Apesar de lei, digitalização de canteiros de obras ainda engatinha

Apesar de lei, digitalização de canteiros de obras ainda engatinha

Sistema conhecido como BIM, que será obrigatório a partir de 2021, substitui planta bidimensional por plataforma 3D; apenas 9,5% das construtoras usam BIM, diz pesquisa

André Marinho

06 de outubro de 2019 | 06h05

Especial para o Estado

Antes de surgir no horizonte de Itaquera, na zona leste de São Paulo, o residencial Vibra Patriarca se assemelha a qualquer outro canteiro de obra da cidade. Caminhões entram e saem pelo local no mesmo ritmo em que trabalhadores preparam cimento e fincam fundações. Mas o empreendimento da construtora Vibra Residencial, que será um condomínio do programa Minha Casa, Minha Vida, tem algo de diferente.

Do projeto ao acabamento, o processo de construção é digitalizado por meio do sistema building information modeling (BIM), ou modelagem de dados de construção. Isso significa que todas as áreas da obra estão integradas em uma única plataforma, que reúne informações relevantes às etapas produtivas. Na prática, a planta bidimensional e a maquete são substituídas por um modelo em 3D.

“Antes, para saber as informações completas sobre uma parede, eu precisava consultar pelo menos três documentos. Hoje, temos todos esses dados em uma única visualização”, explica Cícero Sallaberry, gerente de engenharia da Ambar, empresa responsável pela implementação do sistema BIM no empreendimento de Itaquera.

Ezequiel Magno, no residencial Vibra Patriarca, que usa o sistema BIM. Foto: Taba Benedicto/Estadão

A construtech – como são chamadas startups que atuam no setor – auxilia construtoras e incorporadoras no desenvolvimento e na implementação de tecnologias, entre elas o BIM. Um decreto assinado no ano passado pelo então presidente Michel Temer determinou que, a partir de 2021, o uso dessa ferramenta será obrigatório em várias etapas do empreendimento. Segundo o texto, até 2028 a digitalização deve estar completamente disseminada na construção civil.

A meta está longe de ser cumprida, no entanto. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) indicou que apenas 9,5% das construtoras brasileiras utilizam o BIM. Entre as companhias consultadas, cerca de 19% não souberam responder o que significa o sistema. “Chama a atenção que esse segmento nem sequer tem o conhecimento da existência da plataforma”, ressalta a coordenadora de projetos de construção da FGV, Ana Maria Castelo.

No setor de construções residenciais, o avanço é mais perceptível. Segundo o levantamento, 17,1% das companhias que atuam nessa área já adotaram o BIM. Na avaliação de Ana Maria, o custo da transformação e a cultura analógica da construção civil são os principais entraves, tornando improvável que o prazo do governo seja cumprido.

“Incorporar essa tecnologia não é algo trivial, porque envolve não só o custo de aquisição do programa, mas também o treinamento de mão-de-obra.”

Custos e benefícios do BIM

O custo para fazer a transição ao novo sistema começa em R$ 300 mil, de acordo com estimativas da startup Set Construção Virtual, que leva em conta a aquisição de software e o desenvolvimento de expertise. No entanto, a terceirização do serviço pode diminuir o valor para cerca de R$ 100 mil, diz a empresa, que está embarcada no polo tecnológico Porto Digital (PE) e também reside no Inovabra (SP).

O valor é compensado pelos benefícios do BIM, aponta a Ambar. Segundo a construtech, a redução no tempo de elaboração do projeto pode chegar a 30%. Na obra, o impacto é uma economia de até 2% por unidade habitacional. “A construção virtual traz facilidade no acompanhamento da obra, permitindo uma redução no nível de erros”, diz Salaberry.

Além disso, o sistema BIM pode continuar sendo usado após a conclusão das obras. A Set Construção Virtual desenvolveu um aplicativo que, por meio da tecnologia BIM, permite que síndicos façam a fiscalização em tempo real do condomínio, monitorando o trabalho dos funcionários e gastos de energia, água e gás.

 “O nosso cliente é o edifício, desde a concepção até o retrofit. Daqui a 50 anos, se houver uma obra de reforma, o aplicativo terá todas as informações sobre aquele prédio”, explica a CEO da empresa, Jeanne Karla.

Sem terceirizar o trabalho

Apesar de a terceirização do BIM sair mais em conta, há construtoras e incorporadoras apostando no desenvolvimento do sistema dentro da própria empresa, como a Sinco Engenharia. Ali, os benefícios do BIM também são sentidos, diz a gerente de BIM, Priscila Castro.

“Com a ferramenta, você tem uma gestão melhor da obra e os processos não ficam soltos. É possível cobrar melhor as equipes, saber se vai haver atrasos e acompanhar o andamento do projeto”, explica ela.

Do ponto de vista do cliente final, há o controle do cronograma de trabalho, deixando o proprietário do imóvel a par de como a obra está sendo realizada.

No futuro, aponta Priscila, a ideia é que a ferramenta seja útil mesmo após as entregas das chaves. “O BIM poderá servir para guiar manutenções preventivas. Se o dono do imóvel quiser pintar a parede, por exemplo, ele poderá usar a plataforma para saber as dimensões da área.”

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