Imóveis se adaptam a mudanças no uso dos carros, de olho em novos hábitos do brasileiro

Empreendimentos nascem com locais de recarga para elétricos, vagas compartilhadas ou até sem vagas; uso de transporte público e bicicletas devem ganhar força nos próximos dez anos em São Paulo, diz estudo

Bianca Zanatta

25 de abril de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

O pensamento do brasileiro sobre mobilidade está mudando. Um estudo realizado em 2020 pela consultoria global Kantar apontou que o uso de carros na cidade de São Paulo deve cair 28% nos próximos dez anos, enquanto devem ganhar força o transporte público (alta de 10%), a caminhada (25%) e as bicicletas (47%).

O levantamento prevê também que a capital paulista será a terceira cidade do mundo com a maior revolução no uso de transportes na próxima década, atrás somente de Moscou, na Rússia, e de Manchester, na Inglaterra.

Os especialistas citam três principais motivos para a mudança de comportamento. O primeiro é a chegada dos aplicativos de mobilidade ou locação de carros. O segundo é a crescente preocupação com o meio ambiente, que faz com que as pessoas adotem soluções que vão da bicicleta e do transporte público aos carros elétricos ou híbridos.

O terceiro é um fator mais geracional, segundo o arquiteto e urbanista Paulo Renato Alves. “Os jovens hoje não querem pagar por uma coisa que eles não usam, é a geração pay per use mesmo”, diz.

Com a mudança gradual de mentalidade, as legislações de algumas cidades, como São Paulo e Porto Alegre, já começam a flexibilizar a obrigatoriedade de ter vagas de garagem nos condomínios residenciais. “Isso permite que os prédios possam voltar a entregar o térreo para a cidade”, afirma Alves. “É uma gentileza urbana que gera isenção de outorgas onerosas para o empreendedor, que pode construir mais área privativa em outras localidades, enquanto o térreo vira área de fruição pública, com fachada ativa para fortalecer o comércio local, praças e espaços para caminhar a pé”, exemplifica.

Vagas verdes

Outra tendência que está transformando o formato das garagens nos prédios é a chegada dos carros elétricos ou híbridos. Na capital paulista, onde a lei determinou este ano que os projetos residenciais já devem nascer com um sistema de recarga para esses veículos, a plataforma de serviços de moradia por assinatura Housi já fechou parceria com a startup de mobilidade Easy Volt para que suas unidades tenham um eletroposto de abastecimento.

Para Davi Bertoncello, sócio-proprietário da Tupinambá Energia, que pretende atingir 17 mil pontos de recarga instalados pelo Brasil até 2025, a nova lei vem de encontro às metas de descarbonização assinadas pelo País no Acordo de Paris de 2016 e ao crescimento da frota de elétricos e híbridos no território nacional.

“Embora aplicável apenas para novos edifícios, o impacto da lei foi imediato”, diz. “Se até o último mês de março as iniciativas de eletrificação eram, em sua esmagadora maioria, realizadas por pessoas físicas, nas últimas semanas as solicitações de condomínios dispararam 300%.”

A incorporadora Brasal, que atua em Goiás, Distrito Federal e Minas, foi outra que saiu à frente, criando as chamadas “vagas verdes” em todos os seus novos empreendimentos. Essas vagas já vêm com o equipamento instalado e à disposição dos condôminos. “Esse movimento é por acharmos que é nossa responsabilidade ter um mínimo de consciência ambiental na construção civil”, diz Lia Galera, arquiteta de incorporações do grupo.

Compartilhamento

Além das mudanças legislativas, os próprios condomínios residenciais começam a trazer soluções para essas questões. De acordo com Julio Paim, presidente do portal SíndicoNet, o modelo de car sharing (compartilhamento de carros) ainda é um projeto em fase inicial, mas já existe em alguns condomínios, que cedem vagas para aplicativos de locação. “O usuário abre o app na hora marcada, tira uma foto da carteira de motorista e aciona o bluetooth para abrir a porta do veículo”, explica. A chave fica no porta-luvas, com um cartão-combustível.

“Observamos que já havia um movimento de as pessoas venderem os seus veículos há alguns anos”, diz. “Com a pandemia, essa tendência tem ganhado força. Quem antes tinha dois carros, por exemplo, hoje tem apenas um.”

É o caso do advogado Flavio Monteiro, de 50 anos, morador do Real Parque, bairro na zona sul paulistana. Dono de um carro esportivo, ele também usa o aplicativo de aluguel de carros Turbi. “Eles têm estacionamentos espalhados por toda a cidade”, diz, explicando que é possível escolher entre quatro padrões de carros cuja locação varia de R$ 10 a R$ 35 por hora, mais R$ 0,50 por quilômetro rodado.

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