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‘Zona do Silêncio’ nos EUA proíbe desde celular até microondas

De acordo com a BBC, região de 34 mil km² no oeste de Washington não permite uso de aparelhos que emitem ondas de rádio para não prejudicar o telescópio GBT; local abriga até comunidade de 'eletro-sensíveis' no estilo Chuck McGill da série 'Better Call Saul'

Economia & Negócios

20 Maio 2015 | 17h42

Quem se dirige para a região oeste da capital dos Estados Unidos, Washington, chega a uma grande área, com 34 mil quilômetros quadrados, sem sinal de telefonia celular ou de rádio. Localizada perto das montanhas Allegheny, a Zona Nacional de Rádio Silencioso protege o telescópio Robert C Byrd Green Bank (GBT) da interferência de ondas elétricas, informa a BBC.

De acordo com a reportagem da rede britânica, o telescópio é o maior objeto móvel de todo o planeta baseado no chão, com uma superfície de mais de 9 mil metros – mais alto que a Estátua da Liberdade, em Nova York.

Estabelecida em 1958, a Zona de Silêncio é necessária pois o GBT é muito sensível, podendo detectar ondas de rádio emitidas milissegundos depois do nascimento do universo, que podem ser encobertas por interferências de ondas de rádio. De acordo com a BBC, na mesma região, ainda há o maior posto de escuta da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, na sigla em inglês), que também fica livre da interferência de ondas de rádio.

“O telescópio tem a sensibilidade equivalente a um bilionésimo de bilionésimo de milionésimo de um watt… a energia liberada quando um único floco de neve cai no chão. Qualquer coisa feita pelo homem iria encobrir o sinal”, disse Mike Holstine, gerente do local onde fica o telescópio, em entrevista à BBC.

Por conta disso, a vida dos moradores da Zona do Silêncio é bem diferente da que outros cidadãos dos Estados Unidos levam. Eles não tem telefones celulares, fornos de microondas ou até mesmo campainhas sem fio, para não prejudicar o funcionamento do telescópio – e do posto de escuta da NSA.

Em entrevista à BBC, Chuck Niday, que patrulha o Condado Pocahontas, onde moram 8 mil pessoas, no centro da Zona de Silêncio, afirmou que “qualquer tipo de dispositivo elétrico pode causar interferência”

Niday procura constantemente interferências de rádio-frequência, que coloquem em risco a paz de ondas de rádio na Zona de Silêncio. “Uma coisa que lembro, que pode causar muitos problemas, é um aspirador de pó – o tipo do motor que eles usam gera muitas faíscas”, disse Niday.

Por conta disso, prossegue a reportagem da BBC, quem for flagrado usando um aspirador de pó com defeito pode receber um pedido educado para interromper a limpeza.

“Não temos poder de polícia, isto é feito pela agência federal conhecida como Comissão Federal de Comunicações. Tudo o que podemos fazer é pedir para desligarem o dispositivo e 99% das vezes, eles o fazem”, afirmou o patrulheiro à rede britânica.

Em uma ocasião, funcionários do observatório chegaram a comprar um novo aquecedor para um fazendeiro local, quando detectaram que o antigo vazava ondas de rádio.

De acordo com a reportagem da BBC, em uma área de cerca de 1,6 kms em volta do telescópio GBT, os motores movidos a gasolina não são permitidos por causa das faíscas que podem resultar.

Até para saber a direção do vento, em uma pista de pouso próxima ao GBT, não se pode usar aparelhos muito tecnológicos. “Temos uma biruta e um tetraedro para que eles saibam a direção do vento”, disse Holstine à BBC.


Vida sem celular. Se você está pensando que os moradores de lá vivem como o grupo religioso Amish, que são conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis, você está enganado.

De acordo com a BBC, existem algumas exceções às regras da Zona de Silêncio. Serviços de emergência podem usar uma frequência de rádio específica e os funcionários do GBT têm um forno de microondas – que fica dentro de uma gaiola de Faraday para evitar vazamentos – onde podem aquecer o almoço.

