Cidade de 15 minutos: é possível fazer em São Paulo?

Cidade de 15 minutos: é possível fazer em São Paulo?

Programa que ajudou prefeita de Paris a se reeleger acende debate e especialistas apontam questões de mobilidade a desigualdade social; secretário municipal defende Projetos de Intervenção Urbana

Bianca Zanatta

06 de setembro de 2020 | 06h00

Especial para o Estado

Hora de fechar os olhos e imaginar: trabalho, escola, parque, comércio, saúde, cultura, entretenimento – tudo a apenas 15 minutos de casa, não importa em que ponto da cidade você viva. Criado pelo franco-colombiano Carlos Moreno, professor de urbanismo da Sorbonne, o conceito de “cidade de 15 minutos” foi abraçado pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que se reelegeu em julho com um programa pautado na ideia.

Para concretizar os planos, a mobilidade é o principal alvo de Hidalgo, que deve aumentar a rede de ciclofaixas da cidade, atualmente com mil quilômetros, e transformar rotatórias e avenidas em praças e espaços para pedestres. A prefeita também pretende recrutar 5 mil policiais para fazer com que as regras do novo código da rua sejam respeitadas, com foco especial no combate à discriminação e ao assédio em vias públicas.

Equipamentos de cultura, como bibliotecas, centros de recreação, conservatórios de música e casas de arte, vão se organizar em torno das escolas, que por sua vez serão abertas ao público nos finais de semana, com pátios transformados em jardins ou espaços para prática esportiva.

Para incentivar a economia local, a proposta é continuar a apoiar os pequenos comércios com o selo “Fabricado em Paris” e criar uma sociedade pública que vai comprar imóveis de fachada ativa, estimulando a instalação de consultórios médicos, cantinas solidárias, cozinhas compartilhadas, escritórios e coworkings.

Segundo Paula Marques Braga, professora de arquitetura e urbanismo da Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo), o modelo parisiense se aproxima do conceito de bairro multifuncional, presente há muito tempo em projetos urbanísticos.

“Sempre foi papel do planejamento urbano buscar respostas para os problemas enfrentados pelas pessoas nas cidades”, afirma, lembrando que a pandemia do novo coronavírus evidenciou necessidades e acelerou processos também nessa área.

Ilustração: Marcos Müller/Estadão

Para ela, alterações na estrutura urbana podem ter dois sentidos: “refletir e responder a demandas da sociedade ou moldar novos comportamentos, propondo outras formas de sociabilidade e interação no espaço público”.

No caso de Paris, estão previstas mudanças estruturais, como sistema viário, distribuição de usos e redefinição de áreas verdes, mas o maior impacto é social. “As intervenções implicam novos comportamentos, que vêm sendo almejados em função do momento que estamos vivendo”, diz a urbanista.

Se a equação da proximidade parece de fácil resolução na capital francesa, em São Paulo é uma batata quente que tem passado de mão em mão pelas últimas gestões municipais. A dificuldade de implantar algumas soluções, segundo o arquiteto e urbanista Caio Esteves, fundador da consultoria Places For Us, não é bem pelo impacto financeiro, mas por um traço cultural.

“Se um simples sistema cicloviário que se compunha basicamente por pintura de pisos se tornou uma guerra na cidade, provavelmente haverá uma gritaria a respeito do multiuso de alguns equipamentos públicos”, analisa. “De forma mais simplificada, cabe no bolso, mas nem sempre cabe na cabeça.”

Desigualdade social no meio do caminho

Além da dimensão territorial da capital paulista, Esteves destaca a desigualdade social como principal problema para que os projetos avancem. “Essa desigualdade dificulta a atração de recursos, negócios, comércio e equipamentos para regiões periféricas”, diz. “Precisa de pelo menos uma boa parte do ecossistema para a ideia funcionar. Não adianta só levar escolas ou hospitais, por exemplo, e continuar obrigando as pessoas a se deslocarem por muitos quilômetros diariamente para o trabalho.”

