Em Nova York, prédio terá entrada separada para moradores pobres

Projeto imobiliário no Upper West Side que mistura alto padrão e moradia popular terá 'porta dos pobres'

Claudio Marques

29 de julho de 2014 | 10h10

GINIA BELLAFANTE/THE NEW YORK TIMES

Mesmo com tantas crises perturbando o mundo recentemente, a notícia de que um projeto imobiliário no Upper West Side em Manhattan levará adiante um modelo de engenharia social muito desagradável conseguiu chamar atenção internacional. O edifício, chamado Riverside South, que abrange um terreno que chega até a Rua 72 e parece amplamente um local que surgiu repentinamente para pessoas que nunca ouviram falar do Katz’s Delicatessen ou da linha G do Metrô, teve aprovação da prefeitura da cidade para ter duas entradas separadas – uma para os moradores ricos e outra para aqueles que ganham bem menos e que ocuparão as unidades mais baratas do projeto, numa ala separada.

O efeito “os de cima e os de baixo” foi possível com base numa mudança da lei de zoneamento durante a administração Michael Bloomberg que deu às incorporadoras com projetos residenciais a preço de mercado o poder de decidir quanto a esses detalhes, além de isenções fiscais consideráveis.

Embora a configuração do edifício seja um anátema em relação aos valores adotados pelo prefeito atual, Bill de Blasio, obrigar a incorporadora a abandonar o projeto envolveria um processo caro e não inteiramente sustentável juridicamente, disse a prefeitura. O foco agora é reverter aquela mudança da lei, disse a vice-prefeita, Alicia Glen, o que deve levar cerca de um ano.

A “porta para os pobres”, como é chamada, é uma odiosa resposta a um problema cuja solução não é nem óbvia nem facilmente encontrada por meio de mecanismos políticos: como e até que ponto deve a cidade ordenar uma integração econômica? O projeto Riverside South é inusitado, e até um pouco radical, no sentido de que suas unidades luxuosas são condomínios, e não apartamentos de aluguel.

Basicamente, edifícios como este, que combinam apartamentos mais acessíveis a preço de mercado, não colocam nenhum apartamento à venda.

Neste caso, um edifício em que os apartamentos são negociados em torno de US$ 22.000 o metro quadrado, também conterá 55 apartamentos para famílias com renda em torno de US$ 35.280 a US$ 50.340 ao ano.

Quase que todo o Upper East Side, da Avenida Lexington até a 5ª Avenida, é testemunha disto: pessoas ricas gostam de viver entre pessoas ricas. Uma incorporadora construindo uma estrutura com apartamentos a US$ 3 milhões vai se preocupar, não sem razão, que tais apartamentos serão menos comercializáveis se estiverem ao lado daqueles que estão sendo alugados a US$ 1.000 por mês.

Não se trata apenas que as pessoas ricas consideram as pessoas mais pobres asquerosas, embora em alguns caso isso possa ser verdade, mas o fato é que os proprietários normalmente preferem viver junto com outros proprietários, acreditando que isto protege melhor o valor do seu ativo. A locação tem a pecha da transitoriedade, menor estabilidade, etc. (Embora somente um terço dos nova-iorquinos seja proprietário de um imóvel, cerca de 60% que ganham mais de US$ 500.000 estão nessa situação, de acordo com o Furman Center da Universidade de Nova York).

Então, como associar as coisas quando isto parece tão contrário às preferências e justificativas básicas de uma classe social inteira? Alguns alegam que a integração deve se subordinar a um objetivo maior de construir um imóvel residencial ao preço mais barato possível, o que seria mais fácil de realizar em partes da cidade onde o terreno é mais distante do centro da riqueza e poder e portanto mais barato. Apesar de este enfoque ser mais economicamente eficaz, e até tem seu mérito do ponto de vista ético, é difícil considerá-lo mais objetivo do ponto de vista social.

Num universo ideal, líderes progressistas possuiriam habilidades de marketing tão profundas que poderiam alterar e reformular nossa definição de status, de maneira a haver uma mistura estreita e agressiva de populações diferentes que tem sua própria distinção e valor apreciável. A chamada gentrificação (processo de recuperação do valor imobiliário e de revitalização de região central da cidade após período de degradação, o enobrecimento de locais anteriormente populares) quando não resulta num deslocamento total, realiza isto até certo ponto. Os bairros de Chelsea, em Manhattan, e Boerum Hill, no Brooklin, viram aumentos enormes nos preços dos imóveis nos últimos anos, embora as duas áreas abriguem enormes conjuntos habitacionais bancados pelo poder público. Apartamentos e casas de tijolinhos multimilionários dão vista direta para prédios onde moram famílias muito pobres.

Talvez seja mais sensato concentrar os esforços de construção de imóveis a preços acessíveis em áreas onde pelo menos haja um interesse orgânico na diversidade econômica, mais do que forçar isto em locais menos receptivos. No final, a construção do Riverside Boulevard vai gerar muita controvérsia e debate político, e tudo em benefício de menos do que cinco dezenas de famílias numa cidade onde mais de 50.000 pessoas estão desabrigadas.

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