Niday, conta a BBC, ainda conseguiu bloquear a interferência de uma antena, para poder ter um programa de jazz na Rádio das Montanhas Allegheny. A operação para não afetar o telescópio, porém, é muito complexa para ser feita em telefones celulares.

A banda larga também é liberada na Zona do Silêncio. Mas, enquanto o resto do país tem acesso a uma internet rápida, a da região das montanhas Allegheny é semelhante à usada 15 anos atrás, afirma a BBC. E as companhias telefônicas não querem investir em cabos melhores para uma comunidade tão pequena.

De acordo com a BBC, há, no entanto, quem goste de morar por lá, em função da vida pacata e com senso de comunidade, onde as conversas não são interrompidas por ligações de telefone celular, nem por notificações ou atualizações de status.

“Você não vê aquela briga dos pais com os filhos, na qual eles falam ‘você precisa largar este telefone’, e os filhos respondem ‘tenho mesmo?’ e eles estão olhando para o telefone discretamente embaixo da mesa e fazendo de tudo para mandar mensagens para os amigos”, disse a diretora local do GBT Karen O’Neill à BBC.

Ainda segundo rede, há também um grupo de “refugiados eletro-sensíveis” – no estilo do personagem Chuck McGill da série Better Call Saul – que se mudou para o lugar.

“Não podemos ficar onde estão as multidões, temos que ficar longe das pessoas pois a maioria delas carrega celulares e isto nos faz mal”, disse Diane Schou, que afirmou ser uma “leprosa tecnológica”, em entrevista à BBC.

De acordo com a reportagem, ela morava em uma fazenda em Iowa mas, depois da instalação de uma antena de celular nas proximidades, ela ficou doente, com irritação na pele e perda de cabelo.

Diane notava que as dores voltavam cada vez que ela chegava em casa: “Era como se alguém acertasse minha cabeça com uma marreta”. Mas, desde que se mudou para Green Bank, a saúde melhorou e ela conhece outras 57 pessoas que encontraram alívio para estes sintomas no lugar.

Assistente do médico local, Rachel Taylor confirmou à BBC que observou um aumento no número de pessoas com problemas parecidos nos últimos anos. Ela disse que ainda não viu nenhum estudo provando o problema, mas está convencida de que “algo está acontecendo” – Chuck McGill concordaria.

Fim do silêncio? O futuro desta Zona do Silêncio no século 21, entretanto, depende, de certa forma, do futuro do próprio GBT, conta a BBC. Isso porque, para mantê-lo, informa a rede, o gasto anual é de US$ 12,5 milhões e a Fundação Nacional de Ciência, que financia o telescópio, avisou que poderá diminuir sua contribuição em 2017.

Segundo a reportagem, ao mesmo tempo em que os funcionários do telescópio buscam sinais do nascimento do universo, eles também buscam mais verbas. “Eles querem usar o dinheiro para construir novos telescópios no Chile. Estamos tentando encontrar projetos alternativos que vão trazer dinheiro e, neste momento, o mais promissor é o rastreamento de satélites”, disse Holstine à BBC.

E não são apenas os 200 funcionários que mantêm e operam o GBT, empregados em outros setores como limpeza, alimentação, infraestrutura e hospedagem para cientistas visitantes também podem estar com o futuro ameaçado.

De acordo com a reportagem, parte das instalações pode fechar ainda em 2015, mas Holstine espera que a maior parte da base continue funcionando.

De qualquer forma, se o telescópio for mesmo desativado, o posto da NSA continuará funcionando e assumirá o patrulhamento da área, que, entretanto, não deve ser tão severo quanto à presença de ondas de rádio na região de Green Bank.

Alguns acreditam que isso, inclusive, possa abrir o caminho para que dispositivos sem fio não oficiais se infiltrem na região e mudem de vez a cara da “Zona do Silêncio”.

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