Com pandemia e home office, brasileiros se mudam de vez para a praia

Levantamento mostra que buscas por imóveis no litoral paulista subiram 21,6%, com destaque para Santos, que teve alta de 38,9%

Bianca Zanatta, especial para o Estadão

09 de fevereiro de 2021 | 09h08

Morar na praia sempre foi desejo de muitos brasileiros. Com a chegada da pandemia da covid-19 e a aceleração da transformação digital, no entanto, a ideia saiu do plano dos sonhos para se tornar uma realidade consolidada, segundo especialistas.

De acordo com um levantamento da plataforma Apto, enquanto as buscas por imóveis na Grande São Paulo cresceram 18,9% nos últimos seis meses, no litoral paulista elas subiram 21,6%, com destaque para Santos, que teve alta de 38,9%.

A Datastore, especializada em pesquisas de demanda para o setor imobiliário, confirma a tendência em território nacional: em 2019, a intenção de compra nos 24 meses seguintes para imóveis no litoral, chamados de segunda residência, era de 20%. Dos interessados, 31% queriam comprar em até 12 meses. Já em 2020, a empresa registrou número parecido na intenção de compra (21%), mas com 47% tomando a decisão de compra imediata. O principal motivo é que a casa de praia assumiu papel duplo – lazer e moradia definitiva.

Para Marcus Araujo, CEO e fundador da Datastore, já é possível falar em uma tendência consolidada. Ele afirma que a maioria dos polos regionais de produtos de segunda residência, como Torres e Capão da Canoa (RS), Balneário Camboriú, Itapema e Itajaí (SC) e praias do litoral norte paulista, litoral sul carioca e litoral norte baiano, preparam-se para atender à essa demanda.

Segundo Araujo, esse é um movimento para receber pessoas com renda consolidada e que não têm mais necessidade de morar perto do trabalho. “Esse grupo trabalha com serviços e tem necessidades mínimas de encontros presenciais para produzir sua renda.”

Como exemplo dessa mudança ele cita a Riviera de São Lourenço, no litoral paulista, que ganhou vida própria o ano inteiro, sem depender mais dos feriados e da alta estação. “Existem inúmeras pessoas que se mudaram para lá em definitivo e os fornecedores de serviços agradeceram, reforçando seus estoques”, diz. Esse também é o caso da Praia do Forte, na Bahia. “As pessoas estão morando lá e vão a Salvador a cada 15 dias ou uma vez por mês.”

Sobre o perfil dos compradores, Araujo destaca aposentados e casais que não querem ter filhos ou vão esperar um momento mais calmo para pensar no assunto. Há também pessoas com filhos em idade de faculdade, que podem fazer o curso online, e casais com pets.

Como reflexo dessa migração, construtoras e imobiliárias que trabalham com o litoral tiveram um ano bastante aquecido, apesar da crise econômica. A CFL, incorporadora da Região Sul que prevê seu maior volume histórico de lançamentos para este ano, registrou aumento de 40% nas vendas nos últimos seis meses de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019. Só agora em janeiro a procura por imóveis em Florianópolis dobrou em relação ao mesmo período do ano passado.

Entre as apostas da CFL para atender à demanda estão empreendimentos como o Vitra, construído na Praia do Forte, na ponta mais valorizada de Jurerê Internacional, e o Moradas do Canto, que vai nascer às margens da Lagoa da Conceição, também na capital catarinense, com apartamentos e casas suspensas e plantas de 380 a 620 metros quadrados.

No litoral norte paulista, a imobiliária de alto padrão Costa Cesar teve um aumento de 50% em 2020 – melhor ano da história da empresa, segundo a CEO Renata Cesar. Para ela, na impossibilidade de viajar, muitos decidiram investir em uma casa na praia.

A empresária, que também se transferiu de vez para o litoral e agora trabalha caminhando na areia, conta que o perfil de compradores é variado, com uma maioria de advogados, executivos de multinacionais e profissionais do mercado financeiro. Entre eles, muitos casais jovens, com dois ou três filhos, que viram benefícios de bem-estar na mudança. “Uma caminhada na praia entre um zoom e outro” é um exemplo de benefício apontado pela CEO.

A chegada dos novos moradores trouxe ainda transformações na região. Ela fala que os pequenos mercados locais tiveram de se organizar e profissionalizar serviços para atender mais pessoas. “Surgiram novos hortifrútis, peixarias, empórios e minimercados no entorno das praias, além dos serviços de delivery de drogaria, por exemplo, que antes não existiam”, conta a empresária.

Mudança

Do outro lado da moeda, há também quem tenha visto economia em ir para o lado do mar. É o caso dos artistas e músicos Giulia Melito, de 25 anos, e Mauricio Ribeiro, de 26 anos. Com os planos de casar adiados pela pandemia e o trabalho de Giulia na área de eventos em stand-by, os dois saíram da edícula onde viviam, na zona sul de São Paulo, para passar uma temporada na casa de praia da família dela em Ubatuba, litoral norte paulista.

De lá, decidiram entrar na experiência de cabeça e escolheram Parque Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), para fincar raízes. Agora, estão dando aulas de música e canto online e começaram a investir em pequenas reformas na casa, aos poucos, enquanto acertam o novo fluxo financeiro. Segundo eles, às vezesdá saudades das pessoas e da agitação cultural da capital paulista, mas nada bate o silêncio da natureza. “A melhor parte é poder olhar o céu à noite”, diz a nova “caiçara”.

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