Com apelo sustentável e ecológico, construção modular ganha mais espaço no Brasil

Com apelo sustentável e ecológico, construção modular ganha mais espaço no Brasil

Estimativa é de que esse mercado, que gira hoje R$ 300 milhões no País, pode chegar a R$ 6 bilhões; modelo permite a construção de casas e edifícios por meio de módulos fabricados e equipados fora do canteiro de obras

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

Minimoradias, residências flutuantes, soluções para desafios urbanísticos e casas inteligentes, minimalistas, sustentáveis e flexíveis. A construção modular offsite, baseada em módulos industrializados fabricados fora do canteiro de obras, deve crescer globalmente 5,75% ao ano até 2025, segundo um relatório da Terracotta Ventures. O estudo aponta ainda Brasil, China e Japão como os países com mais oportunidades para esse setor se desenvolver. A expectativa é de que o sistema construtivo cresça a uma velocidade duas vezes superior à da construção tradicional em alguns países, por conta principalmente de fatores como escassez ou o alto custo de mão de obra e déficit habitacional elevado.

Segundo o arquiteto Marcos Bueno, presidente da Expo Construção Offsite (ECOS) – que acontece de 15 a 18 de setembro, em São Paulo, e vai reunir indústrias de construção modular e inovações do setor –, a modalidade cresceu muito com a chegada da pandemia. “Os hospitais construídos em tempo recorde deram uma alavancada no cenário, tanto em projetos comerciais de lojas, restaurantes e minimercados como em residências de alto padrão”, diz.

Segundo ele, o apelo comercial é grande por se tratar de um produto que sai pronto da fábrica, com um ganho sustentável e ecológico, além da rapidez. “O que demora um ano para construir no método tradicional cai para dois meses. Esse mercado hoje movimenta R$ 300 milhões por ano, mas tem potencial para chegar a R$ 6 bilhões”, afirma.

A solução surge também como alternativa para desafios futuros nas áreas urbanas, de acordo com o arquiteto. Apesar de a construção modular ainda ser pouco explorada na faixa de moradias populares, ele fala que já tem construtoras da Casa Verde e Amarela, a exemplo da Tenda, usando técnicas como o “wood frame” em seus empreendimentos. “Apesar de o custo inicial ser superior ao da construção tradicional, o fato de não haver despesas adicionais no futuro acaba sendo vantajoso”, diz. “Hoje, com energia e material escassos, precisa ter planejamento. E o cerne da construção modular está nisso: não é a execução, é o planejamento.”

Sustentáveis

Bueno é o idealizador de um desses projetos que começam a despontar no mercado: a Casa Cantareira, que será construída em uma área de 1.380 m² na Serra da Cantareira, em São Paulo, em apenas 100 dias, e contará com sistema de captação e reaproveitamento de água, energia solar, ventilação cruzada e aproveitamento total do declive do terreno, sem movimentar terra ou mexer na natureza do local. “A ideia é registrar em vídeo a execução diária, para que o público acompanhe o processo”, diz.

Outros destaques são as minimoradias, que podem ser transportadas para locais diversos, como o projeto Tiny Box, do arquiteto Breno Lima, e a flexível Minimal Mood, desenvolvida por Felipe Savassi. “Nós chamamos de arquitetura-produto, em que o cliente monta a casa de acordo com a sua demanda dentro de uma família de módulos que podem ser acoplados, criando um imóvel com um quarto, dois, três ou quatro, ou um módulo que tenha uso comercial”, explica o idealizador. “É como se fosse um catálogo de acessórios em que o cliente vai customizando a casa.”

Os itens de personalização incluem revestimentos, automação, energia fotovoltaica, captação de água de chuva, marcenaria, tipo de esquadria e de mobiliário. O cliente monta o “quebra-cabeça” no próprio site e já sabe qual será o preço fixo e o tempo de entrega, que é de até 90 dias. “Tudo muito fácil, rápido e previsível”, diz o arquiteto. “Ninguém mais tem paciência, dinheiro e tempo para enfrentar obras que a gente não sabe como e quando vão acabar, com estouros de cronograma e de orçamento frequentes.”

Já a Brasil ao Cubo, construtech nascida em 2016 que trabalha com o método “plug and play”, entregou mais de 50 obras do início de 2020 para cá. São empreendimentos como hospitais, universidades, escritórios, indústrias, showrooms, franquias e academias, além do prédio mais alto da América Latina feito com a técnica de construção off-site volumétrica. “Um marco na história da companhia e da engenharia brasileira, na ótica de velocidade e qualidade”, revela Ricardo Mateus, presidente da startup, que recentemente fez sua estreia também no mercado de residências de alto padrão.

Hospitalidade

Para o setor de turismo e hotelaria, uma inovação promissora é a casa flutuante, projeto de Isabela Arroyo erguido pela CMC Módulos Construtivos (empresa do Grupo Lafaete). Segundo a arquiteta, a construção pode ser colocada em rios, lagoas ou até no mar, desde que seja uma área de águas abrigadas.

“A Casa Flutuante é uma junção de casa e barco que conta com um sistema de flutuação em polietileno de alta densidade, mesma tecnologia de barcos da Marinha”, diz. “Além do projeto arquitetônico em sistema construtivo modular, foi primordial o desenvolvimento do projeto naval com todos os cálculos de flutuação e estabilidade das versões com e sem propulsão.”

A construção tem quarto de casal, sala, banheiro, cozinha integrada à sala e uma área externa com deck frontal. Placas solares irão abastecer toda a parte de iluminação e eletrodomésticos e um gerador vai suprir a demanda em períodos de chuva sem insolação. Já o esgoto é tratado por um biodigestor, de onde os efluentes saem como adubo. “A casa foi criada para estar inserida na natureza, então ser autossuficiente foi uma diretriz desde o início do projeto”, diz Isabela.

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