Condomínios residenciais dão exemplo de como serem sustentáveis

Condomínios residenciais dão exemplo de como serem sustentáveis

Com auxílio de moradores e empresas, síndicos implantam sistemas para reúso de água da chuva, compostagem, descarte de óleo e economia de papel; novos empreendimentos já nascem com DNA sustentável

Bianca Zanatta

27 de setembro de 2020 | 05h03

Especial para o Estado

Práticas antigas se misturam a novas quando o assunto é sustentabilidade nos condomínios residenciais. Para levantar a bandeira da retomada verde, muitos perceberam que boa parte das ações não só custa pouco como traz economia a curto e médio prazos, tanto para a gestão quanto para moradores.

Um dos grandes incômodos da diretora de escola estadual Marisa Maciel, de 60 anos, quando assumiu o cargo de síndica do condomínio onde vive, em Taboão da Serra, era a área das lixeiras. “Parecia um lugar sombrio, com aquele monte de sacolas amontoadas e garrafinhas de óleo espalhadas pelo chão”, lembra.

Com 4 mil moradores e 962 unidades em 5 torres de 24 andares, o condomínio é praticamente uma cidade. A tática da síndica para conseguir implantar em definitivo a ideia da reciclagem foi apelar para seus superpoderes de professora. Após uma conversa com o conselho, ela comandou uma obra para abrir o espaço, revestiu o piso e comprou uma lixeira plotada decorativa, “cheia de tulipas”. Cartazes didáticos e coloridos explicando a importância da reciclagem foram afixados nas paredes e uma empresa especializada passou a fazer a coleta dos resíduos.

A mudança surtiu efeito. Se antes o lixo reciclável era retirado apenas uma vez por dia, hoje são 3 ou 4 retiradas diárias, o que leva à conclusão de que os moradores pararam de descartar “de qualquer jeito”. A receita arrecadada com a reciclagem é usada para o dia a dia dos funcionários. “Não é muita coisa, mas ajuda com o pão e o cafezinho de quem cuida disso tudo”, conta.

Morador do condomínio Alameda do Morumbi, Mitio Kimura, de 75 anos, voluntariou-se para ajudar na implantação da composteira. Foto: Valeria Gonçalvez/Estadão

Para resolver o descarte do óleo de cozinha, que volta e meia ainda pipocava em garrafinhas pet, a síndica contratou outra empresa, que forneceu bombas em formato de “enormes barris de leite”, uma para cada torre. O óleo é descartado nelas e a empresa responsável as esvazia periodicamente.

O próximo passo será transformar em horta uma grande área que antes servia apenas para o passeio dos cachorros. Já aprovado em assembleia, o projeto vai limpar e cobrir com grama todo o espaço, onde surgirão canteiros hidropônicos suspensos que os próprios moradores vão cultivar.

As soluções para fazer tudo acontecer são simples. “Vamos começar plantando em copinhos de iogurte, que os condôminos já estão juntando e entregando, e uma empresa parceira doou 200 pallets de madeira que ia descartar para fazermos as bancadas dos canteiros”, conta a síndica. Depois de ela mesma fazer um curso de compostagem, abriu a lista de inscrições e os interessados em participar do projeto apareceram às dezenas. Agora é arregaçar as mangas. “Já diziam minha mãe e minha avó: o boi só engorda ao olho do dono”, conclui.

Enxergar as potencialidades naturais da área do condomínio para práticas sustentáveis foi a sacada do piloto Paulo Werneck, de 43 anos, síndico do Alameda Morumbi. “Fizemos um projeto de compostagem e parte do adubo que usamos no jardim já vem de lá”, explica.

A ideia foi dos próprios moradores. Convidado por um casal de vizinhos, o aposentando Mitio Kimura, de 75 anos, voluntariou-se para ajudar na implantação. “Eu tinha compostagem na minha chácara, mas deixei de ir um pouco quando minha neta nasceu e agora estou fazendo por aqui”, diz. Com o auxílio de dois colaboradores do condomínio, ele abastece a composteira com cascas de tudo – ovos, legumes e frutas. “Só não pode colocar coisas cítricas porque fazem mal às minhocas”, ensina.

