Imóveis multipropriedade crescem 17% no Brasil e movimentam R$ 28,3 bilhões

A modalidade imobiliária em que pessoas se tornam proprietárias de uma fração do empreendimento tem sido promovida por empresas como alternativa para dias de lazer

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2022 | 08h00

Especial para o Estadão

As multipropriedades imobiliárias – modelo de aquisição que já existe há décadas nos Estados Unidos e em países europeus – vêm ganhando força no Brasil. Também conhecida como fractional ou time-sharing (compartilhamento de tempo), a modalidade consiste na compra de uma cota ou de fração de um empreendimento imobiliário que dá direito ao uso por um período pré-determinado do ano. Ou seja, em vez de comprar uma casa de praia, por exemplo, compra-se um “pedaço” de um residencial de lazer ou hotel para passar um tempo de férias.

De acordo com o relatório Cenário do Desenvolvimento de Multipropriedades no Brasil 2021, produzido pela consultoria especializada Caio Calfat Real Estate Consulting, o País passou a contar com 128 empreendimentos do tipo no ano passado, sendo que 17 estão em fase de lançamento, 54 em construção e 57 prontos. O crescimento foi de 17% em relação a 2020. O levantamento indica ainda que a multipropriedade cresceu em média 24% nos últimos 4 anos, somando um valor geral de vendas (VGV) de R$ 28,3 bilhões – 51% já comercializados e 49% em estoque.

Doutora em direito civil, a advogada Danielle Biazi explica que o principal fator que impulsionou esse mercado foi a criação, em 2018, da lei nº 13.777, que dispõe sobre o regime jurídico e registro da multipropriedade. “Antes da lei, o problema no Brasil era de aspecto registral. Nossa lei de registros é da década de 1970, com muitos aspectos burocráticos e taxativos, e não havia uma regulamentação específica para a multipropriedade”, afirma. “Isso fez com que o modelo empacasse.”

A especialista explica que, no caso desses empreendimentos, fala-se de “fração espaço-temporal”. “São os mesmos direitos de uma propriedade, só que limitados a um período de tempo, que pode ser fixo ou variável, de acordo com o regime escolhido. É uma opção que reduz os custos de aquisição de um imóvel e resolve os problemas de ociosidade na baixa temporada. Há um melhor aproveitamento do bem”, diz. A advogada acrescenta que, como as despesas são proporcionais à fração temporal, também são reduzidos custos com IPTU, taxa condominial e despesas de uso, que o comprador só tem quando está efetivamente usando o imóvel.

Outra questão levantada pela advogada é o chamado “fenômeno do acesso”. “As pessoas estão gostando desse modelo de acessar e desfrutar de bens e serviços sem o ônus relacionado ao proprietário”, afirma.

Casa de férias contemporânea

Localizado entre Ilhéus e Itacaré (BA), o North Hotel Residence entrará em operação no final do ano com 70% das cotas comercializadas a um preço médio de R$ 70 mil. Segundo o diretor José Bezerra, o empreendimento é integrado à natureza, com a concepção de “pé na areia”. As unidades são para duas, quatro ou seis pessoas – algumas com hidromassagem – e as áreas comuns contam com spa, parque infantil, parque aquático com toboágua, quiosques, espaço gourmet e atendimento no deck da praia.

Bezerra ressalta que o empreendimento tem a vantagem de estar filiado a uma empresa intercambiadora de férias, serviço que permite aos proprietários trocarem seu período de permanência por hospedagens em resorts espalhados pelo mundo.

Compartilhamento

Outro destino turístico queridinho dos brasileiros que vai ganhar um endereço de multipropriedade é Gramado (RS). O Own Time – Home Club Gramado, projeto da incorporadora OwnerInc, terá um clube completo com restaurante, empório, bar e adega integrados a uma varanda externa, espaços gourmet com churrasqueira, piscina aquecida, spa com massagem, espaço kids e sauna, entre outros. Além de usufruir de sua fração de tempo no lugar, os proprietários terão a opção de alugar esse tempo a terceiros, flexibilizar para outro período do ano ou trocar por estadias em mais de 500 resorts do mundo.

As 64 unidades serão divididas entre casas e apartamentos de diferentes tamanhos, todos com churrasqueira, lareira e hidromassagem. Os valores de compra variam conforme o período do ano e tipologia do imóvel, podendo chegar a R$ 1 milhão.

“Em dois meses de lançamento do projeto comercializamos mais de 100 frações para clientes de norte a sul do Brasil”, diz Jeferson Braga, presidente e fundador da incorporadora. “Acredito que o modelo não seja mais uma tendência e, sim, uma realidade. O conceito do estilo de vida compartilhado é o único possível para solucionar questões sociais, ambientais e culturais de destinos turísticos consolidados”, ele defende.

Multipropriedade de nicho

Outra empresa que está apostando nas multipropriedades é a Planalto, que busca desenvolver produtos para nichos específicos. “Em novembro fizemos o primeiro lançamento da Mundo Planalto de Multipropriedade, com 2.116 cotas em Bento Gonçalves, no Vale dos Vinhedos”, diz Wesley Reis, sócio-diretor da empresa.

Batizado de Castelos do Vale Resorts, o empreendimento ficará dentro da vinícola Dom Cândido. A ideia, de acordo com o executivo, é fortalecer o enoturismo brasileiro com o projeto. Para 2022, será lançada ainda a Éden Resorts, que será a bandeira hoteleira do Terra Santa Cidade do Lazer, localizado em Trindade (GO). Outros projetos estão em desenvolvimento em Rio Verde e Vista, no mesmo estado, além de Gravataí e Viamão (RS), Sete Lagoas e Uberlândia (MG), Cuiabá (MT), Brasília (DF) e Campinas (SP).

“Em nossos empreendimentos teremos produtos de uma e duas semanas”, diz Reis, destacando que os preços vão de R$ 34,9 mil por cota de uma semana a R$ 69,9 mil por cota de duas semanas. A perspectiva é lançar 15 mil unidades nos próximos três anos, entre condomínios de lazer, condomínios de casas, hotéis e resorts. “Esse modelo também se conectou com o propósito da empresa, que é tornar a vida mais leve, e está diretamente relacionado com nosso grande sonho de impactar a vida de 100 mil famílias até dezembro de 2025”, ele afirma.

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