Fachadas verdes ganham novo ‘contorno’ em prédios
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Fachadas verdes ganham novo ‘contorno’ em prédios

Depois dos projetos que forraram empenas cegas pela cidade, empresas apostam nas fachadas com plantas do lado com janelas

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10 Fevereiro 2019 | 06h10

Jéssica Díez Corrêa
ESPECIAL PARA O ESTADO

Em 2015, um chamamento público parisiense desafiou jovens urbanistas a criar projetos inovadores que representassem o futuro da capital francesa. Entre os 372 trabalhos apresentados, um ponto em comum: todos com amplas fachadas verdes.

As ideias instigantes dos profissionais europeus tiveram efeito no Brasil: a construtora Gamaro diz ter se inspirado neles para lançar, agora, o Seed. Trata-se de um edifício sustentável com 328 m² de fachada com mata atlântica, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo.

Prédios cobertos com plantas não é novidade na cidade. Em 2013, o Movimento 90°, fundado pelo arquiteto e paisagista Guil Blanche, surgiu com o objetivo de criar jardins verticais em prédios vizinhos ao Minhocão. Concebida na França em 1994, a técnica ocupa as empenas cegas (fachadas sem janelas) com plantas nativas e baixa necessidade de poda, com sistema próprio para captação e armazenamento de água. A iniciativa foi bem sucedida e recebeu o apoio da prefeitura. Hoje, são mais de 4 mil m² dessas fachadas na cidade.

Prédio da Zarvos, em Pinheiros. Foto: Jivago Bratker

No caso de área verde fora das empenas cegas, que é o caso do Seed, o projeto influencia a vista e o dia a dia do morador.

Segundo Ricardo Cardim, botânico e paisagista responsável pelo projeto, a diversidade da flora paulistana contribuiu para que a ideia fosse bem sucedida. Cada um dos 80 apartamentos terá, em média, de 2 a 3 m² de árvores plantadas, inclusive frutíferas – o equivalente a sete ou oito árvores, cada uma podendo chegar a 3 metros de altura.

“A gente está falando de um envelopamento verde. São plantas que vivem 70 anos, têm densidade vegetal. Isso cria uma condição de ecossistema de mata atlântica em uma fachada de prédio. É um impacto enorme para a região”, diz Cardim.

Segundo o botânico, a quantidade de matéria orgânica em um projeto como o Seed traz diversos benefícios, como minimização da poluição sonora, ajuste da temperatura, aumento na umidade do ar, controle de pragas urbanas e redução de poeira e vento. Além disso, os chamados “pocket forests” (florestas de bolso) da Gamaro vão servir de abrigo para a fauna.

Todo esse verde exige cuidados. Além de o prédio contar com um sistema interno de irrigação das plantas, a poda e a manutenção das fachadas estará a cargo da Gamaro por cinco anos. Depois disso, deverá ser definido em convenção se a manutenção ficará a cargo do morador ou do condomínio.

Vinicius Amato, diretor de incorporação da construtora, afirma que esses jardins encareceram em 10% o valor das unidades, que têm 81 ou 84 m² e foram vendidas a partir de R$ 765 mil. Para ele, o investimento vale a pena. “É mais do que sustentabilidade, é conexão com a natureza. Se você tem uma cidade mais verde, tem uma cidade com melhor qualidade de vida.”

A Idea!Zarvos é outra incorporadora que aposta no verde em seus projetos. O executivo Otavio Zarvos explica que o mote da empresa é promover uma arquitetura autoral de alto nível, o que, frequentemente, pode incluir a conexão do urbano com a natureza.

“Assim a gente consegue uma integração do prédio com o entorno dele, integrando-o melhor à paisagem. Esteticamente, isso atrai”, afirma ele. Zarvos, no entanto, pondera que é necessário avaliar previamente se uma fachada de plantas tem funcionalidade no projeto.

“Sustentabilidade é uma questão mundial, mas tem de se tomar cuidado com os custos de manutenção. Quando a gente põe uma parede verde em um empreendimento, ela tem que ter motivo para estar ali.” Entre os propósitos, ele cita a proteção térmica, especialmente em edifícios que pegam muito sol.

Seed, edifício sustentável da Gamaro. Foto: Melissa Binder

Ricardo Pajero, gerente comercial da Mac Construtora, concorda: “É preciso avaliar bem o projeto, porque encarece. Você precisa de uma irrigação interna constante e tem toda uma tecnologia envolvida nisso, não é só pendurar vaso”.

Em 2021, a Mac entrega o Is Moema, que terá uma parede verde. As áreas comuns terão divisórias de vidro, permitindo a contemplação da estrutura natural. Apesar desse projeto, Pajero conta que a construtora tem optado com mais frequência por manter a natureza no chão nos empreendimentos.

Quota ambiental da prefeitura dá direito a desconto

No final de 2016, a Prefeitura de São Paulo aprovou um decreto regulamentando a aplicação da quota ambiental nos empreendimentos com área superior a 500 m². A quota varia de acordo com a localização e a dimensão do lote.

Para o construtor atingir a quota, ele precisa inserir uma série de soluções no empreendimento, como cobertura e fachada verde, área ajardinada e vegetação, pavimentos porosos ou semi-permeáveis e reservatório de retenção. Cada item do projeto possui um valor específico.

Quando a pontuação atingida para a quota é superior ao mínimo exigido, são concedidos benefícios econômicos ao empreendimento, como o desconto na outorga onerosa (taxa para edificar acima do potencial construtivo). Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, a implementação da quota contribui para a atenuação das alterações microclimáticas, a melhoria da drenagem urbana e a proteção da biodiversidade.

Profissionais do setor ambiental, como o botânico e paisagista Ricardo Cardim, veem o incentivo com bons olhos. “A quota ambiental é um claro avanço. A iniciativa privada já está fazendo sua parte, agora é hora de o poder público fazer a dele.”