‘Locação flexível’ vira novo hábito dos hóspedes brasileiros durante a pandemia

Limpeza, higienização e lugares com menor fluxo de pessoas são fatores essenciais para os clientes, que também buscam por bons preços e praticidade na estadia, seja ela longa ou curta

Bianca Zanatta

02 de maio de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

Afetados pela pandemia da covid-19, os hábitos de viagem se transformaram ao longo do último ano. Segundo um levantamento da plataforma Airbnb nos Estados Unidos, aspectos de limpeza e higienização ganharam mais relevância na decisão dos hóspedes, que hoje optam também por estadias em lugares com menor fluxo de pessoas e rotatividade, como casas de campo e em cidades menores do litoral.

Além das fronteiras fechadas, que dificultaram o vaivém internacional, a saudade é outro fator que trouxe mudanças na escolha dos destinos de viagem. Ainda de acordo com o Airbnb, as viagens ganharam um “significado mais pessoal, que leve de volta às raízes”. Apesar de 31% dos entrevistados desejarem uma nova experiência ou destino, de preferência próximo, 32% priorizam sair de casa para estar perto da família e 25% sentem vontade de retornar a um destino preferido.

Diante do novo comportamento, alternativas de locação flexível entraram na mira de pessoas que procuram imóveis para atender a um momento específico – das férias rápidas ou da visita a familiares a mudanças temporárias por causa do trabalho, por exemplo. De acordo Thomaz Guz, fundador da Nomah – startup com foco na gestão e transformação de ativos residenciais para locação flexível em São Paulo –, tanto os hóspedes de estadia curta quanto os de locação de médio ou longo prazos prezam por quatro fatores: praticidade, inovação, custo-benefício e disponibilidade de serviços adicionais sob demanda.

Com o lema “fique o tempo que quiser”, a empresa, que faz retrofit de prédios antigos e hotéis, faz a gestão de unidades residenciais totalmente mobiliadas, com portaria e atendimento 24 horas e serviços como limpeza adicional e descontos em estabelecimentos próximos.

“A ideia é também fazer uma cobrança democrática que viabilize a permanência das pessoas”, afirma Guz, explicando que a startup trabalha com dois modelos – cobrança por diária (que custa de R$ 100 a R$ 400, dependendo da localidade) ou pacotes mensais a partir de 30 dias. “Quanto mais tempo fica, menor o preço”, diz.

Parceria

A Nomah também atua em empreendimentos novos, como no caso de uma parceria com a Gafisa. O primeiro ativo incorporado e construído pela construtora em parceria com a startup, que acaba de ser entregue, é o Moov Estação Brás, localizado no centro da cidade. Com 542 unidades distribuídas em duas torres, o condomínio tem uso misto: 321 apartamentos residenciais e 221 unidades destinadas a estadias curtas, médias e longas. A startup cuida desde a gestão de contas e manutenção desses apartamentos até os contratos das locações flexíveis.

Para o empresário Roger Righi, de 43 anos, o padrão dos apartamentos é o maior atrativo. Morador de Porto Alegre (RS), ele comanda empresas no Rio Grande do Sul e em São Paulo, onde costuma se hospedar na Nomah. “Eu prefiro pela comodidade, organização e preço e gosto muito do padrão”, afirma. “Das residências novas, da facilidade de ter as amenidades por perto, a exemplo de lavanderia e cafés.”

Maior rentabilidade

A anyLife, que acaba de completar um ano de vida, é outra startup que apostou na demanda por hospedagem rápida no setor imobiliário e chegou a R$ 500 mil de faturamento com gestão e R$ 1 milhão com obras em 2020. A empresa atua em imóveis prontos, obras ou lançamentos, com um braço para cada público – hóspede (corporativo ou turista) e proprietário.

Para o proprietário que quer usar o imóvel como fonte de renda, a startup faz, além da manutenção, toda a gestão da locação. O dono só precisa acompanhar os ganhos pela plataforma da empresa, que desenvolveu um algoritmo de precificação inteligente em que os valores das diárias são ajustados de acordo com os parâmetros do mercado, calendário de eventos da cidade, oferta e procura da região e preço de apartamentos concorrentes. De acordo com dados da própria anyLife, o aumento na rentabilidade chega a 50%, se comparado ao modelo tradicional de locação de curta estadia, que gira em torno de 0,2% a 0,6% ao mês.

Já para os hóspedes, a startup oferece facilidades que vão de limpeza e arrumação, itens de higiene e “concierge” digital a suporte 24 horas e serviços sob demanda. Responsável pela gestão de 91 unidades em bairros paulistanos como Itaim Bibi, Vila Olímpia, Brooklin, Vila Mariana, Consolação, Pinheiros e Centro, a empresa tem a meta de chegar a 400 imóveis gerenciados ainda este ano.

Referência na modalidade, seja de curta, média ou longa duração, a Housi, primeira plataforma de moradia por assinatura do mundo, acaba de ampliar sua atuação para se tornar um marketplace da locação flexível.

A ideia é distribuir os imóveis não só no site e aplicativo da própria empresa, mas em dezenas de grupos parceiros, como Airbnb, Booking.com, Zap e Imóvel Web, que direcionam os interessados para os canais da Housi. Até o fim do ano, a intenção é triplicar de tamanho e expandir para 80 novas cidades. Também está nos planos da empresa iniciar uma expansão para a América Latina.

Sem burocracia

“A ideia da moradia por assinatura é que a pessoa escolha por quanto tempo morar e onde morar, não importa se é uma semana ou se são 36 meses”, diz Alexandre Frankel, fundador da Housi. “Não é uma concorrência aos modelos tradicionais de curta permanência, que são bem especializados em turismo e hospitalidade, mas uma modalidade complementar.”

Frankel destaca que é possível mudar de uma unidade da Housi para outra sem burocracia nenhuma. “Nossos clientes são pessoas que querem prazos mais flexíveis porque inclusive podem mudar de necessidade durante o período de assinatura”, fala o empresário. “É para atender a uma demanda gerada por um novo perfil de consumo, novos tipos de trabalho, novas necessidades.”

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