Apartamentos de séries de TV e os apartamentos do mundo real
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Apartamentos de séries de TV e os apartamentos do mundo real

Em Nova York, imóveis seguem encolhendo e o que se vê em algumas séries de TV tomam forma fora das telas; situação afeta os mais jovens

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25 Setembro 2016 | 07h27

Apartamento onde viviam um barista e um chef era um ‘palácio’ de 2 quartos

Friends: apartamento onde viviam um barista e um chef era um ‘palácio’ de 2 quartos

Ronda Kaysen
THE NEW YORK TIMES
O que eu adoro no studio de Marnie, da série Girls, da HBO, em Chinatown, é que eu tive um muito parecido, com chuveiro na cozinha e banheiro no closet. Antes de me mudar para lá, alguém pregou lençóis para esconder um teto horrível. Eu dividia o “um dormitório” em Little Italy com uma companheira de quarto, o que o tornava de certa forma como o studio de 23 m² de Marnie.

A grande diferença é que morei lá em 1999, quando todo mundo estava ocupado em ver Carrie Bradshaw em seu pitoresco apartamento no Upper East Side em Sex and the City. Lembram-se do closet, grande o bastante para andar nele? Qual o freelancer que tem um closet no qual dá para andar?

Mesmo então eu sabia que era absurdo. Mas podia me permitir acreditar, porque meus amigos ainda conseguiam morar em bairros como Williamsburg e Fort Greene, Brooklyn, onde os reveladores sinais da gentrificação – guindastes, restaurantes “da fazenda para a mesa” e aluguéis explodindo – ainda não tinham dominado.

imo01A paisagem urbanística, porém, mudou tão profundamente nas duas últimas décadas, que essa geração de garotas socialites ocupa um tipo muito diferente de espaço. E é um espaço que continua encolhendo, razão pela qual Desi, o desafortunado marido de Marnie, levantou uma parede no meio do minúsculo studio para salvar seu ameaçado casamento. “Bem-vinda a seu novo apartamento de um dormitório”, disse ele, para horror da moça.

À medida que aluguéis cada vez mais altos espremem os jovens de Nova York, os apartamentos da televisão se tornaram mais ásperos, sujos, apertados. Quase mais ferozes.

Uma geração atrás, Carrie podia se queixar do tamanho do closet de um apartamento de US$ 2.800 mensais de aluguel num capítulo em que ela sai atrás de nova moradia após ter sido ameaçada de despejo. “Pago US$ 750 por algo que tem o dobro de espaço”, reclama ela. O corretor não se comove. Carrie, claro, tinha o que a maioria dos nova-iorquinos de então, como os de hoje, só podia sonhar: um apartamento com aluguel antigo.

Hoje temos Abbi, em Broad City, do Comedy Central, procurando apartamento com Pam, a corretora com um colar cervical. As opções de Abbi incluem “um lindo apartamento estilo vagão de trem que cabe em seu orçamento”, de um verde brilhante, sem banheiro, que pode na verdade ser um corredor. Mas é seguramente melhor que um outro, de paredes salpicadas de sangue. “Sabem a série de TV Friends?”, pergunta Pam, abrindo a porta com um canivete. “É aqui.”

O que Abbi encontra ao entrar é a antítese do apartamento de Friends: austero, sem alma e gritantemente branco, exceto, claro, pelo borrifo de sangue, restos de um possível duplo assassinato. “Mais boas notícias: as paredes são super grossas”, diz Pam.

Lembrando, o apartamento de Friends, compartilhado por um jovem barista e um chef que luta para vencer na profissão, era um palácio de dois quartos, com alegres paredes púrpura, no West Village. Mesmo em 1994, poucos de nós se iludiam com as fantasias de Friends, mas de qualquer forma continuávamos assistindo.

Realismo. A televisão ficou mais exigente desde então – espectadores esperam mais realismo. Bem, talvez esperem mais verdade. Mas basta se aprofundar um pouco e programas como Broad City e Girls contam uma história diferente da passagem para a idade adulta, uma história que transcorre à sombra da pior recessão econômica desde a Grande Depressão.

Os personagens dessas séries são parte de uma geração oprimida por empréstimos estudantis e salários estagnados. Unbreakable Kimmy Schmidt, da Netflix, não vive num lugar estilo parisiense, com sacada, em West Village. Coube a ela um apartamento cinzento, num conjunto habitacional, com acesso por escada, no extremo de Greenpoint, Brooklyn.

“As gerações mais jovens têm de encarar a realidade”, diz Lindsay T. Graham, psicóloga no Center for the Built Environment, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Quando se veem séries em que os personagens vivem esse tipo de dificuldade, isso parece familiar.”

O acabamento sofisticado deu lugar à carregação. A mobília é gasta e manchada. As almofadas não combinam uma com a outra. “Se não tiver percevejo, está bom”, diz Angelique Clark, designer de produção de Broad City, contando como a série cuida da ambientação. As paredes foram pintadas inúmeras vezes, e não foi Abbi quem escolheu o verde-cor-de vômito do corredor de seu dois dormitórios em Astoria, Queens.

“Apenas tentamos captar uma Nova York que fosse mais realista para nosso objetivo”, disse Ilana Glazer numa entrevista ao lado de Abbi Johnson, que com ela criou e estrela Broad City. “Ficamos vidradas vendo o set de Friends. É como um cenário de teatro, de frente para a plateia.”

Marnie (de azul) vive em imóvel minúsculo com o marido

Marnie (de azul) vive em imóvel minúsculo com o marido

A inspiração para o studio de Marnie foi um apartamento em que o diretor de arte da série morou uma vez de aluguel. “As pessoas veem e dizem ‘puxa, tive um apartamento como esse’”, avalia Matt Munn, designer de produção de Girls.

A nova realidade nos leva a The Holdouts, uma série da internet sobre um cara ranzinza chamado Kevin, que mora num apartamento dilapidado, de aluguel antigo, no bairro Hell’s Kitchen. A série é descrita como “uma comédia sobre nova-iorquinos que não aguentam mais o custo de vida em Nova York”.

A ideia parece que tocou num nervo exposto. Levou menos de um mês para os criadores levantarem US$ 35.790 no site Kickstarter, em junho, para começar a produção. A filmagem começa neste mês e já no próximo mês poderemos ver o piloto, no qual Kevin resiste às propostas do proprietário para que se mude. “Kevin vive no passado”, diz um dos criadores da série. “Dá vontade de dizer ‘cara, deixa pra lá, cai fora’.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