Assembleia virtual faz crescer quórum de moradores na pandemia

Assembleia virtual faz crescer quórum de moradores na pandemia

Participação em reuniões online de condomínios dobra em relação às presenciais, mas idosos ainda veem obstáculo na tecnologia; empresas garantem segurança do voto digital

Bianca Zanatta

23 de agosto de 2020 | 06h03

Especial para o Estado

Desde que a Lei 14.010/2020 autorizou, em caráter emergencial, que as reuniões de condomínios ocorram em ambiente virtual até 30 de outubro, síndicos e administradoras tiveram que correr para colocar a ideia em prática. No geral, a mudança foi bem aceita pelos condôminos e cresceu a participação de moradores nas reuniões. Agora, o desafio é acelerar o processo de alfabetização digital para que todos consigam lidar com a tecnologia, principalmente os idosos.

Com mais de mil assembleias virtuais realizadas desde o início da quarentena, a Lello Condomínios registrou participação de 60% dos moradores, representando o dobro das versões presenciais de 2019, que contaram com média de 30% de adesão.

Segundo a gerente de relações com o cliente, Angélica Arbex, migrar para o online já era um caminho que pretendiam trilhar. “Faz um ano que estávamos redesenhando o formato porque não dava mais para as assembleias seguirem o mesmo modelo de 40 anos atrás. Estamos desmistificando a questão com um conjunto de comunicação que realmente busca fazer a inclusão digital.”

Para que a assembleia possa acontecer, a premissa é que todos os condôminos sejam comunicados e tenham o direito de participar. Por isso, foi incluído também um botão “me ajude” na sala de assembleia virtual e uma equipe fica de prontidão para auxiliar no passo a passo. Outra possibilidade é a pessoa participar da reunião por telefone, ligando para um número específico que a insere na sala da plataforma Zoom por voz.

Entre as vantagens do novo formato, a executiva da Lello cita o tempo de duração da reunião e a objetividade. A sala da assembleia virtual fica aberta por até dois dias para análise da pauta e voto, mas o tradicional “papo de salão de festas”, que podia durar até 5 horas, chega no máximo a 1h30 no formato online – e sem estardalhaço. “Quem quer falar levanta a mão e o organizador abre o microfone, cada um de uma vez”, conta.

Raquel Bettoi, de 76 anos, é síndica de um prédio com 124 unidades na Mooca, zona leste de São Paulo, e realizou a primeira assembleia virtual durante a pandemia. Foto: Alex Silva/Estadão

Para auxiliar na mudança para o virtual, a AABIC (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo) criou um protocolo de orientações. Um dos pontos destacados é a necessidade de contar com empresas de tecnologia e desenvolvedores de software que garantam sistemas seguros, com soluções antifraude capazes de comprovar a presença e fazer a contagem dos votos de forma transparente e idônea.

O presidente da associação, José Roberto Graiche Júnior, lembra no entanto que a assembleia presencial não está proibida e ainda é uma opção para condomínios que não conseguiram se adaptar.

“Dependendo do perfil, alguns empreendimentos seguem com o formato presencial e precisam obedecer aos protocolos de segurança e sanitários, como fazer a demarcação de assentos, o uso de máscara de proteção, disponibilizar álcool em gel, escolher um local ventilado ou até aberto e reduzir o número de itens de discussão da assembleia para que o encontro seja o mais rápido possível”, explica.

O quórum dos idosos nas reuniões virtuais

Síndico de um prédio no Jardim Paulistano (zona oeste de São Paulo), o advogado João Carlos Pinheiro, de 51 anos, realizou a primeira assembleia virtual na última segunda-feira, 17. A adesão não foi a mesma do que nas presenciais. Muitos dos idosos que costumavam bater carteirinha não participaram – alguns porque não quiseram, outros porque ainda têm dificuldade para lidar com a digitalização.

“Eu mesmo recorri à ajuda da administradora para entender melhor o sistema”, conta o advogado. “Estamos aprendendo o be-a-bá ainda, mas a tendência é que as pessoas comecem a se familiarizar mais com a tecnologia daqui para a frente.”

Para ele, um dos benefícios do modelo virtual é que a assembleia abre de manhã e segue ao longo do dia, dando aos moradores a liberdade de votar quando preferirem. “O ritmo do debate ao vivo também fluiu melhor do que nas presenciais, que têm discussões mais acaloradas”, afirma.

Em um primeiro momento, a ideia de realizar a assembleia virtualmente assustou a aposentada Raquel Bettoi, de 76 anos, síndica de um prédio com 124 unidades, 24 entradas e 10 mil metros quadrados de área localizado na Mooca (zona leste). O fato de metade dos moradores serem idosos pareceu um complicador.

“Minha geração tem um pouco de resistência a tudo que é virtual, um tipo de bloqueio”, diz a síndica, que precisou encarar o desafio por conta da função. Com ajuda das filhas e da administradora, ela fala que foi criando coragem. “Comecei a me entrosar, a aprender, a sofrer, mas agora já sou craque”, brinca.

No caso dos condôminos, a história ainda é outra. “Muitos são radicais e não aceitam nem receber boleto por e-mail”, relata. Mesmo assim, a primeira assembleia virtual da temporada teve adesão acima da expectativa. “O pessoal foi aceitando, mesmo que ainda reclame muito.” Ela conta que a próxima reunião também será virtual, pois não quer colocar os idosos do prédio em risco. “Aqui só estou deixando abrir para pequenas reformas, bem pontuais, e as áreas de lazer continuam fechadas”, diz.

Plataforma ajuda nas assembleias

Especializado no desenvolvimento de sistemas e soluções para gestão imobiliária, o Superapp COM21, da holding mineira Group Software, registrou crescimento de 1.000% na adesão à assembleia online desde que foi decretado o isolamento social.

O aplicativo oferece ferramentas como integração nativa com o financeiro para gerenciar a liberação de votos, lista de presença eletrônica para auditoria dos dados e registro em cartório e notificação em tempo real de cada decisão tomada.

Apesar do DNA digital, a empresa incluiu entre as soluções cédulas de voto impresso caso algum condômino prefira o meio tradicional. “Tomar a decisão de fazer uma assembleia online, no primeiro momento, já é algo que pode ser interpretado como imposição aos condôminos e causar desconforto”, afirma Danilo Frota, diretor do Superapp COM21.

Segundo ele, a ideia segue o mesmo princípio do voto em urnas eleitorais eletrônicas, que é feito em cédula de papel caso o equipamento falhe. “Eu posso imprimir minha própria cédula ou solicitar ao síndico ou administradora”, explica. O aplicativo também permite que o morador tenha acesso à videoconferência por telefone, para que possa se posicionar perante as questões colocadas em pauta.

“Com uma escolha democrática sobre como participar, temos contribuído para que o quórum aumente e as pessoas tenham mais consciência sobre a política de seu condomínio”, comemora o executivo.

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