Construtoras investem em imóveis de alto padrão com responsabilidade socioambiental

Construtoras investem em imóveis de alto padrão com responsabilidade socioambiental

Lançamentos de luxo estão buscando não apenas a redução dos impactos, mas a harmonia com a natureza; contribuições para melhorar a qualidade de vida das comunidades locais também ganham vez

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

Já faz tempo que o mercado de luxo em geral passou a sofrer forte pressão da sociedade pela adoção de práticas socioambientais mais responsáveis. No setor imobiliário a história não é diferente. Cada vez mais, as construtoras e incorporadoras são cobradas para diminuir o impacto negativo de seus empreendimentos na natureza e na vida das pessoas. Na faixa dos imóveis de alto padrão algumas empresas estão indo além e passaram a investir em práticas que não só reduzem o impacto da chegada dos empreendimentos, como melhoram a qualidade de vida da região.

É o caso da F2, que está erguendo o residencial Alma Maraú na praia de Cassange, no litoral da Bahia, perto de uma área de preservação ambiental. A sofisticação do empreendimento está presente em cada detalhe, com serviços inspirados na hotelaria que podem ser contratados, cozinhas 4.0 e mobiliário e decoração planejados com exclusividade para o condomínio pela mineira Tessaro.

Mas a sofisticação aparece principalmente nos cuidados com o lugar. A construção é toda feita com unidades modulares, que geram menos resíduos e gastam menos água do que a construção convencional, e o residencial terá água e esgoto tratados, energia renovável em cada uma das casas e captação da água da chuva, que será usada no sistema de irrigação. “Quando cheguei em Maraú, foi amor à primeira vista. O local é um verdadeiro paraíso”, afirma François Rahme, presidente da F2. “Eu sabia que queria construir um empreendimento à altura da região, que só viesse a agregar positivamente. E não tem como construir no paraíso sem preservá-lo em todos os aspectos.”

Ele explica que aquela parte da península é preservada pela Área de Proteção Ambiental (APA) de Maraú, por conter reservas de Mata Atlântica. “Então eu não queria fazer como muitos outros empreendimentos, tirando as espécies nativas e depois indo a uma empresa comprar novas, como se aquilo não fosse fazer diferença”, afirma o executivo.

A solução encontrada com o trabalho do paisagista Ricardo Cardim e da arquiteta Adriana Machado, responsável pelo projeto, foi construir um viveiro onde todas as espécies retiradas serão mantidas durante a construção. “Tomamos todo o cuidado para que, na hora de tirá-las do local de origem, as raízes sejam mantidas intactas para que elas possam continuar crescendo fortes no viveiro”, afirma o empresário. As 31 espécies manejadas incluem bromélias e árvores de gabiroba seculares, que farão parte do paisagismo do residencial. Ao todo, o viveiro vai preservar mais de 6 mil plantas. “Nos orgulhamos em dizer que nosso paisagismo é 100% nativo e preservado”, diz Rahme.

Em harmonia com a natureza local

Outra preocupação foi fazer uma parceria com a iniciativa Coração de Tartaruga, quando a construtora descobriu que os 360 metros de praia que fazem parte do empreendimento são local de desova de algumas espécies. O time do projeto explicou que as tartarugas são atraídas pela luz mais forte quando nascem. Como utilizam a luz refletida no mar para se guiar “para casa”, qualquer outra luz direta mais potente, seja de lâmpadas ou fogueiras, pode fazer com que mudem o caminho, levando-as até a morrer.

“Em parceria com a iniciativa, fazemos o mapeamento dessas áreas, identificando os locais onde as tartarugas desovam e marcando-os para proteger os ovos, de forma que não aconteça algum acidente”, afirma o presidente, acrescentando que o Alma terá uma iluminação indireta por toda a extensão da praia e nas proximidades, com luminárias especiais que evitam o reflexo da luminosidade em direção ao mar e não prejudicam os animais.

Contribuição para a comunidade

Outra iniciativa que a construtora busca apoiar é a Escola Comunitária Maramar, que atende crianças da região com disciplinas convencionais e atividades musicais, ecológicas e profissionalizantes. Segundo Rahme, a parceria ainda está no começo, com ações pontuais como a ida de um circo à escola no Dia das Crianças, mas uma das metas é oferecer uma cozinha industrial totalmente equipada para a Maramar.

“Queremos contribuir para que a região que nos recebe com tanto carinho possa crescer junto com a gente”, ele reitera. “Temos como meta também a profissionalização e geração de emprego para mais de 500 moradores do entorno. Eles serão treinados para trabalhar em várias funções do residencial, fazendo com que o Alma seja também fonte de renda para a população.”

Casas verticais sustentáveis

Outro exemplo é o do empreendimento Casa Brasileira, um edifício residencial que a Consciente Construtora e Incorporadora está lançando no Setor Bueno, em Goiânia. O prédio terá apartamentos contemporâneos com atmosfera de casa: espaços abertos, quintais elevados e piscinas a céu aberto em algumas das 98 unidades. Há diferenciais de luxo como piso nivelado, churrasqueira a carvão em vidro e um lago ornamental.

Para garantir o uso racional de água, serão instaladas válvulas redutoras de pressão nos apartamentos e áreas comuns, torneiras com temporizador e sistema de reúso da água do ar-condicionado para irrigação. Haverá também espaço para coleta seletiva dos resíduos, lâmpadas de baixo consumo nas áreas comuns, automação na iluminação, elevador com sistema de recuperação de energia, pontos para carros elétricos e uso de madeira certificada em toda a obra.

A construtora criou ainda o selo Social Consciente, que determina que todos os empreendimentos terão um percentual de verba destinado à formação profissionalizante dos participantes do projeto Ensino Consciente, que tem o objetivo de incentivar os trabalhadores da construção civil a concluírem os ensinos fundamental e médio.

Pólo de turismo sustentável

O mega projeto de cidade inteligente Maraey, que tem potencial para se tornar um dos principais destinos turístico-imobiliários sustentáveis do Brasil, será desenvolvido em uma área de 845 hectares na Costa do Sol, em Maricá, a 45 km do centro do Rio de Janeiro. O complexo vai contar com quatro hotéis cinco estrelas e moradias de diferentes tamanhos com serviços integrados, além de campo de golfe, clube de tênis, hípica e uma universidade de hotelaria e alta gastronomia, entre outros. Um empreendimento já confirmado é o Rock in Rio Maraey Resort, primeiro hotel temático da marca do festival no mundo.

Maraey também vai adotar diversas estratégias sustentáveis para o reaproveitamento das águas, o tratamento de esgoto e o uso de fontes de energia renováveis, além de criar a segunda maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de Restinga do Estado do Rio e a quinta maior do Brasil. O sistema local de transporte vai usar o modal elétrico, diminuindo a emissão de poluentes do ar. Além disso, o complexo contará com pontos de conexão elétrica, iluminação por energia solar, materiais de base biológica, fachadas dinâmicas e telhados verdes.

As cerca de 200 famílias que vivem na comunidade de Zacarias, dentro da área do empreendimento, serão beneficiadas pela regularização fundiária, com cessão de título de propriedade e entrega de escritura definitiva aos moradores. O empreendimento também quer incentivar a cultura e a pesca locais com programas de recuperação da Lagoa de Maricá, de repovoamento de espécies nativas e de resgate e divulgação da memória familiar de Zacarias com a criação da Casa do Pescador Artesanal.

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