Dos galpões às torres, Vila Anastácio é repaginada
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Dos galpões às torres, Vila Anastácio é repaginada

Perfil do bairro é alterado com a troca de antigos terrenos de armazenamento por condomínios fechados

Luiza Leão

04 de agosto de 2019 | 06h00

ESPECIAL PARA O ESTADO 

No início dos anos 1920, imigrantes do leste europeu foram alguns dos moradores mais antigos da chamada Vila Anastácio, que antes havia sido propriedade de um militar. Anos à frente, a localidade ganhou indústrias e o perfil do bairro foi modificado do ponto de vista urbanístico. De cinco anos para cá, a mudança estrutural tem sido ainda mais imponente.

Os antigos galpões cedem espaço para torres residenciais, com condomínios fechados e infra-estrutura moderna – transformação provocada pelo interesse do mercado imobiliário em uma das franjas da zona oeste ainda com potencial construtivo.

Em entrevista ao Estado em dezembro de 1998, o líder comunitário e fundador da Sociedade Esportiva e Recreativa da Vila Anastácio (Sava), Lajos Beres, contou que em meados dos anos 1950 houve a primeira mudança estrutural da região, já valorizada do ponto de vista imobiliário. “O bairro era um dos mais industrializados de São Paulo e as casas para alugar aqui eram muito disputadas”, disse.

Vista de galpões e novas torres na Vila Anastácio. Foto: Felipe Rau/Estadão

Nessa época, grandes famílias ainda residiam no local, repleto de casas planas, com muros baixos e vagas de garagem extensas. Após décadas de escanteamento habitacional e expansão industrial na localidade, os domicílios voltaram a estar em alta na Vila Anastácio. De 2015 a maio de 2019, o Secovi-SP (sindicato da habitação) registrou 3.578 lançamentos, em número de unidades, nesse distrito da Lapa.

“Não há um grande volume de terrenos disponíveis para novos empreendimentos na cidade de São Paulo, senão em regiões próximas a antigos complexos industriais, com fábricas e galpões, como a Vila Anastácio. Os empreendedores imobiliários vão em busca de terrenos e ocupam as áreas com ofertas de terra a bons preços”, explica Celso Petrucci, economista-chefe da entidade.

Segundo o representante do Secovi, o fenômeno que está acontecendo com a Vila Anastácio não é inédito e se assemelha à repaginada que a Vila Andrade, a Vila Carrão, o Tatuapé e a Vila Prudente também estão passando nos últimos anos.

O urbanista e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Valter Caldana faz um alerta, no entanto, para os riscos urbanísticos que essa repaginada provocada pelos condomínios fechados pode trazer aos bairros, como ocorreu com a Vila Leopoldina, na zona oeste, vizinha da Vila Anastácio.

“Se você pegar regiões fabris, de grandes galpões e densidade demográfica quase zero, e transformar em regiões habitacionais de densidade bem mais alta é bem positivo. Mais do que isso, necessário. O marco regulatório contribuiu nesse sentido. Porém, na hora da efetiva ocupação, se você tem um modelo pronto e de muros altos, o projeto de ocupação se torna parcial e não responde às necessidades urbanas, mas apenas às necessidades intralote. Ou seja, não transforma o planejamento urbano em desenho urbano.”

Nova Lapa

Para valorizar essa região, popular e anteriormente marcada por complexos industriais, as construtoras têm adotado uma nova nomenclatura para a Vila Anastácio, surfando na valorização que já possuem outras localidades, como o Alto da Lapa.

A Rua Fortunato Ferraz, por exemplo, foi intitulada como a primeira “rua jardim” de São Paulo e terá um parque linear, espaço para ciclovias, paisagismo, parque infantil e equipamentos de ginástica, tanto para quem mora nos condomínios quanto para o bairro. Valorizada, a rua será palco de dois condomínios lançados pelas incorporadoras Toledo Ferrari, Tegra e Helbor: o Caminhos da Lapa Home Club e o Caminhos da Lapa Jerivás.

“O bairro passa por um processo de modernização muito grande graças à sua verticalização e apresenta perspectivas de desenvolvimento muito parecidas com as de bairros próximos, como a Vila Leopoldina. Os incorporadores estão desenvolvendo um projeto especial com foco na qualidade de vida e na valorização urbana da região”, explica Belmiro Quintaes, diretor de atendimento da imobiliária Lopes, que, ao lado da Tegra e da Helbor, atua na comercialização dos imóveis do Caminhos da Lapa.

Por causa do potencial construtivo, as incorporadoras se uniram para a construção do complexo, que tem dois condomínios de seis torres já lançados. Os empreendimentos ocupam uma área de quase 150 mil metros quadrados – a área de um Maracanã. Juntas, as empresas conseguiram condensar produtos parecidos em um projeto pensado para atender um público-alvo similar: famílias menores e mais jovens.

Ao lado da “rua jardim”, a Cyrela tem em fase de obras o Living Wish Lapa, com imóveis de 2 e 3 quartos na Rua João Tibiriçá. Ainda que o empreendimento conte com infraestrutura completa na parte interna dos muros, a região ainda tem seus resquícios fabris e é escassa em oferta de serviços.

“No miolo da Vila Anastácio, a gente acredita que trazer empreendimentos com características de lazer e oferecendo uma opção completa de moradia é uma contribuição para a região. O comércio e o serviço vêm na sequência para atender a demanda que estará sendo criada”, especula Felipe Cunha, porta-voz da Cyrela.

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