para testes de segurança ou se especializam na falsificação, usando peças mais baratas.

O NYT visitou várias instalações do tipo em Shenzhen, incluindo uma operação de falsificação montada numa garagem e outra que imitava uma marca de cigarros eletrônicos chamada Russian 91%, cujo destino seria os EUA, de acordo com o gerente da fábrica.

A indústria dos cigarros eletrônicos na China se desenvolveu de maneira diferente das demais, como brinquedos, roupas e celulares, com marcas globais terceirizando a produção para a China, monitorando e fazendo valer os padrões de controle de qualidade.

As empresas chinesas estiveram entre as primeiras a desenvolverem os cigarros eletrônicos, e isso ocorreu num vácuo regulatório. Nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA, agência de vigilância sanitária) acaba de começar a pensar na regulamentação dos cigarros eletrônicos, desenvolvendo regras que obrigariam os produtores globais, da China e de outros países, a entregar à agência uma lista de ingredientes e detalhes do processo de manufatura.

Mas os analistas dizem que pode demorar anos até que essas regras e novos parâmetros de manufatura sejam definidos. Enquanto isso, fábricas chinesas aceleram o ritmo, na esperança de acumular lucros e participação de mercado antes da chegada do escrutínio regulatório, provavelmente obrigando muitos fabricantes de cigarros eletrônicos a fechar as portas.

“Trata-se de uma indústria bastante caótica”, diz Jackie Zhuang, vice-gerente geral da Huabao International, empresa de beneficiamento de tabaco em Xangai e especialista no mercado de cigarros eletrônicos da China. “Espero que logo tudo esteja sob uma regulamentação eficiente.”

Marco zero dos cigarros eletrônicos

 Numa área de 13km2 de uma região ao noroeste de Shenzhen chamada Bao’an há um distrito repleto de parques industriais, onde acredita-se haver mais de 600 produtoras de cigarros eletrônicos, e muitos outros fornecedores de componentes vendendo peças como invólucros de metal, placas de circuitos integrados, resistências de aquecimento e baterias de íon-lítio no atacado, os componentes essenciais do cigarro eletrônico.

Um fabricante de Shenzhen que precise de 50 mil invólucros de metal pode encomendá-los a um fornecedor local, que pode entregá-los por cerca de US$ 25 mil em questão de horas.

Diferentemente das oficinas de falsificação, as maiores operações de fabricação de cigarros eletrônicos de Shenzhen são relativamente limpas, com fileiras de trabalhadores sentados em bancos de plástico acompanhando uma rápida linha de produção.

Em 2004 um farmacêutico chinês chamado Han Li desenvolveu o cigarro eletrônico, que era então vendido por sua empresa, Beijing Ruyan. Outros fabricantes logo surgiram e, em 2009, com os cigarros eletrônicos se tornando mais populares nos mercados ocidentais, novas fábricas foram abertas.

A explosão no consumo fez da China o berço de um novo – e alguns diriam até inovador – produto. Mas o governo chinês não desempenhou nenhum papel no desenvolvimento da indústria nem na sua regulamentação.

Fabricação falha ou desleixada pode levar à presença de metais pesados, substâncias cancerígenas e outros compostos perigosos (Foto: NYT)

Fabricação falha pode levar à presença de metais pesados e substâncias cancerígenas (Foto: AP)

Como ocorre no Ocidente, a autoridade chinesa para o comércio do tabaco – que age como regulamentadora e produtora estatal de cigarros e produtos do tabaco – foi pega de surpresa por um produto que não é considerado alimento nem remédio nem droga e, possivelmente, nem mesmo um produto do tabaco.

Mas algumas empresas chinesas tentam se antecipar às regras da FDA americana. A First Union é uma das maiores, operando vários complexos manufatureiros aqui em Shenzhen, com cerca de 6 mil funcionários. Suas instalações têm salas com parede de vidro, livres de pó, descritas pela empresa como tão limpas quanto um laboratório farmacêutico.

A First Union e a Kimree, rival da região próxima de Huizhou, dizem fabricar para muitas das marcas de cigarros eletrônicos mais vendidas. Mas nenhuma dessas empresas chinesas tem uma longa história. Os fundadores da Kimree, que deu entrada recentemente no processo de abertura do seu capital para uma oferta pública inicial nos EUA, começaram fabricando eletrônicos, como telefones sem fio.

E, antes de entrarem para o ramo dos cigarros eletrônicos em 2006, os fundadores da First Union fabricavam sutiãs de gel de silicone e cintas para a perda de peso. Os executivos das empresas dizem que essas são capazes de produzir artigos de alta qualidade.

“Usamos os mesmos padrões de controle de qualidade empregados nos fabricantes de dispositivos médicos”, disse Sunny Xu, presidente da First Union./Tradução de Augusto Calil