Construtoras mudam perfil da moradia popular e passam a investir mais em qualidade

Nas incorporadoras, cuidados vão das cores da sacada à entrega de dois banheiros por unidade; piscina, academia e playground para as crianças também estão inclusos

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

Nascido e criado na periferia de Osasco (SP), o empresário Bruno Sindona, de 32 anos, descobriu seu propósito de vida já na adolescência. Filho de um mestre de obras e uma professora, ele lembra da comoção que tomava conta da família todos os anos, com o medo do aumento no preço do aluguel do imóvel onde viviam, que tinha um quarto e uma sala. Depois de um tempo, o pai decidiu construir uma casa com as próprias mãos, sempre nos fins de semana e com o dinheiro que dava. Ainda hoje Sindona se lembra das preocupações que rondavam o cotidiano da família, do barulho de “pancadão” madrugada adentro, de ter de dormir vigiando o carro na calçada, do pavor das chuvas de verão que alagavam a casa.

“São coisas que destroem a possibilidade de a família se desenvolver”, diz o empresário. Segundo ele, seu sonho sempre foi chegar a um lugar que alterasse essa realidade socioeconômica. A oportunidade surgiu quando uma incorporadora se interessou por um terreno que a mãe tinha recebido de herança, localizado em um bairro ainda mais periférico da região. “A contrapartida seriam oito apartamentos populares que a gente achava que iam mudar nossa vida”, ele lembra. Mas a incorporadora quebrou e então seguiu-se uma longa briga para reaver o terreno. A família chegou a procurar outras empresas, mas nenhuma quis assumir o empreendimento, que já tinha muitos problemas.

A solução foi arregaçar as mangas e levar a obra adiante por conta própria. “Começamos num empirismo de assustar, copiando contrato, imprimindo panfleto a prazo”, conta Sindona. Lançada em 2008, a obra não deu lucro, mas foi fundamental para que ele entendesse como tudo funciona. A partir daquele momento, o empreendedor da periferia trouxe um novo olhar para os residenciais populares, com a incorporadora Sindona, em que trabalha dois pilares: o que faz diferença na redução do nível de estresse e o que aumenta a autoestima dos moradores.

Os cuidados vão das cores da sacada, que cada comprador escolhe a partir de uma paleta, à entrega de dois banheiros por unidade. “No geral, as incorporadoras fazem só uma conta de planilha e o uso do apartamento não é pensado”, afirma Sindona. “É infernal a família dividir um único banheiro, sendo que todos têm hora para chegar no trabalho e na escola.”

Os diferenciais vão além das unidades autônomas, com áreas de lazer que oferecem tudo aquilo que os empreendimentos de médio e alto padrão costumam ter, entre academia, reserva ambiental, piscina de borda infinita, piscina infantil, playground, churrasqueira e outros. “A gente coloca até toboágua, que faz um sucesso com as crianças e, para a construtora, tem um custo super marginal”, explica. Com preço médio de R$ 200 mil, os apartamentos são destinados a famílias com renda entre R$ 2,5 mil e R$ 9 mil, que pode ser composta por diversas pessoas. A empresa projeta para este ano um valor geral de vendas (VGV) de R$ 200 milhões.

Proprietário de um apartamento no Sindona Tangará, no Jardim Ísis, em Cotia, o eletricista Reginaldo Santana, de 38 anos, nascido e criado na favela, morava com a mulher e as filhas em cima da casa do sogro antes de comprar o imóvel. Funcionário da própria construtora, ele conta que a conquista foi celebrada por todos no bairro onde vivia. “Lá qualquer conquista, de uma faculdade à casa própria, é vitória de todos”, diz.

Bairros centrais

Outra empresa que apostou no potencial dos empreendimentos populares com perfil de alto padrão foi a Benx Incorporadora, que criou a VivaBenx em 2017. Segundo o fundador e presidente Luciano Amaral, a ideia foi formar um produto que não concorresse nas áreas periféricas, onde já atuam os maiores players do segmento, mas em bairros mais centrais da capital paulista. “Elegemos 15 bairros e buscamos fazer uma planta inteligente de 34 m² e com dois dormitórios para ver se funcionava”, afirma o empresário, que ergueu um protótipo e levou formadores de opinião para avaliar.

Amaral fala que, depois de fechar a equação econômica, que foi possível graças ao aproveitamento total da planta, a diferença do que seria investido em um apartamento de 40 m² foi usada para turbinar as áreas comuns e equipamentos dos empreendimentos. “Chamamos arquitetos e designers de interiores que estão acostumados com o mercado de médio e alto padrão para trazer amenidades como piscina com cascata e hidromassagem, bangalô, lavanderia compartilhada, coworking, fitness, espaço gourmet e cinema”, diz o empresário. “É uma sensação incrível presenciar a felicidade das pessoas quando entendem que podem comprar um imóvel nesse padrão”, relata.

Os empreendimentos da VivaBenx se distribuem em bairros como Mooca, Santana, Tatuapé, Jardim Marajoara, Vila Leopoldina, Vila Mascote, Lapa e Barra Funda, entre outros, e também participam do programa Casa Verde Amarela do governo federal, que pode ser acessado por famílias com renda bruta entre R$ 2 mil e R$ 7 mil.

Focada em empreendimentos imobiliários de baixo custo e bom padrão, a Lumy, que atua nas quatro zonas e no centro paulistano, surgiu em 2018 com a diretriz de que preços acessíveis não são sinônimo de falta de qualidade. “Acreditamos que todos os projetos são únicos e, por isso, são concebidos com muito planejamento, carinho e cuidado”, afirma Vitor Macaferri, presidente da incorporadora, que traz o conceito de “design biofílico” em todos os empreendimentos.

Ele explica que biofilia significa “amor à vida”. “O ‘design biofílico’ nada mais é do que planejar ambientes onde o contato com o verde e a natureza seja uma prioridade”, diz o empresário. “Investimos bastante tempo e recurso em pesquisa para a entrega de uma moradia funcional e ideal para o estilo de vida do brasileiro de hoje, que é conectado, dinâmico, busca conveniência e valoriza um ambiente que esteja alinhado com seus valores.”

Tudo o que sabemos sobre:

mercado imobiliárioconstruconstrutora

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.