Espaço público ganha ressignificação e valor afetivo na pandemia, mostra estudo

Espaço público ganha ressignificação e valor afetivo na pandemia, mostra estudo

Pesquisa da UFRJ aponta sentimentos como esperança e sossego para a casa e seu entorno, numa revalorização da urbanidade com o isolamento social provocado pelo coronavírus

Bianca Zanatta

20 de dezembro de 2020 | 05h02

Especial para o Estado

A relação das pessoas com a própria casa e a cidade onde vivem mudou na pandemia? No contexto do distanciamento social compulsório, que sentimentos esses espaços trouxeram à população? Esses foram alguns dos questionamentos que levaram a equipe do Laboratório Arquitetura, Subjetividade e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasc/Proarq/UFRJ) a conduzir a pesquisa “Cartografia de Histórias Interrompidas”, em agosto e setembro, com 128 moradores de diferentes regiões de Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo.

Por meio de um sistema de análise de dados idealizado pelo geógrafo e professor da UFRJ Jorge Xavier da Silva, precursor do geoprocessamento no Brasil, o levantamento procurou condensar as narrativas e a reinterpretação que as pessoas fizeram dos espaços valorados como casa e cidade.

“Nosso propósito era entender o olhar para a cidade no contexto da pandemia”, diz a professora Ethel Pinheiro, coordenadora do Lasc. “Pensamos que ouviríamos depoimentos sobre gente que as pessoas deixaram de ver, lutos e perdas. Mas, para nossa surpresa, a maioria disse que o que mudou foi a noção de espaço público.”

Apesar de sentimentos como medo, insegurança e ansiedade terem sido relacionados aos territórios por alguns respondentes, associações positivas como esperança, prazer e sossego apareceram em escala maior. Em questões de múltipla resposta, 44,1% citaram prazer, 42,5% liberdade, 41,7% sossego e 34,6% alegria e segurança.

“Houve também a valoração da casa, não especificamente da parte de dentro, mas da calçada, da praça em frente”, conta a urbanista, explicando que o entorno passou a ser absorvido como extensão do lar.

Com relação à cidade, a surpresa se repetiu. “Foi interessante porque a gente percebeu que as histórias das pessoas na cidade e o significado dos lugares não mudaram, o que mudou foi a importância que eles ganharam”, analisa Pinheiro. “Há um desejo de reviver esses espaços, um tom de esperança.”

Para ela, apesar da transformação no uso (como é o caso das praias no Rio e de praças e parques em São Paulo), a população não quer abandonar a vivência dos lugares públicos. “Notamos que não são as histórias que estão interrompidas, mas sim a ideia de cidade como era antes. E as pessoas estão se reinventando para criar uma nova compreensão desse espaço.”

Refúgios dentro e fora de casa

Segundo o arquiteto e urbanista Pedro Lira, sócio do escritório Natureza Urbana, houve um impacto relacionado a deixar de poder usufruir dos espaços públicos como antes, mesmo que o Brasil não tenha vivido um lockdown de fato.

Praça Horádio Sabino, na zona oeste de São Paulo: refúgio de famílias com crianças durante o isolamento. Foto: Daniel Teixeira/Estadão-9/8/2020

“O entorno vira uma extensão da casa. Quem tem parque ou praça por perto viu nesses espaços um refúgio.” Ele fala que as pessoas também passaram a refletir sobre o modelo em que viviam antes e isso jogou fortemente na ressignificação dos lugares. “Além de querer garantir necessidades básicas, como estabilidade, saúde e qualidade de vida, teve essa vontade de se refugiar numa caverna distante do predador – no caso, o vírus.”

Se de um lado a ideia do refúgio, seja em casa ou no entorno, trouxe nuances de tranquilidade e liberdade para muitos, o olhar para o ambiente público passou a ter um valor especialmente afetivo.

“Tem um provérbio alemão medieval que diz que o ar da cidade liberta”, lembra Pedro Rivera, professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Columbia e autor do capítulo “Arquitetura e urbanismo após a pandemia”, que faz parte do recém-lançado livro Como Viver em um Mundo sem Casa.

Nesse caso, diz ele, “ar” se refere à ideia de espaço – não físico, mas de relações, permitindo que os habitantes tenham maior liberdade nas escolhas. “Nas grandes cidades nós somos anônimos e isso traz uma grande liberdade, mas ao mesmo tempo uma impessoalidade que nos fragiliza”, explica. “Na sociedade ocidental contemporânea, em que está havendo um desmonte do Estado do bem-estar social, que de alguma maneira cumpria a função de proteger os indivíduos, a gente fica ainda mais vulnerável.”

De acordo com o especialista, o conjunto de relações que formam a cidade está sendo reestruturado. Questões ligadas à emergência da pandemia, como usar máscara, passar álcool em gel e não entrar no elevador com os outros, devem ser transitórias, mas ele acredita que as relações entre as pessoas e as relações de trabalho tenham mudado de vez. “É um caminho sem volta, mesmo que a gente não saiba ainda em que medida, e isso tem implicações no espaço físico.”

A professora da UFRJ Ethel Pinheiro, à frente de pesquisa. Foto: Erika Petreca

É nessa ressignificação de relações que a dimensão do lugar público – tanto como local de convívio como de descompressão – ganha relevância. Para Rivera, essa “sacudida” trouxe uma reflexão que vai de coisas pontuais, como a mesa de trabalho adequada, a questões maiores, como uma cidade com mais luz e ar.

“Esse é o nosso desafio agora: como a gente vai produzir essas qualidades no espaço da habitação e do urbano? O (programa) Minha Casa Minha Vida está preparado para as pessoas trabalharem em casa, por exemplo?”

Reaproximação com a natureza

Segundo Heloisa Dallari, especialista em arquitetura sensorial e professora da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), a situação de exceção da pandemia nos lançou em busca do que verdadeiramente conta e dá sentido de pertencimento.

“A pesquisa (do Lasc) traz o lado da ansiedade e do medo porque não sabemos quanto tempo e como vamos passar por esse processo, mas a menção a sentimentos como esperança, segurança e sossego mostra essa transformação de significado e sentido”, reflete.

Ela sublinha ainda a natureza humana que se redescobre na relação com os espaços: da falta que sentimos de estar nos ambientes coletivos, como animais com necessidade de convívio, à clara revalorização da proximidade com o ambiente. “Como entes naturais que somos, voltamos a valorizar uma boa vista, uma árvore, um jardim, uma varanda.”

A especialista explica que a ideia de desenvolvimento nascida no século 19 (era industrial) é também a de não se envolver com a natureza, colocando o homem como ente superior que procura explorar e controlar o planeta. “Nunca estivemos tão impotentes frente à natureza como agora e essa encruzilhada faz com que repensemos nosso convívio na cidade e nos nossos espaços de abrigo”, conclui.

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