Wal-Mart eleva salário mínimo de 500 mil empregados nos EUA
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Wal-Mart eleva salário mínimo de 500 mil empregados nos EUA

Medida significa um custo anual de US$ 1 bilhão, diante de um faturamento de US$ 485,7 bilhões previsto para 2015

Economia & Negócios

20 Fevereiro 2015 | 18h37

REde de supermercados anunciou novo salário mínimo para 500 mil trabalhadores (AFP)

REde de supermercados anunciou novo salário mínimo para 500 mil trabalhadores (AFP)

THE WASHINGTON POST

O Wal-Mart anunciou que seu menor salário será aumentado para US$ 9 por hora (o equilente a R$ 25,20), o que irá beneficiar 500 mil trabalhadores nos Estados Unidos.

De acordo com o lobby varejista dos Estados Unidos, isso só prova que o setor privado é capaz de melhorar a renda do trabalhador por conta própria – sem necessidade de interferência do governo.

“O anúncio feito pelo Wal-Mart envolvendo os salários dos funcionários é outro exemplo do poder do mercado”, disse o presidente da Federação Nacional de Varejistas, Matthew Shay, em pronunciamento. “Como muitas outras redes de varejo, o Wal-Mart tomou sua decisão com base naquilo que é melhor para seus funcionários, seus consumidores, seus acionistas e as comunidades nas quais a loja é presente.”

Mas isso é verdade? Será mesmo que existe pressão ascendente nos salários a ponto de obrigar o Wal-Mart a melhorar seus piores salários?

Certamente, não faltam motivos para que uma empresa pague mais aos seus funcionários. Algumas das maiores redes de varejo – incluindo Gap, Ikea e Aetna – parecem ter percebido isso nos meses mais recentes. Mas empresas como Costco e Trader Joe’s sabem há muito que salários menores reduzem o abandono do emprego e aumentam a produtividade, poupando dinheiro no longo prazo.

Ainda assim, o Wal-Mart parece não ter encontrado problemas para substituir seus funcionários, com tantas pessoas em busca de trabalho, mesmo em troca dos salários mais baixos permitidos pela lei. Os empregos de nível mais baixo exigem pouco ou nenhum treinamento, o que significa que os funcionários podem ser substituídos com relativa facilidade. Os salários baixíssimos pareciam ser apenas a forma mais responsável de aumentar ao máximo o lucro dos acionistas.

Mas, recentemente, o mercado de trabalho vive certo aperto. O porcentual de pessoas procurando por emprego chegou em dezembro ao nível mais baixo desde 2007, com a economia criando um milhão de empregos em três meses.

É por isso que legisladores e responsáveis pelas políticas econômicas mudaram o foco de sua atenção para os salários: o Instituto de Política Econômica (EPI, em inglês), de tendência à esquerda, ilustrou como a recuperação econômica não se traduziu em ganhos de renda para a maioria dos americanos nos anos mais recentes, em vez disso fluindo principalmente para os donos de ações.

De acordo com a teoria, se os trabalhadores tiverem opções melhores, eles começarão a abandonar o barco. E, como escreve Neil Irwin, do New York Times, se um número demasiadamente grande eles fizer isso, o custo de substituí-los começa a prejudicar o rendimento da empresa.

E, na verdade, parece que isso já está ocorrendo. Em análise divulgada na quinta feira, o EPI revela que embora os salários tenham seguido em queda para as pessoas na maioria dos níveis de renda durante a recuperação econômica, desde 2012 eles têm aumentado para os 10% mais pobres.

Isso indica que, num momento em que a economia está criando mais empregos de salários baixos do que empregos de salários altos, talvez seja necessário pagar um pouco mais para preencher essas vagas. E o próprio Wal-Mart pode ter compreendido que colocar mais dinheiro no bolso de seus trabalhadores – que são também sua base de consumidores – pode gerar demanda entre os consumidores e dar algum alento aos lucros minguantes.

Mas outro aspecto, é claro, é a campanha contínua e expressiva feita por grupos apoiados por sindicatos como o OUR Walmart, que há anos busca constranger o Wal-Mart por causa dos baixos salários pagos (todos eles declararam vitória após o anúncio feito na quinta feira). A opinião pública é maciçamente favorável a um salário mínimo mais alto, que chegaria a quase US$ 11 por hora se tivesse acompanhado a inflação desde os anos 1960. E, na ausência de ação por parte do congresso, cidades e estados têm aumentado seus salários mínimos de acordo com esse raciocínio – às vezes com o apoio dos republicanos.

As grandes empresas são provavelmente as que estão em melhor posição para lidar com leis desse tipo, pois podem diluir o custo numa organização imensa. Aumentar os salários de meio milhão de trabalhadores para US$ 9 por hora trará ao Wal-Mart um custo anual de US$ 1 bilhão, de acordo com o anúncio feito na quinta feira,19 – pequena fração dos US$ 485,7 bilhões em renda do ano fiscal de 2015. De sua parte, o Wal-Mart se manteve oficialmente neutro diante de uma proposta federal para o aumento do salário mínimo. Mas, se a empresa perceber que um patamar mínimo mais alto é inevitável, melhor seria antecipar-se à tendência.

O restante do lobby do setor do varejo pode não gostar da jogada, pois aumenta a pressão sobre outras redes para que aumentem também seus salários. É por isso que, para transformar ovos numa omelete, o lobbistas estão usando o raciocínio do Wal-Mart como argumento contrário ao aumento do salário mínimo. Outros empregadores que pagam salários baixos concordam.

“O fato de um salário mínimo de US$ 10 ser a escolha certa para o Wal-Mart… não significa que isso deva se tornar obrigatório para outras empresas, independentemente das dimensões ou da indústria”, diz Michael Saltsman, diretor de pesquisas do Instituto de Políticas de Emprego, financiado pela indústria dos restaurantes.

E há outro motivo pelo qual a decisão do Wal-Mart de aumentar os salários por conta própria pode ajudar os empregadores. Ao fazê-lo voluntariamente – conferindo também aos funcionários mais controle de seus horários, outra demanda fundamental dos grupos trabalhistas – o Wal-Mart se protege potencialmente de uma ameaça maior: a organização dos trabalhadores. Se os funcionários perceberem que podem conquistar melhorias em suas condições de trabalho sem entrarem para um sindicato, talvez se sintam menos inclinados a dar um passo que pode lhes dar verdadeiro poder de negociação no longo prazo.

No fim, trata-se de uma questão de controle. E o Wal-Mart está fazendo o necessário para mantê-lo.
/Tradução de Augusto Calil

 

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