O condomínio passou ainda a fazer reuso de água para regar os jardins, que têm quase 5 mil metros quadrados de extensão. “O terreno possui minas que, ao encherem, seriam drenadas para fora do prédio”, conta o síndico. “Pego parte dessa água que seria jogada fora, trato e uso no jardim.”

Educação no papel, sem papel

Conscientes de sua função no estímulo a medidas sustentáveis, administradoras de imóveis adotaram discurso e ações para reequilibrar a balança verde. A Lello Condomínios lançou no início de 2019 a campanha Papel Zero. Prestações de contas mensais, boletos, comunicados e atas de reunião passaram para o digital, poupando em torno de 1 milhão de cópias em papel por mês.

Já o Grupo Graiche criou um departamento exclusivo para cuidar do tema. “A gente disponibiliza materiais com orientações sustentáveis aos síndicos, como o Manual do Sistema de Coletas para Condomínios, para que eles possam ter as diretrizes para executar as ações”, diz Maria Claudia Buarraj, gerente do Departamento de Sustentabilidade. “Hoje sustentabilidade é um item essencial dentro das empresas, das casas e da vida das pessoas”, defende.

Sustentabilidade e economia

Segundo Fernando Beltrame, fundador da consultoria em sustentabilidade Eccaplan, a adoção de algumas práticas representa inclusive economia para o condomínio. “No Brasil damos descarga com água potável, a mesma que usamos para lavar louça”, ressalta.

Mesmo que seja mais complexo mudar isso nas unidades autônomas, a instalação de cisternas que captam água de chuva nas áreas comuns não requer grandes esforços ou gastos. “Dá para regar o jardim, usar para descarga nos banheiros do térreo, lavar as áreas comuns e calçadas, diminuindo muito o consumo de água”, defende o especialista. “Se todos os condomínios estivessem represando água da chuva para reuso, ajudaria até a evitar o problema das enchentes em São Paulo”.

Paulo Werneck, síndico do Alameda Morumbi. Condomínio criou projeto de compostagem. Foto: Valeria Gonçalvez/Estadão.

Reaproveitamento de materiais e adoção de produtos e sistemas que minimizem o impacto ambiental são soluções possíveis, de acordo com Patricia Bianchi, presidente do núcleo de educação ambiental do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL). Ela destaca a aquisição de placas solares, hoje com custo bem mais acessível, como forma de conciliar cuidado com o meio ambiente, autonomia energética do condomínio e diminuição de gastos. “O custo das placas facilmente se dilui na economia que se terá em termos energéticos”, defende.

DNA sustentável

Não é à toa que alguns lançamentos imobiliários já estão nascendo com DNA sustentável. Situado em Goiânia, o condomínio de casas Alto da Boa Vista já entregou duas de três etapas, que totalizam 250 sobrados – todos com sistema de aquecimento solar nos chuveiros. Para os moradores, o sistema vai representar economia de 25% a 35% no valor da conta de energia.

Também em fase final de construção, o Grand Habitarte, projeto da Yuny Incorporadora localizado no Brooklin, zona sul de São Paulo, é todo trabalhado na sustentabilidade. São soluções como piscina aquecida por painéis solares, jardins irrigados com água de chuva, vasos sanitários com sistema dual flush (que controla o volume de água necessário para cada descarga), sistema de led em todas as áreas comuns e metais com arejador de ar que economizam 96 litros de água em 5 minutos de lavagem de louça.

FAÇA EM SEU PRÉDIO

  1. Reúso da água da chuva: sistema que armazena água pode servir para lavar áreas comuns e molhar jardins
  2. Composteira coletiva e horta: espaços comuns mal aproveitados podem dar lugar a horta comunitária, que pode usar matéria orgânica originada nas composteiras; a composteira, por sua vez, ajuda a reduzir volume de lixo
  3. Descarte correto de óleo: galões coletivos armazenam volumes que, depois, podem ser recolhidos em parceria com empresas de reciclagem de óleos vegetais
  4. Economia de papel em boletos: administradoras e síndicos podem passar a enviar boletos e outros avisos e cobranças apenas por meio digital

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