Sócio-proprietário do escritório Natureza Urbana, o urbanista Pedro Lira imagina um esquema que poderia aproximar São Paulo do conceito de cidade de 15 minutos. Dadas a extensão e a densidade da capital paulista, porém, as soluções seriam viáveis se aplicadas na escala de bairros ou microrregiões, levando em conta, claro, as necessidades estruturais de cada território. A ideia é que um morador de Santo Amaro, por exemplo, não precise percorrer longas distâncias para estudar ou trabalhar. Ele já encontraria esses e outros serviços dentro do próprio perímetro em que vive.

Entre as frentes apontadas pelo especialista estão a promoção mais distribuída de atividades econômicas e sociais – que se daria por meio de incentivo fiscal – e a construção também pulverizada de habitações sociais, para que a cidade seja mais igualitária e inclusiva.

Ele cita ainda o desenvolvimento dos chamados “centros de bairros”, com equipamentos públicos como bibliotecas, mercados abertos e parques. “Em vez de tudo se aglutinar no mesmo lugar, é possível termos vários Ibirapueras em menor escala espalhados por todas as regiões, por exemplo.”

Novas ciclorrotas foram criadas em Barcelona durante a pandemia. Foto: Nacho Doce/Reuters-11/5/2020

A melhoria dos espaços públicos para pedestres é outro ponto. Lira fala que algumas cidades, como Barcelona, aproveitaram o momento da pandemia para fazer isso de forma rápida, reservando vias inteiras ou uma das mãos para circulação de pessoas e bicicletas.

“É uma ação fácil e barata para promover a mobilidade sustentável”, afirma. Aproveitar eixos ferroviários que ligam áreas hoje ociosas para reconstruir bairros inclusivos e despoluir os eixos fluviais, a exemplo do que foi feito em Chicago, Madri e Medelin, também são iniciativas factíveis, segundo ele.

Projetos de Intervenção Urbana

O Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo criado em 2014 já colocava como diretriz aproximar emprego e moradia, de acordo com o secretário de Desenvolvimento Urbano Fernando Chucre. “Como a cidade tem questões de vulnerabilidade, desigualdade e regiões com condições espaciais e sociais absolutamente diferentes umas das outras, a estratégia foi determinar níveis de planejamento em escala menor”, explica.

Do ponto de vista de planejamento urbano, ele diz que a lógica dos PIU (Projetos de Intervenção Urbana) segue conceitos adotados por Paris. “O PIU territorial coloca a lupa em lugares que tenham características parecidas”, relata. “Há muitas áreas com equipamentos públicos, como parques, escolas, metrô, corredor de ônibus, que estão subutilizadas e com uma densidade de habitantes muito aquém da capacidade.”

Além de investimento público, o município aposta na iniciativa privada para tirar projetos do papel. Segundo o secretário, estão previstos incentivos para propostas de requalificação de determinados lugares. “É o caso do PIU Jurubatuba, que tem basicamente o plano de levar atividades comerciais e indústrias a uma área extremamente vulnerável”, afirma.

Mesmo que os recursos arrecadados pelo Fundurb (Fundo de Desenvolvimento Urbano) sejam majoritariamente destinados a equipar com o básico regiões periféricas, há também esforços para adensar áreas da cidade que já têm infraestrutura completa, como o Centro. “Hoje há 2 milhões de pessoas que se deslocam de diversos pontos da cidade para trabalhar lá (no Centro)”, diz Chucre. “Só nos imóveis desocupados da região poderiam morar 250 mil pessoas. Temos que acabar com esse movimento pendular.”

A menina dos olhos é o PIU Centro, que busca estimular o retrofit desses edifícios para receber famílias de diversas faixas de renda e fazer com que a região deixe de parecer deserta à noite. “Senão é um desperdício do ponto de vista urbano”, conclui o secretário.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: