Depósito ‘self storage’ vira extensão do apartamento na pandemia

Depósito ‘self storage’ vira extensão do apartamento na pandemia

Modelo de armazenamento vira alternativa para quem precisou se mudar para imóveis menores ou teve de adaptar ambientes; clientes residenciais são 70% da carteira das empresas

Bianca Zanatta

29 de novembro de 2020 | 05h00

Especial para o Estado

As prioridades do consumidor brasileiro em relação à moradia mudaram na pandemia. Uma série de estudos realizados pelo Google entre agosto e setembro para mapear os objetivos de quem pesquisou imóveis mostra que o sonho de adquirir a casa própria, citado por 25% dos entrevistados, foi superado por um incômodo: a casa não atende mais às necessidades do morador (28%).

Em terceiro lugar, as pessoas disseram não ter condições financeiras para continuar no imóvel em que estão (22%), e outra tendência é a necessidade de se ter um espaço delimitado para home office (19%).

Enquanto alguns optaram por moradias maiores em bairros afastados do centro (de melhor custo-benefício), outros estão aderindo a uma modalidade ainda pouco difundida no Brasil: o self storage. Os perfis de clientes são diversos, dos que quiseram liberar um ambiente para montar o home office àqueles que se mudaram para um apartamento menor por questões financeiras na pandemia e preferiram não se desfazer dos pertences.

Apontado em 2019 pelo Secovi-SP (sindicato da habitação) como uma tendência do mercado imobiliário, o self storage (com armazenamento em galpão ou depósito), conceito que surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, ganhou força neste ano com essas novas demandas. De acordo com a Moby, que mantém unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro, a procura por seus boxes cresceu 60% entre abril e agosto. Hoje, 75% dos clientes são pessoas físicas que precisaram adaptar o espaço em que vivem.

Segundo o CEO Harry Taylor, os brasileiros começaram a enxergar a alternativa como um prolongamento do próprio lar. “Esse já é um fenômeno antigo dos EUA e da Europa e agora estamos vendo a procura crescer por aqui”, conta.

Modelo de self storage da Moby, que mantém unidades em São Paulo e Rio de Janeiro. Foto: Storm Studios

Para ele, foi a pandemia que impulsionou o movimento, por conta da necessidade de reorganização dos espaços. “O que era apenas uma área para descanso da família agora é utilizado tanto para o trabalho remoto quanto para o lazer”, exemplifica.

Entre as vantagens que muitos vêm na modalidade estão a desburocratização do contrato de aluguel (prazo mínimo de apenas 30 dias), isenção de taxas como IPTU ou condomínio, ausência de despesas com segurança e manutenção e, acima de tudo, o valor.

Na Moby, o box de 1 m² tem custo mensal de R$ 99. “O tamanho pode parecer pequeno, mas, para você ter uma ideia, móveis de um apartamento padrão de 70 m² cabem num box de 9 m²”, calcula Taylor. “É uma questão de organização e otimização do espaço.”

Para Mariana Wiederkehr, CEO da GuardeAqui – que teve crescimento de 33% nas locações e aumento de 20% no faturamento durante a pandemia -, a flexibilidade do contrato é também um grande apelo para os clientes residenciais, que hoje representam 70% da carteira.

“Você pode precisar de um espaço por dois meses, seis meses e depois não precisar mais”, diz. “É uma alternativa flexível e sem burocracia para guardar livros, coleções, móveis, bicicletas, tudo.”

Depósito por aplicativo

Foi esse o raciocínio da publicitária Isabella Crepaldi, de 34 anos, que decidiu sair do apartamento em que vivia para morar com o namorado no início da quarentena. “A gente percebeu que manter as duas casas não fazia sentido, mas tínhamos coisas duplicadas, como mesa de jantar e sofá, que seria difícil vender por causa da pandemia, e outras que queríamos guardar para um momento futuro, como meus móveis de varanda e livros”, conta.

Enquanto espera que o apartamento para o qual pretendem mudar no futuro fique pronto, ela optou por ajeitar tudo em um box da M3Storage – startup multinacional com sede no Chile – localizado no estacionamento de um hipermercado da Via Anchieta, na divisória entre São Paulo e São Caetano do Sul. A mensalidade é de R$ 240.

CEO da Moby, Harry Taylor, diz que há um mercado em expansão para self storage no Brasil. Foto: Storm Studios

“Eles têm um formato digital de abertura da porta pelo aplicativo, que para nós funciona muito bem. Não precisamos estar presentes se alguém for retirar alguma coisa”, explica. Foi o caso de uma escrivaninha que estava guardada e que ela deu de presente para a cunhada.

A intenção do casal é manter o box mesmo quando for para o próximo imóvel. A publicitária fala que, na ponta do lápis, acaba valendo a pena. “É quase uma extensão da casa, como um depósito. São coisas que a gente quer manter sob nossa responsabilidade em vez de colocar na casa dos pais, mas de que a gente não precisa no dia a dia.”

Self storage dentro de condomínios

A solução de armazenamento que alia tecnologia e localização estratégica, aliás, foi a sacada da M3Storage, que dobrou de tamanho nos últimos 6 meses, com a inauguração de 15 novas unidades e previsão de abrir mais 10 até dezembro.

Seguindo o conceito de autoatendimento, a empresa transferiu toda a operação para o ambiente virtual: o cliente escolhe o box, faz a locação online e depois se dirige à unidade selecionada, acessando o locker pelo aplicativo.

Espalhadas por bairros residenciais, as unidades da empresa ocupam espaços como o subsolo de supermercados e até áreas comuns de condomínios. “Acreditamos muito na questão de preparar o prédio para plugar serviços e parceiros”, diz Alexandre Frankel, CEO da Housi e presidente do conselho da incorporadora Vitacon, que fechou parceria com a M3Storage para o edifício ON Paulista, no Viaduto Santa Generosa, com previsão de entrega para 2022.

“Tudo o que contratamos via celular e aplicativos o prédio é preparado para receber fisicamente, de modo profissional”, afirma.

Com 700 apartamentos inteligentes de 20 m², o empreendimento contará com um pool de lockers de self storage no térreo, que faz parte do conceito de “appspace”, em que toda a infraestrutura é pensada para receber serviços que facilitem a vida do morador. A contratação será feita pelo sistema de pay per use.

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