Construtoras mudam forma de se relacionar com vizinhos e revitalizam espaços públicos

Atentas às demandas das comunidades em que seus empreendimentos são erguidos, empresas do setor imobiliário assumem reurbanização das regiões das obras

Redação

28 de novembro de 2021 | 05h00

Algumas incorporadoras estão transformando a forma de se relacionar com a vizinhança de seus empreendimentos. Ao invés de se fecharem entre quatro muros para construir uma realidade condominial que não dialoga com o bairro, empresas como Viewco, REM, Helbor e Tegra optaram por olhar para o entorno, escutar a comunidade e contribuir de forma prática para a qualidade de vida do lugar, revitalizando praças, ruas e espaços públicos.

A Viewco, que lançou seu segundo empreendimento residencial – o Clubline São Judas, localizado no bairro da zona sul de São Paulo –, tem um departamento específico para avaliar questões de responsabilidade socioambiental nas regiões do banco de terrenos e futuros projetos da empresa. O modelo de reurbanização do entorno compreende conceitos urbanísticos, como a execução de calçadas verdes com vegetação abundante, iluminação adequada e mobiliário urbano.

“No caso do terreno do São Judas, tivemos contato com as lideranças da comunidade, que faz uso da chamada viela sanitária como espaço de lazer e cultura”, afirma Edmond Lati, sócio-diretor da construtora, referindo-se ao Beco da Cultura. O espaço está situado ao lado de uma viela dentro da comunidade Mauro 1 e é frequentado por famílias e pessoas para a prática de esportes, lazer e atividades culturais, com exposições e intervenções artísticas de grafiteiros.

“Já havia uma mobilização local para a realização de melhorias na viela”, conta Lati. “Os moradores vislumbravam principalmente a melhora dos espaços para convívio, como os ‘bancos de praça’, mesas e brinquedos, e também da área verde que circunda o local.” Segundo ele, a direção da Viewco foi informada sobre a oportunidade de integração com a vizinhança e mobilizou profissionais para estreitar relações com as lideranças comunitárias. “Daí surgiu de fato a iniciativa de abraçar a causa da viela e transformá-la em um projeto de qualidade de vida para a comunidade”, afirma o executivo.

A construtora então encomendou a concepção do novo espaço a um escritório de arquitetura e urbanismo e se manteve alinhada com representantes da prefeitura de São Paulo desde a apresentação do projeto até a aprovação final. Nesse meio-tempo, contratou os artistas e líderes comunitários locais Jota e Xandão para assinar um desenho autoral no muro do terreno de 4,4 mil m² onde será erguido o Clubline São Judas. O grafite permanecerá exposto até a entrega do residencial, prevista para daqui a três anos.

Segundo Lati, é uma forma de valorizar a identidade cultural da região. “Essa é uma tendência da era moderna da construção e cerne de uma série de transformações que ocorrem continuamente na relação entre empresas e diferentes públicos, em todos os segmentos da economia”, diz. “Transparência, sustentabilidade socioambiental, acolhimento ao outro, respeito às pessoas e ética nos negócios são e serão cada vez mais conceitos e valores fundamentais e irreversíveis.”

Canais de comunicação com a vizinhança

Outra que apostou na aproximação com os vizinhos é a REM Construtora, presente há 30 anos em bairros da zona oeste paulistana, como Perdizes, Pompeia, Água Branca e Vila Romana. A empresa é responsável pela zeladoria da Praça Cornélia desde 2014, quando firmou o primeiro termo de cooperação envolvendo o espaço com a subprefeitura da Lapa.

Já foram investidos em torno de R$ 300 mil em obras de infraestrutura e melhorias no local, como aquisição e instalação de bancos e lixeiras, pintura de guias e sarjetas, plantio de diferentes tipos de grama (esmeralda e amendoim, por exemplo), compra e plantio de vegetações novas e colocação de brita. A REM também mantém uma empresa contratada para fazer a limpeza semanal das áreas verdes e eventuais reparos em bancos e lixeiras.

“Os moradores nos pediram que a praça passasse a ser mais convidativa, favorecesse o convívio da população local, sobretudo em relação às áreas de brinquedos e aparelhos de ginástica”, diz Rodrigo Mauro, diretor geral da construtora, acrescentando que outra reivindicação dos vizinhos foi a instalação de canteiros ao redor dos troncos de grandes árvores, que ganharam vegetação baixa e moreias.

Segundo ele, a construtora mantém um Departamento de Assistência ao Vizinho e o SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente), canais pelos quais se relaciona com os vizinhos – que, eventualmente, acabam até se tornando clientes. “Nos dias de hoje, com o mundo cada vez mais conectado, não há como as empresas, independentemente do setor de atuação, não entenderem expectativas e necessidades mais urgentes de seus públicos-alvo prioritários, entre eles os vizinhos”, diz. “Temos consciência de que a chegada de uma construtora a um novo terreno, a abertura de um novo canteiro de obras, produzem impactos nem sempre desejáveis na vida da comunidade. Do início ao fim de uma obra, a REM procura estabelecer estreita comunicação com essas pessoas.”

Rua Jardim

Responsáveis pelo complexo imobiliário Caminhos da Lapa, as incorporadoras Helbor e Tegra assumiram, em colaboração com o poder público, a reurbanização da rua Fortunato Ferraz, na Vila Anastácio. A via da zona oeste paulistana será transformada numa “Rua Jardim”, com canteiro central verde e um passeio de 14,30 metros de largura com jardins, ciclovia, estações de lazer e convivência. No paisagismo estão previstas áreas verdes lineares com 149 árvores de 30 espécies nativas, incluindo jerivás, ipês roxos e amarelos, pau-ferro, palmeira real, chuva-de-ouro e jequitibá-rosa.

As obras de requalificação têm previsão de entrega para 2022 e também devem duplicar mais de mil metros da rua, que hoje conta com uma mão simples, para melhorar o fluxo do trânsito e acesso. “O projeto de requalificação ainda envolve a construção de uma nova galeria pluvial para melhorar a drenagem na região e a instalação de pontos de iluminação”, diz Carlos Kehdi, diretor técnico da Helbor. “Entendemos que essas medidas irão beneficiar não somente os moradores dos projetos integrantes ao Caminhos da Lapa, mas a Vila Anastácio, Lapa e adjacências.”

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