Indústria de materiais de construção vai levar alguns meses para normalizar produção, diz Abramat

Queda e aumento abrupto da demanda impactaram a indústria, diz associação; nível de utilização da capacidade instalada das fabricantes caiu de 70%, no começo de 2020, subindo até 88% em novembro

Circe Bonatelli

02 de março de 2021 | 20h00

O aumento nos preços dos materiais de construção é reflexo da desorganização na cadeia produtiva, com o sobe e desce da demanda durante a pandemia, na visão do presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Construção (Abramat), Rodrigo Navarro. Segundo ele, esse desarranjo foi agravado pelo aumento do custo das commodities e pela desvalorização do real frente ao dólar, e ainda serão necessários mais alguns meses para a situação se normalizar.

“Esse desaquecimento e reaquecimento da demanda esculhamba tudo. Muitas indústrias desmobilizaram equipes e linhas de produção inteiras na quarentena. Depois voltaram. Há um esforço enorme para se adaptarem e entregarem todos os pedidos”, afirma Navarro, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

O nível de utilização da capacidade instalada das fabricantes de materiais caiu de 70%, no começo do ano passado, para 53% em maio, depois subindo rapidamente até o pico de 88% em novembro.

Esse movimento acompanha o fechamento do comércio na quarentena, que foi seguido por dois fatores importantes que reativaram a demanda na sequência. De um lado, os juros baixos estimularam a compra de imóveis para moradia e investimento, aquecendo a oferta de novos empreendimentos pelas incorporadoras e, consequentemente, a demanda por materiais. Também pesou a concessão do auxílio emergencial, que aumentou a procura de materiais pela população, para fazer reformas e melhorias domésticas.

“A queda abrupta e a subida abrupta da demanda impactaram a indústria. É uma questão que já está próxima da normalidade, mas o ajuste na produção ainda deve levar alguns meses. Há setores que já conseguem atender à demanda. Mas outros setores ainda precisam de mais tempo para se ajustar”, diz Navarro.

O presidente da Abramat cita também o encarecimento de metais e resinas, cotados em dólar. “Não é que a indústria não quer produzir, mas é que está faltando insumo no mundo todo”, pondera. Outro ponto importante, segundo ele, são os gargalos na logística dentro e fora do Brasil para o recebimento de insumos necessários para a produção, o que também vem pressionando as despesas com fretes. “Vemos falta de contêineres e embalagens em certos locais.”

Abramat projeta alta de 4% no faturamento em 2021

A associação espera um crescimento de 4% nas vendas de materiais em 2021, o que representa uma melhora na comparação com 2020, quando o setor fechou com uma leve alta, de 0,4%.

No ano passado, a previsão inicial era de aumento de 4%, mas o dado foi revisado para queda de 7% com a chegada da pandemia. Terminar com essa leve alta de 0,4% foi considerado positivo, mas, para Navarro, também demonstra o grau de incerteza que permeou o ano e as decisões de investimento das fabricantes.

Para 2021, a maior parte do crescimento ainda deve vir do varejo, que tem sido responsável por mais da metade da demanda da indústria nos últimos anos. Mesmo sem o auxílio emergencial, as pessoas têm buscado melhorar as suas residências, já que passam mais tempo em casa, avalia o executivo. A demanda também deve se aquecer entre as incorporadoras que darão início à obras de projetos lançados nos últimos meses. Já o consumo de materiais pelo segmento de infraestrutura ainda deve seguir fraco – dada a grande quantidade de obras públicas paradas – mas com uma tendência de melhora à medida que projetos nas áreas em que os ativos foram destinados à concessão privada, caso de rodovias.

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