‘Grande demanda hoje é por agilidade e flexibilidade’, diz economista

Para Gesner Oliveira, no caso dos imóveis, cada vez mais será valorizado o ‘usar’ no lugar do ‘ter’, numa mudança de paradigma econômico e social

Bianca Zanatta

12 de janeiro de 2021 | 20h43

Especial para o Estadão

O recém-lançado livro Como Viver em um Mundo sem Casa, organizado pelo empresário do ramo imobiliário Alexandre Frankel (Vitacon e Housi) e o jornalista Leão Serva, traz diferentes discussões sobre as tendências da habitação pós-pandemia. Coautor do capítulo “Do sonho da casa própria ao nomadismo digital”, ao lado do também economista Luccas Saqueto Espinoza, Gesner Oliveira, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica Aplicados à Administração da FGV e fundador da GO Associados, diz que a ideia da casa própria, assim como a de possuir um carro na garagem, sempre foi associada a status social no Brasil.

Com o passar do tempo, os consumidores migram a importância do “ter” ou “comprar” para o “usar”, numa mudança de paradigma econômico. Abaixo, trechos da entrevista:

Que mudanças comportamentais estão refletidas na transição para o nomadismo digital? Dá para dizer que os valores do brasileiro enquanto consumidor de bens materiais estão mudando?

A questão do nomadismo digital decorre de uma mudança tecnológica que permite a separação das funções. A ideia de que você precisa reunir as pessoas em um mesmo lugar para que haja produção simplesmente não resiste em muitas cadeias produtivas. Voltamos a entender que trabalho e moradia são locais relativamente próximos – noção que, com a Revolução Industrial, foi rompida. Além de acarretar a perda de um tempo precioso, a concentração das pessoas (para trabalhar) num mesmo local tem um custo brutal em termos ambientais – o impacto dos congestionamentos nas grandes cidades, por exemplo.

As tecnologias aplicadas hoje já existiam há mais de 10 anos, mas agora, com a pandemia, foram testadas em grande escala. Isso permitiu um enorme ganho de bem-estar e gerou uma mudança comportamental, quebrando o tabu de que, estando em casa, não produzimos tanto quanto nos escritórios. Por outro lado, existia uma noção, vinda desde a antiguidade, de acúmulo de bens como ideia de riqueza e poder. Isso foi sendo quebrado no final do século 20 e, mais intensamente, no século 21 pela desmaterialização da vida e pela valorização das experiências – o “usar” em vez do “comprar”.

Vivemos um momento excepcional de isolamento social e restrições à mobilidade, mas não há dúvida de que ela será cada vez maior e, consequentemente, vamos querer mais agilidade e flexibilidade. Essa é a grande demanda do século 21.

A moradia como serviço é um conceito mais aceito entre os jovens ou outras gerações também estão propensas a aderir à modalidade?

É natural que as gerações mais jovens aceitem mais rapidamente, porque são pessoas acostumadas a experiências e serviços. Muitos jovens não querem ter um carro. Quando precisam, chamam um veículo por aplicativo, compartilham um patinete ou bicicleta. O carro, que para as gerações mais antigas era símbolo de status, virilidade, independência e liberdade, hoje ironicamente tornou-se um aprisionamento. A mesma coisa acontece com a moradia e outros serviços. Eu não preciso ter a minha videoteca. Quando quero assistir a um filme, encomendo on-demand. Os jovens experimentam isso de forma mais frequente e, consequentemente, aceitam também a moradia como fluxo de serviços. Mas as outras gerações são facilmente cooptadas e trazidas para esse movimento porque acham muito prático.

O sr. fala que modalidades de moradia como coliving e multifamily property barateiam o custo com habitação no Brasil, que hoje consome em torno de 36,6% da renda de uma família, segundo o IBGE. Na ponta do lápis, como funciona essa conta?

O nosso custo de habitação é realmente muito elevado. Para se ter uma ideia, o mesmo levantamento de orçamento familiar do IBGE registrou que os gastos com alimentação são de aproximadamente 17%. Ou seja, o custo da habitação é quase o dobro. É realmente algo que pesa no bolso das famílias. Pesquisas indicam que o trabalho remoto veio para ficar, mas precisamos de equipamentos para um home office eficiente. São gastos necessários, assim como espaços para veículos individuais, bicicletas, recarga de carro elétrico, lavagem e secagem de roupas. Quando feitos em áreas comuns e divididos, há ganhos enormes. Morar onde há serviços compartilhados e espaço de coworking com móveis e internet de alta velocidade pode representar uma economia de até 30% nas despesas mensais de uma família.

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