Imóveis decorados virtuais remodelam lógica de lançamentos no setor imobiliário

Imóveis decorados virtuais remodelam lógica de lançamentos no setor imobiliário

Mercado vê no tour digital mais possibilidades para apresentar projetos, economia de recursos e sustentabilidade; apesar de não substituir experiência física, visitas virtuais de empresas como Neorama são tendência

Bianca Zanatta

19 de julho de 2020 | 06h01

Especial para o Estadão

Depois da onda de incertezas por conta da pandemia do novo coronavírus, o setor imobiliário celebra aquecimento e vê com otimismo a retomada. De acordo com a terceira edição da pesquisa “Covid-19: impactos e desafios para o mercado imobiliário”, realizada pela BRAIN Inteligência Corporativa em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), 22% das pessoas que pensavam em adquirir um imóvel efetivaram a compra em junho, superando março em 6 pontos porcentuais. Das 554 empresas entrevistadas, 36% afirmaram que a compra ocorreu durante a pandemia.

Alguns fatores contribuíram para o quadro positivo, como a queda da taxa Selic e a migração de investidores do mercado de ações, mas também o fato de o setor ter abraçado ferramentas de realidade virtual para atrair o público. Durante uma live de divulgação dos resultados do levantamento, Celso Petrucci, economista-chefe do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), ressaltou os lançamentos virtuais como um legado da pandemia para o futuro, prevendo híbridos de plantões de vendas físicos e digitais. A digitalização das empresas de construção e incorporação, que se intensificou com o distanciamento social, torna-se essencial para que o setor se ajuste aos novos tempos.

Professor do curso de arquitetura e urbanismo da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Roberto Fialho diz que as ferramentas de simulação já faziam parte da rotina da profissão, mas têm evoluído muito e cada vez mais rápido.

“(São) ferramentas de software que permitem a imersão do observador no espaço e com a possibilidade de experienciar diversas situações de luminosidade, opções de mobiliário e configurações da construção como, por exemplo, a remoção de paredes e aberturas diferentes”, diz. Para ele, as possibilidades digitais oferecem uma flexibilidade muito grande em relação à “imobilidade” do apartamento-modelo físico.

Projeto de decoração virtual produzido pelo estudioZAR. Foto: Projeção digital

Com a função de um protótipo, segundo Fialho, a unidade decorada proporciona a experiência do espaço, das dimensões e da funcionalidade do imóvel, vivência que mesmo os desenhos arquitetônicos mais humanizados não permitem.

Para ele, a realidade virtual cumpre bem o papel. Ainda que após a pandemia haja quem prefira a experiência do ambiente construído, ele acredita que os decorados virtuais vieram para ficar. “Da mesma forma como o trabalho remoto, tratado como um tabu antes da pandemia e que hoje virou o sonho de consumo da maioria”, compara.

Sócios do estudioZAR, os arquitetos David Arias e Nelson Kabarite criaram em abril o Quarantine Project, desenvolvendo projetos em realidade virtual a partir da planta baixa do imóvel. Como resultado, conquistaram clientes em lugares tão diversos como São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Bolívia e Ushuaia.

“Os renders em 3D já ajudam bastante, mas a realidade virtual termina de fechar a noção do espaço para o cliente”, relata Arias, que hoje vê os decorados virtuais como o passo de maior precisão possível antes da vivência in loco.

Lançamentos 100% em realidade virtual

É neste cenário que empresas como a Neorama, especializada em narrativas audiovisuais arquitetônicas, entram como peça-chave para o setor. Com a restrição dos modelos tradicionais de visitas, a empresa apostou em um sistema de realidade virtual que recria digitalmente o estande de vendas, permitindo que o cliente final se movimente em tempo real pelo projeto.

Elaborados por arquitetos de interiores, os decorados virtuais seguem o mesmo nível de detalhamento e especificações técnicas dos antecessores físicos. A partir do estudo do público-alvo, definem-se acabamentos, marcenaria, mobiliário, paletas de cores, tecidos, iluminação, composições de elementos decorativos e até a linha de skin care a ser colocada na bancada do banheiro.

Desde seu lançamento, em maio, a Neorama já fechou cinco projetos com grandes incorporadoras de São Paulo e no Sul do País. Segundo Sabrina Lapyda, gerente de marketing e novos negócios da empresa, o maior número de possibilidades oferecido pela realidade virtual, como diferentes modelos estéticos e simulação das áreas comuns, torna a modalidade atraente para as incorporadoras.

Apartamento decorado em realidade virtual pela Neorama. Foto: Projeção digital

A economia é outra vantagem, aponta ela: dependendo da metragem e da quantidade de decorações e funcionalidades, uma virtualização representa de 10% a 15% do orçamento de um decorado físico. “Raramente se constrói mais de um apartamento decorado e, uma vez construído, dificilmente tem como voltar atrás, ele trazendo resultado ou não.”

Ela prevê que a visita exclusivamente virtual ainda substitua a presencial a curto e médio prazos e continue a fazer sentido a longo prazo para empreendimentos menores ou voltados a investidores. Nos demais perfis, o decorado virtual tende a se tornar uma nova etapa da jornada de compra.

“Por mais que traga benefícios como economia de tempo, autonomia e experiências que não são possíveis no real, não existe ainda nenhum feature na ferramenta capaz de reproduzir a sensação de estar fisicamente no ambiente”, analisa.

Focada em projetos de alto padrão em regiões nobres da capital paulista, a incorporadora Yuni vendeu 58 unidades de 17 de março para cá. “O tour virtual contribuiu como uma das principais ferramentas”, conta o gerente comercial e de novos negócios Fabrício Costa. Das 30 mil visitas mensais no site da empresa, 80% estão relacionadas a pesquisas por apartamentos e o tour é o item mais clicado.

O executivo diz que os decorados virtuais devem se perpetuar não só pelo custo mais acessível e caráter atemporal, já que não têm prazo de demolição, mas também por serem mais sustentáveis. “Poupamos insumos e materiais quando deixamos de construir elementos físicos”, explica. “Ainda que tenhamos o plantão de vendas e em alguns casos até mesmo o decorado físico, o virtual coexistirá sempre em nossos empreendimentos e, em alguns casos, o plantão poderá ser 100% virtual.”

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