Por que a educação não é a resposta para a desigualdade
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Por que a educação não é a resposta para a desigualdade

A alta da desigualdade, segundo o economista, não é uma questão de quem possui o conhecimento, mas de quem tem poder

Economia & Negócios

25 Fevereiro 2015 | 13h22

Paul Krugman, The New York Times

Os leitores habituais sabem que às vezes caçoo das “pessoas muito sérias” – políticos e especialistas que repetem solenemente pérolas do senso-comum que soam elaboradas e realistas. O problema é que parecer sério e ser sério estão longe de ser a mesma coisa, e algumas dessas posições aparentemente elaboradas são na verdade maneiras de evitar as questões realmente difíceis.

O melhor exemplo disso foi, é claro o Bowles-Simpsonismo – o afastamento do discurso da elite em relação à tragédia do desemprego em andamento, desviado para a questão supostamente fundamental de como exatamente pagaremos pelos programas da previdência social daqui a duas décadas. Fico feliz em dizer que essa obsessão específica parece estar minguando. Mas tenho a impressão que há uma nova forma de evitar as questões importantes embalada como seriedade em ascensão. Dessa vez, a distração envolve desviar o discurso nacional sobre a desigualdade para um debate a respeito de supostos problemas no ensino.

E isso é uma tentativa de distração porque, independentemente do que queiram crer as pessoas muito sérias, o aumento acentuado na desigualdade não é um problema de ensino, mas de poder.

Para deixar claro: sou a favor de um ensino melhor. O ensino é meu amigo. E deveria ser acessível e disponível para todos. Mas o que vejo o tempo todo são pessoas insistindo que problemas no ensino seriam a raiz da ainda lenta criação de empregos, dos salários estagnados e do aumento na desigualdade. A ideia soa séria e ponderada. Mas trata-se na verdade de uma concepção que contradiz as evidências, além de ser uma forma de se esconder do verdadeiro e inevitável debate partidário.

A narrativa que coloca o ensino no centro dos problemas americanos diz o seguinte: vivemos num período de mudanças tecnológicas sem precedentes, e um número demasiadamente grande de trabalhadores americanos carecem das qualificações necessárias para acompanhar essa mudança. Essa “lacuna de qualificações” está limitando o crescimento, porque as empresas não encontram os trabalhadores de quem necessitam. Também aumenta a desigualdade, pois os salários aumentam rapidamente para os trabalhadores com as qualificações certas, mas entram em estagnação ou declínio para aqueles com menos ensino. Assim, o que precisamos é mais ensino de melhor qualidade.

Imagino que isso não pareça novidade – é o que se diz entre os analistas dos programas de TV da manhã de domingo, nos artigos opinativos de líderes da comunidade empresarial como Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, em “estudos de contexto” do Hamilton Project, centrista, da Brookings Institution. O discurso é tão repetido que muitas pessoas provavelmente supõem que isso seja uma verdade inquestionável. Mas não é assim.

Para começar, será que o ritmo de mudança tecnológica é mesmo tão acelerado? “Queríamos carros voadores, e conseguimos 140 caracteres”, brincou o investidor Peter Thiel. Os ganhos de produtividade, que aumentaram de maneira acentuada brevemente depois de 1995, parecem ter desacelerado muito.

Além disso, não há evidências de uma lacuna de qualificações que estaria limitando os empregos. Afinal, se as empresas estivessem desesperadas por trabalhadores com determinadas habilidades, seria de se esperar que oferecessem salários extremamente atraentes para tais funcionários. Então, onde estão esses profissionais sortudos?

Podemos encontrar alguns exemplos aqui e ali. É interessante que alguns dos ganhos salariais mais expressivos dos tempos mais recentes ocorreram entre os trabalhadores manuais qualificados – operadores de máquina de costura, torneiros – conforme parte da produção manufatureira é transferida de volta aos EUA. Mas a ideia segundo a qual a demanda geral por trabalhadores altamente qualificados seria alta é simplesmente falsa.

Por fim, embora a narrativa do ensino/desigualdade possa ter soado plausível um dia, faz tempo que ela se distanciou da realidade. “Os salários dos indivíduos mais habilidosos e bem remunerados continuaram a aumentar constantemente”, diz o Hamilton Project. Na verdade, se ajustados pela inflação, o rendimento dos americanos com o melhor ensino permaneceu no mesmo patamar desde o final dos anos 1990.

Assim, o que está havendo de fato? Os lucro corporativos aumentaram muito enquanto parcela da renda nacional, mas nada indica um aumento na proporção de retorno sobre o investimento. Como isso é possível? Bem, é o que seria de se esperar se o aumento nos lucros reflete um poder de monopólio em vez de retorno para o capital.

Quanto aos salários e honorários, podemos esquecer os diplomas universitários – todos os ganhos expressivos são canalizados para um pequeno grupo de indivíduos que ocupam posições estratégicas nos arranjos corporativos ou que trilham os rumos das finanças. O aumento na desigualdade não é uma questão de quem possui o conhecimento, mas de quem possui o poder.

Ora, há muito que podemos fazer para corrigir este desequilíbrio de poder. Poderíamos aplicar impostos mais altos às corporações e aos mais ricos, e investir a arrecadação em programas que ajudam a famílias de trabalhadores. Poderíamos aumentar o salário mínimo e facilitar a organização entre os trabalhadores. Não é difícil imaginar um esforço verdadeiramente sério para tornar os Estados Unidos menos desiguais.

Mas, dada a determinação de um grande partido em empurrar as políticas públicas exatamente na direção oposta, soamos partidários ao defender uma iniciativa desse tipo. Por isso o desejo de enxergar a situação toda como um problema de ensino. Mas devemos reconhecer o que esse desvio de lógica realmente representa: uma fantasia sem nenhuma seriedade./Tradução de Augusto Calil

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