Custo baixo e contato social dão impulso a colivings em São Paulo

Custo baixo e contato social dão impulso a colivings em São Paulo

Após evasão nos primeiros meses de pandemia, empreendimentos de espaços compartilhados voltam a atrair moradores com imóveis compactos, mobiliados e serviços facilitados

Bianca Zanatta

03 de outubro de 2020 | 21h55

Especial para o Estado

Tendência que vinha ganhando força em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro antes da pandemia, o coliving bateu de frente com as novas regras de convivência decretadas para evitar a propagação da covid-19. A ideia de viver em quartos ou apartamentos compactos e compartilhar o restante dos ambientes com outros moradores, afinal, iria na contramão do isolamento social.

A Yuca, startup que opera mais de 250 quartos em apartamentos compartilhados nos principais bairros da capital paulista, começou a receber os primeiros moradores em janeiro de 2020, chegando a uma taxa de ocupação de mais de 90% no primeiro trimestre. “Com a pandemia, esse cenário mudou”, diz o cofundador e COO Paulo Bichucher. Mas o susto foi curto. A procura voltou a subir após os primeiros meses de quarentena e, já em julho, 95% dos quartos disponíveis tinham gente.

Se em um primeiro momento o isolamento social espantou as pessoas, ele acredita que agora esteja entre os fatores que contribuem para a rápida retomada. “O sentimento de solidão aumentou muito durante a pandemia e formatos de compartilhamento de espaço como o coliving vieram para suprir o lado da moradia solitária que o apartamento oferece”, diz, confirmando o crescimento em meio à crise. “Seguimos com metas agressivas para 2020, de mais de 500 unidades até o final do ano.”

Com um público formado majoritariamente por profissionais que têm entre 20 e 40 anos, a proptech (startup do ramo imobiliário) agora pretende atrair outras faixas etárias. Segundo Bichucher, o projeto é englobar todo o ciclo de vida do indivíduo, incluindo soluções compartilhadas para casais e famílias.

Como pontapé inicial nessa direção, a Yuca acaba de lançar seus primeiros imóveis individuais no 37º andar do Mirante do Vale, edifício histórico do Vale do Anhangabaú, região central de São Paulo. São duas unidades que podem ser compartilhadas por casais e contam com as comodidades já padronizadas pela empresa, como layout moderno, mobília completa e boleto único de aluguel, que inclui limpeza semanal, condomínio e contas de água, luz e internet rápida.

Logo no início da pandemia, a engenheira de software Debora Borges, de 30 anos, teve que sair do estúdio em que vivia no Paraíso para ficar com os pais, que moram na Bahia. De volta à capital paulista há um mês, ela optou por um coliving da Yuca na Rua Treze de Maio. “Mesmo compartilhado, o espaço é grande”, comenta. “O meu quarto sozinho é do tamanho do estúdio em que eu estava antes.”

Debora Borges, engenheira de software, mora em um coliving da Yuca na Rua Treze de Maio. Foto: Taba Benedicto/Estadão

Para ela, o esquema de dividir a casa com mais duas pessoas tem funcionado bem. “A gente respeita muito o espaço do outro, mas também faz bastante coisa junto, como sentar para comer ou ver um filme.”

Além dos cuidados que a própria empresa tem para alocar moradores com perfil parecido – quando o cliente faz a reserva, preenche um formulário de critérios para ajudar no “match” –, o diálogo é fundamental para que o cotidiano flua com tranquilidade. “Outro dia eu quis receber dois amigos, aí primeiro fui conversar com os meninos e perguntar se estava ok.”

Adaptações ao novo cenário

A estrutura completa e as medidas de distanciamento e higienização adotadas desde o início da pandemia reforçaram a decisão de Luana Guimarães, de 28 anos, que havia se mudado para um apartamento compartilhado da student housing Uliving em janeiro.

“Eu ficava pouco em casa e esse tipo de solução era ideal para mim”, explica. A virada de cenário não afetou os planos da conteudista de redes sociais. “Tenho um miniescritório, cooktop e frigobar no meu quarto e agora reabriram alguns espaços compartilhados, como o coworking”, diz, ressaltando que o prédio conta com uma equipe de limpeza 24 horas. “Para a minha rotina é perfeito, não me vejo saindo daqui tão cedo.”

Com cinco unidades prontas e três em desenvolvimento em São Paulo e no Rio de Janeiro, a empresa tem como target pessoas que estão saindo de casa para estudar ou ingressando no mercado de trabalho.

“Eles sobretudo prezam por uma infraestrutura que oferece moradia, lazer, convivência e segurança, tudo em um só espaço”, afirma o CEO e fundador Juliano Antunes. Para estabelecer o conceito, que une tecnologia, praticidade e vida em comunidade, a empresa aposta no retrofit de prédios antigos com localização estratégica, como o Hotel Jaguar, no centro de São Paulo, e o Hotel Novo Mundo, no Rio.

Apartamento individual da Yuca, no Mirante do Vale no Vale do Anhangabaú, região central de São Paulo. Foto: Divulgação

Apesar da proposta baseada no convívio, o CEO fala que a pandemia trouxe uma série de adaptações – algumas permanentes. A empresa virtualizou os cursos e atividades que costumava oferecer e investiu em bate-papos com psicólogo para ajudar os jovens a lidar com a mudança brusca na rotina. “Nossos quartos compartilhados foram transformados em individuais e levamos esse conceito para os novos projetos”, diz. Os próximos empreendimentos terão ainda cabines individuais nos espaços de coworking e maior ênfase nas áreas ao ar livre.

Proximidade virtual e planos de reabertura

Com seis tipos de apartamentos, todos equipados com cama box com baú, armários, geladeira, microondas, cooktop, mesa e cadeiras, banheiro privativo e sacada, o Kasa se instalou há dois anos no número 99 da Rua Casa do Ator, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. A estrutura coletiva conta com serviço de concierge, academia, coworking, solário, rooftop, jardim para pets, lavanderia, hamburgueria e espaço multifuncional.

O diretor geral Renato Marostega diz que a ideia inicial era atender a estudantes das universidades da região, mas a procura cresceu também por parte de profissionais autônomos e empresários. “Hoje em dia o público é bastante variado”, relata.

A média anual de ocupação dos apartamentos, que gira em torno de 55%, deve se manter neste ano, apesar da sacudida da pandemia, acredita ele. “As pessoas precisam se relacionar, precisam de contato, fazer amigos”, afirma o executivo. “Já estamos sentindo que, com o retorno das atividades, a procura está aumentando bastante, portanto o coliving continua fazendo todo o sentido.”

Com a flexibilização, voltaram a abrir as áreas coletivas, mas mantendo medidas de distanciamento e prevenção. Os eventos que antes faziam a alegria dos “colivers”, como ioga no rooftop, harmonização de drinques ou aula de inglês com degustação de cervejas, devem voltar só no final de outubro.

Coliving nas alturas

Confirmando a ideia de que os colivings vieram para ficar, a construtora Eztec acaba de iniciar as obras de um projeto ousado. Localizado no Brooklin, bairro nobre da zona sul paulistana, o Air Brooklin tem entrega prevista para 2023. Serão duas torres – uma residencial, com 34 andares e 663 unidades, e outra corporativa.

A proposta do empreendimento é ser um coliving de alto padrão, com lojas no térreo, espaço fitness da Cia Athletica, piscina coberta e aquecida no quinto andar, outra piscina no rooftop, wi-fi nas áreas comuns e serviços como café da manhã em sistema pay per use na cobertura.

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