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Real estava forte por culpa do Brasil, diz ‘Financial Times’

Em editorial, jornal britânico insinua que país atua de forma dissimulada

Carla Miranda

23 de setembro de 2011 | 07h00

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Na sua mais forte crítica às recentes medidas do governo brasileiro para proteger a indústria instalada no País, o jornal britânico “Financial Times” escreveu em editorial que o real estava em alta nos últimos meses (antes da disparada do dólar nos últimos dias) por culpa do Brasil. Acrescentou, ainda, que impostos sobre importados podem desencadear uma guerra comercial.

“O Brasil teme que o real possa subir ainda mais se os Estados Unidos e o Reino Unido embarcarem em novo afrouxamento quantitativo [emissão de dinheiro]. Aos seus olhos, Brasília é a vítima inocente de uma Guerra Cambial Parte 2, ainda que o real forte seja resultado de seu próprio erro”, afirma o “FT”.

O jornal avalia que a alta da moeda brasileira ocorreu porque o governo aumentou gastos no ano eleitoral e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) “vomitou crédito barato” na economia. Essas medidas teriam contribuído para o aquecimento da economia e pressionado a inflação, obrigando o Banco Central a elevar a taxa de juros. Com juro mais alto, o Brasil atraiu capital externo, elevando a cotação da moeda local, segundo o “Financial Times”.

“O Brasil deu um tiro no pé, mas culpou outros pelo ferimento. Pior: por razões políticas, ele diversas vezes culpou o país errado, os EUA, ainda que sejam as importações chinesas, não as americanas, que estejam esvaziando a base industrial do Brasil.”

Finta brasileira

O editorial passa a ideia de que o Brasil estaria agindo de modo dissimulado. A proposta para que a Organização Mundial do Comércio (OMC) lhe permita retaliar países que provoquem desvalorização de suas moedas por meio de políticas monetárias frouxas seria uma “manobra”.

“Os bem preparados diplomatas brasileiros certamente sabem que sua manobra na OMC não levará a lugar nenhum. Reescrever as leis da OMC que determinam quais subsídios não são permitidos requereria a aprovação de todos os membros – o que é virtualmente impossível”, diz o jornal.

E continua: “A rejeição na OMC poderia levá-los a fingir desapontamento e então assumir o protecionismo, seguido por uma guerra comercial”. O texto, intitulado “Brazilian feint”, que pode ser traduzido como “Finta brasileira”, termina dizendo que “o Brasil gosta de desempenhar o papel de apaziguador quando não está agindo como vítima. [Mas] Desta vez, precisa dar um passo atrás e pensar de novo”.

Sem paciência

O editorial do “Financial Times” é mais uma amostra de que diversos analistas e algumas autoridades do mundo rico estão perdendo a paciência com o Brasil. Até o ano passado, a imprensa e os chefes de governo de países desenvolvidos ouviam as críticas dos brasileiros quase sempre sem rechaçar – algumas vezes até apoiavam.

Quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, cunhou o termo “guerra cambial internacional”, em setembro do ano passado, o mesmo “Financial Times” estampou essas palavras no alto da primeira página, na condição de principal notícia do dia, e ainda publicou uma análise que endossava a tese do brasileiro.

Mas conforme a disputa foi ficando séria – ao mesmo tempo em que a crise das dívidas nos países ricos engrossava – foram surgindo críticas, mais intensamente agora que o Brasil começa a extrapolar o campo da guerra cambial e passar para o campo comercial.

O presidente do Banco Mundial disse ontem (quinta, 22) que “haverá tentação de alguns países de começar a proteger suas indústrias manufatureiras” e citou o caso do Brasil, onde a indústria enfrenta dificuldade devido ao real forte.

Também nesta semana, a revista “The Economist” afirma que o Brasil está criando uma cerca em volta de si, por meio de medidas protecionistas, como o aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre carro importado e a criação de barreiras para venda de terras a estrangeiros. A revista alerta, ainda, contra o protecionismo na Argentina.

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