Bailarino em NY, brasileiro Marcelo Gomes faz sua estreia nos imóveis compactos

Bailarino em NY, brasileiro Marcelo Gomes faz sua estreia nos imóveis compactos

Claudio Marques

23 de abril de 2014 | 12h57

Satisfeito. “Tenho um porteiro, uma grande mordomia. Decididamente vale pagar por ela” (Imagem: Emily Andrews for The New York Times )

Joanne Kaufman -THE NEW YORK TIMES

Pouco tempo depois de o brasileiro Marcelo Gomes, de 34 anos, mudar-se com sua basset Lua para um condomínio compacto (44 metros quadrados) no bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen, há dois anos e meio, ele deu uma festa de inauguração. E como havia feito em outras ocasiões festivas, como no seu 30º aniversário, Gomes, um bailarino principal do American Ballet Theater (ABT), enviou aos convidados dicas sobre presentes. Neste caso, eles foram solicitados a comparecer com um vaso azul ou branco.

“Acho que faço essas coisas porque não quero incomodar as pessoas com a decisão do que vão me dar”, disse ele. “Elas têm uma missão específica de que alguns amigos gostam e outros não”, acrescentou Gomes com uma risada. “É divertido. Eu vejo a personalidade de meus amigos no que eles me trazem de presente.”

Os vasos, alguns altos e esbeltos, alguns baixos e atarracados, estão amontoados embaixo de um rack branco feito sob medida em frente de um sofá-cama levemente curvo cor de ardósia na sala de estar. “Eu queria alguma coisa decorativa no chão”, disse. “E achei que azul e branco combinavam com o tema cinza e branco que havia.”

Gomes teve um bocado de tempo para refinar esse tema. Ele adquiriu o apartamento de um dormitório, o primeiro que já teve, na planta – “isso foi muito assustador” – dois anos antes de o edifício ser erguido, mas algumas preocupações sobre mergulhar no desconhecido, e o terror de palavras como “banco”, “empréstimo”, “hipoteca”, foram ao menos parcialmente desarmados por palavras como “deque no telhado”, “jardim”, “academia”, “lavadora de louça” e “porteiro”.

“Eu tenho um porteiro”, disse Gomes, parecendo incrédulo. “É a primeira vez desde que moro em Nova York. É uma grande mordomia, decididamente vale pagar por ela.”

Um convite para entrar no corpo de baile do American Ballet Theater o trouxe para a cidade – e para um aluguel na Rua 54 Leste – no ano de 1997. “Quando consegui o contrato, foi tudo muito rápido”, recordou Gomes. Seus pais se mexeram com igual presteza para encontrar um lugar mobiliado e imediatamente disponível para ele morar. “Tenho certeza de que eles pagaram um bocado por ele”, disse. “Provavelmente demais, quando penso nisso.”

Assim que pôde, Gomes mudou-se para o Upper West Side (outro bairro de Manhattan), onde permaneceu por cinco anos até se mudar para Hell’s Kitchen, seu lar na última década. “Eu adoro o bairro. É um pouco de todas as coisas e de todas as pessoas. Há turistas que vivem se perdendo, gays, heteros, atores, bailarinos, famílias, crianças indo para a escola.”

Seu apartamento anterior no bairro, um imóvel de dois quartos, compartilhado, era bastante espaçoso, disse Gomes, mas talvez bagunçado demais. “Eu tinha mais coisas do que tenho agora, mas boa parte daquilo não era muito funcional”, disse. “Acho que quando se mora de aluguel, não se dá atenção às coisas. Tende-se apenas a comprar móveis porque seu preço é bom ou eles são duráveis.”

Mas quando decidiu comprar um apartamento, disse Gomes, “eu sabia que não o queria atulhado. Apesar de ser muito pequeno, eu queria ter uma sensação específica de cada cômodo. Queria que houvesse uma sensação de espaço.”
Assim, ele se deleita particularmente com eletrodomésticos com dupla função – a lavadora de roupa que também é secadora, o forno que é também um micro-ondas – e que se encaixam perfeitamente atrás de portas embaixo do balcão da cozinha. A ilha inteiramente branca onde prepara a comida – ele adora cozinhar – é também um balcão para o café da manhã. Puxe a base para fora, acrescente uma folha, e a peça feita sob medida vira uma mesa de jantar.

Lua. Basset é fiel companheira do bailarino (imagem: Emily Andrews for The New York Times )

“Não acredito que a maioria dos bailarinos seja muito organizada e goste de perfeição”, disse Gomes. “Gosto de vir para casa e sentir que minha casa está se apresentando para mim. Quero que as coisas fiquem longe, mas ao alcance. Gosto que os vasos estejam lá e os garfos fiquem aqui, e as velas estejam ali, e guardemos as vitaminas acolá.”

Uma peça de mobiliário especialmente apreciada é o banco de madeira simples ao lado da porta de entrada; é ali que Gomes larga suas malas, onde ele se senta para tirar os sapatos de sair na rua. “Eu adoro essa sensação de ir a uma casa de campo e poder se sentar em algo e tomar seu chocolate quente”, disse. “É isso que o banco faz. É um lugar para se acomodar e descarregar a carga do dia. É um momento especial.”

Apesar de haver fotos de Gomes se apresentando nas paredes, “não é que eu quisesse trazer meu trabalho para casa”, disse. “Mas sinto que há alguns marcos de que você gosta de se lembrar. É legal olhar para uma foto e pensar: ‘Oh, fiz isso com meu amigo’. Ou ‘passei cinco meses trabalhando em A Dama das Camélias com Diana Vishneva, e aqui estamos nós agradecendo ao público’.”

Ele não exibiria uma foto aleatória dele mesmo saltando no ar mesmo que fosse um grande salto e uma grande foto. “Mas coisas que me lembram de uma luta – é legal ter uma fotografia do que se foi capaz de conquistar”, disse Gomes.
Parte do atrativo do apartamento, afora, é claro. a lavadora de louça e o porteiro, é sua qualidade de novo. “Eu me senti bem de ser o primeiríssimo a girar a chave de um lugar”, disse ele. “Você leva para dentro a própria energia. Não é a energia das pessoas que viveram antes aqui.”

“Há um pequeno jeté no meu passo”, ele prosseguiu. “Estou muito orgulhoso do tanto que trabalhei para chegar aqui. Todos sabem que comprar em Nova York não é fácil.”

Apesar de “amar viajar e se apresentar em diferentes teatros mundo afora”, ele disse, “é muito bom voltar para meu pequeno apartamento. E eu me sinto protegido e seguro aqui. E não há nada como dormir na própria cama”, ele acrescentou, alisando as cobertas: “Eu realmente recomendo espuma com memória”. /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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