Adolescentes conquistam espaço nos condomínios

Adolescentes conquistam espaço nos condomínios

Edifícios investem em áreas para entreter jovens e, dessa forma, reduzir problemas

Claudio Marques

23 de junho de 2014 | 10h13

Repensar a convivência entre os diferentes públicos que habitam um condomínio é tarefa diária dos síndicos. Foco de muitas incorporadoras, os adolescentes, com seu dinamismo e disposição, ganham espaços só para eles nos empreendimentos.

Hoje, além de eventos destinados especificamente ao público juvenil, é possível encontrar nos edifícios diversas áreas para acomodá-los: salões de festas e de jogos, área para ouvir e tocar música (garage band), pistas de skate, salas de estudos. “Esses espaços deixam os pais mais sossegados”, diz a professora de administração de condomínios da Escola Paulista de Direito (EDP) Rosely Schwartz.

Segundo ela, esse é um dos motivos pelos quais os novos condomínios já nascem com áreas para jovens e aqueles que não têm itens de lazer para esse público buscam criá-las.

“Quando não há o espaço, o síndico deve reunir pais e adolescentes e conversar. Eles devem entender, juntos, as necessidades e escolher um lugar adequado para os jovens.” O gestor deve também, de acordo com Rosely, avaliar a viabilidade de implantação dos pedidos e ser o responsável pela fiscalização.

A professora da EDP, também autora do livro Revolucionando o Condomínio, acredita que o síndico deva estar preparado para se relacionar com adolescentes, não ser radical e colocar no regulamento as destinações de uso, as multas e os horários de utilização. “Ter proximidade é muito importante para estar atento às demandas”, diz.

Délio Amorim é síndico de um condomínio da zona norte da capital com salão de jogos juvenil e um lounge, com sofás, que foi adotado pelos adolescentes como local de convivência. “Eles gostam e usam esse espaço, que é só para eles.”

Amorim acompanha a moçada de perto (Foto: Amanda Perobelli)

O condomínio de Amorim já foi entregue com esses ambientes – sem dúvida, um facilitador. No entanto, o gestor considera que destinar de forma adequada os espaços e regulamentar das áreas foi um desafio: o fato de existir o local, diz ele, não quer dizer abrir mão do controle. “A vigilância deve ser constante”, ressalta.

Com muitos adolescentes circulando no condomínio, o síndico convocou uma assembleia para normatizar o uso dos espaços e as punições aplicadas para as possíveis ocorrências. “Procuramos mostrar de forma amigável para os pais como deve ser o uso das áreas, e aplicamos algumas penalidades alternativas para as infrações”, afirmou.

Quando alguma irregularidade é cometida no edifício, antes de aplicar qualquer multa ou advertência, o síndico chama o pai do adolescente, informa o que houve e, se tiver a aprovação do responsável pelo jovem, aplica as penas alternativas. “O adolescente presta um serviço voluntário para o edifício, como a separação de cartas ou a ajuda no jornal interno, com alguma habilidade que tenha, sempre consensualmente”, conta. Para Amorim, é imprescindível estar aberto para conversar e não ser rígido em excesso. “Tem de ouvir, entender as necessidades e mostrar o que pode ser feito.”

Regras. Na opinião da gerente da Oma Patrimônios, Gisele Fernandes, é fundamental haver regras claras em relação ao uso e horário dos espaços. “O regimento interno deve ser respeitado. Se as regras não são apresentadas e esclarecidas desde o início, os adolescentes podem trazer problemas ”, diz.

Quando ocorre a infração, os pais devem ser alertados de imediato, de acordo com Gisele. “Os jovens querem ser ouvidos, o que é natural, pois têm demandas. Eles querem reivindicar melhorias para as áreas de lazer ou a flexibilização de horários”, completa.

 

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A gerente da Oma afirma ser recomendável que os adolescentes tenham um representante – pode ser um condômino adulto ou até mesmo um jovem – para conversar com o síndico e até, eventualmente, participar das reuniões com o conselho.

Essa prática é adotada pelo síndico profissional Carlos Theodorohá 12 anos. Ele gerencia dois condomínios na cidade com espaços exclusivos para os adolescentes, como sala de estudos e salão de jogos.

“Há determinações a seguir no regulamento, e eu converso muito com eles. Designamos um deles para ser o responsável pelos horários e uso do espaço. Ele age como representante de sua turma e ajuda na gestão, organização e cuidados da área.”

Para Theodoro, tal medida aumenta o interesse no uso e melhora a convivência. Mesmo nos ambientes de uso comum, o síndico procura fazer atividades específicas para os adolescentes, como aulas de basquete, de skate e de futebol na quadra. “Ter uma atividade exclusiva direciona e não os deixa ‘perdidos’ pelo condomínio.”

Na opinião do síndico, ambientes diferenciados para jovens e para crianças ajudam a criar neles uma consciência de respeito ao espaço alheio, além de deixar os pais tranquilos em relação aos filhos.

Theodoro também considera que ter áreas exclusivas ajudam na sua gestão. “Os jovens têm um espaço quase restrito para fazer suas atividades, e isso não impede que usem os outros ambientes”, afirma.

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