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Reviravolta no FMI repercute entre Nobéis de Economia

Economista-chefe do Fundo gerou reflexões de Krugman e Spencer

Carla Miranda

20 de abril de 2011 | 15h18

luiz_fernando_de_paula_.jpgUm artigo publicado no site do Fundo Monetário Internacional (FMI) em março está causando frisson entre economistas. Trata-se de uma reflexão radical do economista-chefe da entidade, Oliver Blanchard, sobre os rumos das políticas macroeconômicas mundiais. Luiz Fernando de Paula* (foto), colaborador do Radar Econômico, indica um site que resume a opinião de eminentes estudiosos sobre o texto.

A lista dos que comentaram o assunto inclui dois estudiosos contemplados com o Prêmio Nobel de Economia: Michael Spence (premiado em 2001) e Paul Krugman (2008). A questão também teve espaço no Brasil, com artigos de José Paulo Kupfer (no Estadão) e Antonio Delfim Netto (no “Valor Econômico”), entre outros.

“A crise econômica global nos ensinou a questionar nossas mais caras convicções sobre a forma de conduzir a política macroeconômica”, afirmou Blanchard.

Os nove tópicos polêmicos

A reflexão de Blanchard consiste em nove tópicos, resumidos abaixo, indicando que a questão das políticas macroeconômicas vive atualmente um momento decisivo:

1. “Nós entramos em um mundo muito diferente em termos de formulação de políticas e simplesmente temos que aceitar isso.”
2. “Na velha discussão do relativo papel dos mercados e do Estado, o pêndulo virou, pelo menos um pouco, para o lado do Estado.”
3. “A crise mostrou que há muitas distorções relevantes na macroeconomia, muito mais do que pensávamos anteriormente.”
4. “A política macroeconômica tem muitas metas e muitos instrumentos [mais do que aqueles normalmente discutidos, de controlar a taxa de juros a ajustar a política fiscal].”
5. “Nós não sabemos como usar esses instrumentos.”
6. “Esses instrumentos são potencialmente úteis, mas o uso deles cria um conjunto de questões econômicas. [Por exemplo] Alguns são politicamente difíceis de executar, como a criação de uma estrutura regulatória multilateral”.
7. “Para os pesquisadores, o futuro é empolgante. Há muitos tópicos a serem explorados.”
8. “As coisas são mais difíceis no front político. Se nós não sabemos como usar esses instrumentos, como os políticos vão proceder?”
9. “Temos que manter nossas crenças em xeque. Haverá novas crises que não conseguiremos prever.”

Luiz Fernando de Paula indica o site do FMI para acompanhar a repercussão desse artigo entre especialistas. Paula comenta o assunto:

“Como relatado no blog do FMI, em 5/4/2011, tem sido boa a repercussão da breve e interessante síntese de uma discussão organizada por Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, relacionada a um fórum de discussão patrocinado pelo próprio Fundo, do qual participaram eminentes economistas, como Dani Rodrik, Joseph Stiglitz, Michael Spence, Paul Romer e Robert Solow, entre outros.

O título do documento é “The Future of Macroeconomic Policy: Nine Tentative Conclusions” (“O Futuro da Política Macroeconômica: Nove Conclusões Preliminares”). Na síntese de Blanchard coloca-se que a necessidade de se repensar a relação Estado-economia (com o pendulo indo agora mais para o Estado), a importância de entender o financiamento das instituições financeira e sua interação com a macroeconomia, a necessidade da política macroeconômica ter muitas metas (não só estabilidade de preços, mas também estabilidade financeira e estabilidade do produto) e muitos instrumentos – sendo neste particular válido o uso de medidas macroprudenciais e devendo a política fiscal ter um papel contra-cíclico que vá além da visão estreita “Gastos menos Impostos”, etc.

Paul Krugman diz em um de seus artigos que não se surpreende com a iniciativa do Blanchard, que foi seu colega no MIT, de questionar as bases teóricas da política macroeconômica convencional. Seria bom que alguns economistas “tupiniquins” brasileiros começassem a ventilar suas idéias. Nunca é tarde demais!”

Veja o que grandes economistas falaram sobre o artigo

Leia o texto original no site do FMI (em inglês, francês e espanhol)

* Luiz Fernando de Paula é professor de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador do CNPq, e Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB).  É autor, entre outros, do livro “Financial Liberalization and Economic Performance: Brazil at the crossroads” (Routledge, 2011).
Blog da Associação Keynesiana Brasileira (AKB): http://associacaokeynesiana.wordpress.com

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