Condomínios incentivam ações solidárias para ajudar os mais afetados pela pandemia

Para driblar a barreira do isolamento social, administradoras decidiram levar as ações solidárias para dentro dos condomínios; segundo executivo, ato de ver outro morador doando faz com que engajamento seja maior

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 23h30

Especial para o Estadão

Os brasileiros têm vontade de praticar ações solidárias, mas muitos não sabem como fazer na prática. Segundo uma pesquisa do Datafolha encomendada pela marca Omo e divulgada no ano passado, 96% dos 1,5 mil entrevistados disseram querer ser solidários, mas apenas 27% efetivamente se envolvem em ações coletivas organizadas. A maioria age de forma pontual e individual (68%) por desconhecer outras maneiras de realizar ações do tipo.

Com o isolamento social decorrente da pandemia, a distância que separa o desejo de ajudar da ação de fato poderia se tornar ainda maior – e foi pensando nisso que algumas administradoras decidiram levar as ações solidárias para dentro dos condomínios. Foi o caso da BBZ, que procurou a Cruz Vermelha São Paulo com a ideia de trazer as campanhas da entidade para os mais de 600 prédios que administra. Iniciada há pouco mais de uma semana, a Campanha do Agasalho teve uma adesão tão forte por parte dos moradores que alguns síndicos já solicitaram a segunda caixa.

“O condomínio é o melhor lugar para buscar doação porque é de fácil acesso”, diz o diretor da BBZ, Roberto Piernikarz. Ele conta que o fato de bastar descer pelo elevador para fazer a doação também serve de estímulo para que toda a comunidade do prédio se engaje. “A comunicação é muito rápida entre os condôminos. Quando uma pessoa vê a outra descendo com um agasalho ou uma cesta básica, ela se encoraja a fazer igual.”

Além de participar das campanhas da Cruz Vermelha, a administradora também lançou, em 2020, um projeto que tinha a meta de arrecadar 18 mil cestas básicas em 18 dias. “Foi uma vitória muito grande porque chegamos a 19 mil cestas”, diz o executivo. “O ensinamento que a gente tenta deixar para todo o mundo é que os melhores momentos da vida ocorrem quando você doa, não quando você recebe.”

Para Bruno Semino, diretor executivo da Cruz Vermelha São Paulo, a parceria com a BBZ tem sido fundamental. “Já estamos retirando caixas e mais caixas. É um retorno muito positivo em oito dias de campanha.” Ele explica que, depois de retiradas, as doações ficam armazenadas por um período de quarentena, para então serem higienizadas e empacotadas para distribuição.

Para a síndica profissional Márcia Vieira, que cuida do dia a dia de um condomínio de 66 unidades na zona norte de São Paulo, o espírito de solidariedade foi acentuado pela pandemia. Ela conta que a caixa deixada pela Cruz Vermelha no prédio lotou em menos de uma semana e ela já precisou providenciar mais uma. Em outro condomínio do qual é síndica, um caminhão da Legião da Boa Vontade não bastou para levar os itens doados. “Para nós, síndicos, é também importante saber para onde isso vai”, ela fala. “Quando a gente tem essa confiabilidade e sabe que as doações vão chegar às pessoas, o engajamento é gigante.”

Ajuda às favelas

Parceira da Central Única das Favelas (Cufa) há mais de um ano, a Lello também levou com força as ações solidárias para dentro dos condomínios que administra. Iniciada em abril do ano passado com o objetivo de auxiliar as favelas da capital paulista no combate à covid-19, a campanha #Xô, Corona! arrecadou mais de R$ 85 mil e beneficiou por volta de 95 mil pessoas em situação de vulnerabilidade.

Chegada a temporada das festas de fim de ano, os condomínios receberam árvores de Natal com cartões que davam dicas de presentes e doações em dinheiro foram arrecadadas por meio da plataforma de crowdfunding Benfeitoria. Moradores das favelas de Heliópolis, Paraisópolis, São Bernardo e Cai Cai receberam 2 mil presentes de moradores de condomínios da Lello, entre bonecas, bolas de futebol, jogos de tabuleiro, bicicletas e mochilas.

Outra parceria com a Cufa foi para apoiar o projeto Mães da Favela ON, que busca democratizar o acesso à internet, com a distribuição de chips de conexão para que crianças e adolescentes das favelas possam assistir às aulas remotas e acessar conteúdos de ensino. Com pontapé inicial no Dia das Mães, está em andamento também a campanha Amor que Alimenta, que deve durar até o fim do mês. Os pontos de doação foram distribuídos em 17 prédios e a Lello abriu uma vaquinha online para distribuir cestas básicas ao Mães da Favela.

Presidente global da Cufa, o ativista, rapper e empreendedor Preto Zezé conta que a pandemia atingiu em cheio o principal foco de atuação da organização, que era a mobilização das pessoas nas favelas. “Nossos espaços de esportes e educação se transformaram em verdadeiros centros de distribuição e logística porque as grandes empresas viram na Cufa uma interface para que as doações de grande escala chegassem de fato até as pessoas”, diz.

Determinado a provocar ações solidárias de dentro para fora nos moradores, o Grupo Graiche vem apostando em campanhas sociais desde o início da pandemia, mas com uma pegada diferente. A ideia, segundo a vice-presidente Luciana Graiche, é que as pessoas não precisem se deslocar para adotar pequenas atitudes que mudam o mundo.

Da plataforma Clube Solidário – na qual condôminos que têm negócios, oferecem serviços ou vendem produtos artesanais para fomentar o comércio local – à iniciativa que convida os moradores a homenagear os empregados do prédio, que ficaram longe da família na pandemia, tudo segue a premissa de que ser solidário não é necessariamente doar dinheiro. “Se você pede um delivery, por que não pedir junto uma sobremesa para o seu porteiro, que está sempre recebendo sua comida?”, sugere a executiva.

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