Juntos e misturados para reduzir os  custos mensais
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Juntos e misturados para reduzir os custos mensais

Mesmo com a queda real registrada no valor dos aluguéis, a crise leva muitos moradores a optar por compartilhar residências

Claudio Marques

24 Julho 2016 | 07h33

MORAR_JUNTAS

Adriana, Andrea e Beatriz (sentada no chão) dividem apartamento

Márcia Rodrigues / ESPECIAL PARA O ESTADO

Depois de analisar as suas planilhas de gastos, o fotógrafo e diretor de artes Windson Burneth, de 36 anos, resolveu, há três meses, sublocar um quarto da casa que aluga há 13 anos na Vila Sônia, na zona oeste de São Paulo.

“Estou no quarto semestre da faculdade de direito, pago R$ 1.430 de mensalidade, e as aulas de fotografia que eu dava todos os fins de semana para complementar a renda foram reduzidas a uma vez por mês. Por isso, não tive alternativa.”

Burneth paga R$ 1.200 de aluguel por uma casa com dois quartos, sala, cozinha e garagem, além de gastos com conta de luz, água, internet e telefone. Ele e a nova inquilina dividem todas as contas. O fotógrafo diz que fez 12 entrevistas para chegar à pessoa escolhida para acolher em sua casa. “A convivência pode ficar difícil se não houver afinidade e se não forem estabelecidas regras.”

O fotógrafo não é o único a optar por dividir a moradia. Mesmo com a queda no valor do aluguel que, segundo o índice Fipezap, caiu 1,78% em 11 cidades brasileiras no primeiro semestre. Se considerada a inflação dos últimos doze meses (8,84%), o valor do aluguel teve uma queda real de 12,93%. Aindea assim, muitas pessoas estão optando por morar com alguém para reduzir os altos custos por conta da inflação.

Desemprego. Não são apenas os mais jovens que fazem parte desse mercado impulsionado pela crise. Adriana Jorge, 45 anos, é professora de inglês e tradutora, tem um apartamento no mesmo prédio em que a irmã, Andrea Jorge, 49 anos, e a sobrinha, Beatriz, 16 anos, na região central de São Paulo. Por estar sem um emprego fixo, há três meses ela alugou o seu imóvel mobiliado e foi morar com a irmã.

Não estávamos conseguindo nos bancar sozinhas, por isso, resolvemos dividir as contas”, diz Adriana.
Segundo conta, com a mudança as irmãs reduziram os gastos mensais em até 40%. “Eu também vendi o meu carro para diminuir ainda mais as contas com seguro, gasolina e manutenção, por exemplo.”

Adriana conta que o contrato de locação com seu inquilino é de 36 meses, mas há uma cláusula que permite a interrupção em 18 meses. “Espero melhorar a minha situação até lá, porque, mesmo estando com a minha irmã e sobrinha, morar com alguém depois de viver um tempo sozinha não é fácil.”

Outro que precisou dividir a moradia por causa do desemprego foi o analista financeiro, Rogério Silva dos Santos, 37 anos. Para conseguir arcar com o financiamento da sua casa em Caieiras, na Grande São Paulo, e com os gastos mensais, ele alugou um quarto para uma amiga há um ano e quatro meses.

“Hoje, eu já estou empregado, mas combinamos que ela ficaria em casa até a sua formatura, que ocorreu neste mês. Agora, ela vai começar a procurar emprego em escolas nas cidades vizinhas, já que se formou em pedagogia e o seu estágio acabou. E se arrumar algo legal, ela sai, sem pressa.”

Santos afirma que, inicialmente, cobrava R$ 300 por mês mais os gastos fixos da casa. Quando conseguiu emprego, ele manteve a divisão das contas mensais, mas reduziu o aluguel para R$ 200. “Ela era estagiária e eu estava numa situação mais confortável, por isso baixei o preço.” A parcela do financiamento da casa é de R$ 550.

O analista financeiro diz que não houve problemas de adaptação com a nova inquilina. “O único contratempo é que ela fumava e, mesmo respeitando as regras e indo fumar no quintal, sempre ficava o cheiro. Finalmente, eu a convenci a parar e hoje ela não fuma mais.”

A radialista Lais Passarini, de 23 anos, optou por morar com mais duas amigas que conheceu no Facebook, na Rua da Consolação, também no centro da capital, por causa do custo e da proximidade com o trabalho.

“Sou de Piracicaba e vim para a capital atrás de oportunidade de emprego. Fiquei dois meses hospedada em um hostel até achar as meninas em um grupo no Facebook, que têm pessoas interessadas em morar juntas.”

Passarini diz que visitou vários apartamentos antes de fechar o negócio, mas o atual é o que oferecia o melhor custo benefício, por ser na mesma rua do seu trabalho. “Eu também passei por uma entrevista antes de ser aceita. Falamos tudo o que gostávamos ou não e tivemos afinidade.”

A radialista diz que paga R$ 750 de aluguel, IPTU, condomínio mais outros gastos fixos. “Eu queria qualidade de vida, morar perto do trabalho, fazer academia e ter tudo o que eu gosto próximo.”

Sublocação. De acordo com o diretor de Locação do Sindicato da Habitação (Secovi-SP ), Mark Turnbull, há quase um ano o aluguel vem sofrendo queda. “Quem tem contrato antigo, negocia para o preço não subir quando ele vence. O poder de barganha está nas mãos dos inquilinos.” Na sua análise, o movimento de dividir a moradia deve estar ocorrendo por conta da alta de outros gastos como IPTU e do custo de vida.

No entanto, ele orienta que quem for sublocar deve comunicar o fato ao proprietário do imóvel. “A legislação não permite sublocar quarto sem autorização do dono do imóvel. Inclusive, há contratos que proíbem esta prática”, afirma.

‘É preciso ter afinidade com quem vai morar’

Para Ligia Marques, especialista em etiqueta e marketing pessoal, algumas regras básicas podem fazer a diferença na hora de compartilhar um apartamento ou casa. Acompanhe a entrevista.
O que é preciso observar antes de morar com alguém?
É preciso ver se você tem afinidade com a pessoa que escolheu para morar junto antes de fechar o negócio. Se ela trabalha em um horário diferente do seu e precisar varar a madrugada acordada, por exemplo, pode atrapalhar o seu sono? Procure se inteirar dos hábitos dela a fim de avaliar se eles não podem provocar conflitos no futuro.
O que uma pessoa pode fazer depois que já estar compartilhando um imóvel?
Ela deve tentar se colocar no lugar da outra pessoa para entender o que poderia incomodar o outro para perturbá-lo o menos possível. O ideal é que sejam estabelecidas regras claras a respeito do que se pode e não se pode fazer no apartamento e também determinar horários para lavar roupa, louça, usar a cozinha, se as compras de comida e material de limpeza serão feitas juntas ou separadas, se as tarefas domésticas serão divididas ou se cada um fará a sua. Estas são algumas medidas que podem ser adotadas.
E como fica a convivência com outras pessoas?
Se uma tem namorado e ou outra não, é preciso avaliar se isso não acabará por incomodar no futuro. Independentemente disso, é importante os dois moradores falarem abertamente a respeito do assunto, se a visita pode ser assídua ou não, por exemplo, para não gerar um desgaste no relacionamento. A mesma coisa vale se a pessoa tem um animal e você não gosta ou é alérgico. Afinal, se a convivência não é fácil com quem a gente ama, imagina com um colega.