Grupo Lello estuda soluções socioambientais para melhorar a vida em comunidade

Grupo Lello estuda soluções socioambientais para melhorar a vida em comunidade

Empresa, que é a maior administradora de condomínios no País, desenvolve por meio do laboratório Lellolab projetos para estimular o senso de comunidade dentro dos prédios

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

Aproveitar um ecossistema de 3 mil condomínios para desenvolver e colocar em prática soluções socioambientais que funcionam. Foi essa a ideia que o Grupo Lello, líder no segmento de administração de condomínios no País, resolveu tirar do papel. Para isso, a empresa criou o Lellolab – um laboratório de inovação da vida em comum tocado por profissionais que estão na vanguarda dessas discussões, como arquitetos, urbanistas e especialistas em inovação e tecnologias sociais, entre outros.

É uma turma que desenvolve soluções em diversas frentes – e, acima de tudo, vai a campo para implementá-las lado a lado com as comunidades prediais.

“Nos espaços do morar, nas cidades inteligentes, existem muitas oportunidades para melhorar a qualidade de vida das pessoas”, diz Filipe Cassapo, especialista em ecossistemas com inovação e diretor do Lellolab.

Segundo ele, estão sendo tocados projetos como o Tesouros do Bairro, uma plataforma que conecta empreendedores individuais e profissionais autônomos a pessoas da mesma comunidade. “É uma ilustração prática e concreta para inovar sob a ótica social, do conviver”, diz Cassapo. “A plataforma revela os talentos que estão à sua volta, no seu prédio, na sua quadra, no seu bairro. Médico, artista, professor de idioma, diferentes talentos convivem em cada comunidade e o projeto serve para alavancar a economia local.”

Outra iniciativa que já saiu do campo das ideias é uma aceleradora de projetos para inovar na convivência, que vai testar e escalar propostas para melhorar a qualidade de vida da comunidade. “Se você pensar que a Lello administra 3 mil condomínios, é o ambiente perfeito para prototipar e testar em escala”, defende o especialista, contando que as ideias selecionadas vão contar com um processo de mentoria, além de serem preparadas para aporte de capital com financiamentos coletivos e investidores-anjo de uma rede que será colocada em prática pelo grupo.

O laboratório já está com 128 projetos em mãos e agora se prepara para passar o pente-fino. Segundo Cassapo, são ideias que focam em educação ambiental comunitária, hortas urbanas para dar acesso a uma alimentação local de qualidade, logística reversa de resíduos com responsabilidade social e ambiental, transição para energias renováveis, melhoria da vida em comum e iniciativas para alavancar a economia local. “Um critério que vamos levar em conta vai ser também a diversidade dos empreendedores porque só sendo diversos vamos conseguir ser mais inovadores”, diz.

Em paralelo, o time está arregaçando as mangas em uma outra iniciativa batizada de sandbox. O piloto acontece em um condomínio do programa Minha Casa Minha Vida localizado em Carapicuíba, município da região metropolitana de São Paulo, que recebe o pessoal do Lellolab uma vez por semana.

“A gente chama de sandbox porque a ideia é essa: um ambiente para fazer, desfazer, experimentar, só que em um laboratório vivo urbano para criar e desenvolver junto com os moradores, síndicos e toda a comunidade”, diz Cassapo. “Nosso piloto está sendo nesse condomínio porque lá vivem pessoas com um nível de demanda social que representa a realidade da maioria dos brasileiros. Queremos inovações que façam sentido e atendam às necessidades sociais e econômicas da maioria”, conclui.

Para a bacharel em Direito Ellen Carvalho Rocha, síndica do condomínio, o projeto caiu como uma luva. “Carapicuíba não tem coleta seletiva, por exemplo. Então choveu ouro no deserto quando o Lellolab trouxe essa solução pra gente”, comemora. “Aqui tem um movimento grande de pessoas e precisa de reciclagem, precisa de energia solar, só que a gente buscava e não tinha crédito (das empresas), talvez por conta da região”, afirma a síndica. “Agora eles não só estão trazendo as empresas, como buscando soluções que sejam acessíveis para o condomínio.”

Mudanças acessíveis

O arquiteto e urbanista Lucas Girard, líder em inteligência e inovação urbana, fala que o trabalho começou pela prototipação de sistemas de geração energética e da logística e beneficiamento de resíduos orgânicos, reciclados e eletrônicos. “Estamos também atraindo parcerias para promover formas racionais e planejadas de consumo, sempre fechando o ciclo e garantindo que as novas conveniências não tenham como consequência o aprofundamento da crise ambiental.”

Girard diz que a parte mais desafiadora e estimulante do processo é desenvolver e experimentar tudo isso em parceria com a comunidade do condomínio. “Hoje não tem mais espaço para ‘inovar no quintal alheio’ dentro de uma lógica solucionista”, diz. “A crise climática impõe o desafio da cooperação social e de uma visão mais sóbria e articulada do papel das tecnologias na grande mudança de hábitos que estamos vivendo. Para que isso aconteça, precisamos que exista confiança entre todos.”

Desde a identificação do público e o envolvimento da comunidade até a definição de métricas, o urbanista diz que a intenção é aprender em conjunto com os moradores e cidadãos formas de transformar ambientes e hábitos de forma sinérgica e legítima. “É a semente de uma nova mentalidade sobre o ambiente construído. É preciso que os agentes que produzem as construções, que comercializam a terra, compreendam o que se passa com o mundo, com as cidades”, diz. “Muito além de somente a defesa de uma cidade mais densa ou verticalizada, é preciso subir a régua sobre questões de impactos de vizinhança e impactos ambientais pós-ocupação.”

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