Mercado imobiliário se movimenta ao redor da futura linha 6-Laranja do metrô

Mesmo com obras paralisadas, novos lançamentos e busca por imóveis em bairros das futuras estações crescem; clientela também se antecipa à demanda

Lorena Lara

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Especial para o Estado

A atual paralisação das obras da futura linha 6-Laranja do metrô de São Paulo não significou a paralisação da movimentação imobiliária ao redor da promessa de ampliação da rede. Apelidada de linha universitária, ela irá conectar o centro da cidade (desde a estação São Joaquim) com a zona norte, passando por bairros como Higienópolis, Pacaembu e Pompeia até chegar à Brasilândia.

Somente no bairro de Perdizes, em 2019, mais de 500 unidades residenciais foram inauguradas, segundo dados do Secovi-SP (o sindicato da habitação). No ano anterior, a Bela Vista registrou mais de 700 lançamentos.

A movimentação, no entanto, não veio apenas na forma de lançamentos. Sites de buscas de imóveis também registraram maior procura por imóveis em bairros por onde a linha irá passar. É o caso do ImovelWeb, que apontou entre novembro e dezembro de 2019, cerca de 86% de aumento de buscas nos bairros da Água Branca e Bela Vista. Em Perdizes, o crescimento foi de 26%. Vila Albertina, na Freguesia do Ó, viu mais de 400% de aumento nas buscas, analisando venda e locação de casas e apartamentos.

De olho na demanda e na valorização das regiões por onde a linha 6-Laranja irá passar, as construtoras não ficaram para trás. No eixo Perdizes-Pompeia, por exemplo, a REM lançou um empreendimento de localização estratégica: próximo ao Allianz Parque, ao shopping Bourbon e à futura estação Sesc Pompeia.

Não foi a única a investir nas áreas por onde a linha irá passar. Em 2019, os bairros que terão estações da futura linha do metrô registraram, juntos, mais de 800 unidades residenciais novas, segundo o Secovi-SP.

Projeção digital de prédio da REM em Perdizes.

Além da conexão entre o centro e a zona norte, o itinerário irá facilitar o acesso a diversas instituições de ensino (daí o apelido de linha universitária), como Fundação Getúlio Vargas (Bela Vista), Mackenzie (Higienópolis), Faap (Pacaembu), PUC (Perdizes), Unip e FMU (Água Branca).

As empreiteiras não são as únicas de olho nas oportunidades que a futura linha 6-Laranja pode gerar. A empresária Claudia da Silva recentemente comprou dois apartamentos, um na Pompeia e outro na Vila Romana, para colocá-los para locação e venda.

“Eu vejo o entorno, se tem faculdade, hospital, centro empresarial. Mas foquei no metrô, porque realmente facilita na hora de alugar.” Ela, que mora na Vila Romana e trabalha em Higienópolis, afirma que a futura linha não vai ajudar só na hora de alugar ou vender as unidades, mas também em seu próprio deslocamento diário.

E o acesso fácil ao transporte público dá indícios de se manter como um dos principais fatores na escolha de moradia. Segundo o Indicador de Antecedente do Mercado Imobiliário, estudo produzido pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o comportamento do consumidor previsto para o ano de 2040 aponta o que já se vê hoje: as pessoas preferem morar perto de onde há transporte público.

Segundo levantamento realizado pelo QuintoAndar, o comportamento do mercado após a inauguração de estações de metrô em outras regiões da cidade dá uma ideia da valorização imobiliária que vem por aí: no Morumbi, houve valorização de 2,7% no preço do aluguel médio; em Moema, a alta foi de 3,5%; e no Brooklin chegou a quase 12%.

Adensamento e verticalização

Bairros como Perdizes e Pompeia já vinham sofrendo adensamento com novos prédios nos últimos anos por registrarem muitos terrenos com casas e potencial construtivo após demolições. Esse chamariz já atraía as incorporadoras e, com a linha do metrô, os bairros ficaram ainda mais atraentes.

Combinado a isso, a verticalização está prevista pelo Plano Diretor Estratégico da cidade, que estabelece que as regiões por onde passam linhas de metrô devem ter adensamento populacional.

Além disso, o plano incentiva edifícios de uso misto, que tenham comércio e serviços no andar térreo. Segundo o arquiteto e urbanista Marcio Coelho, professor da Faap, prédios de uso misto são capazes de gerar mais movimento nas ruas e uma vida urbana mais saudável.

Linha 6-Laranja irá conectar o centro da cidade com a zona norte. Fonte: Metrô SP

“Ali tem moradia, comércio, trabalho. E aí existe uma chance maior de gerar vida na rua. Você sai de casa e conhece o padeiro, a pessoa que trabalha na loja em frente ao seu prédio, a farmácia, o mercadinho. Isso é muito rico para a cidade.”

Segundo Coelho, quando uma cidade se espalha demais horizontalmente, como é o caso de São Paulo, ela se torna pouco eficiente. “Além do impacto ambiental grande, fica caro levar infraestrutura a todas as áreas e isso gera uma série de desequilíbrios.”

Um desses desequilíbrios, explica, é o chamado movimento pendular, no qual a maior parte dos trabalhadores da cidade mora longe dos seus locais de trabalho e precisa percorrer grandes distâncias na ida e na volta para casa.

Vaivém das obras da linha 6-Laranja

Após quatro anos de obras paradas, o governo de São Paulo tem até o dia 9 de fevereiro para lançar o novo cronograma de obras para as 15 estações da linha 6-Laranja do metrô. A previsão é que a linha fique pronta em quatro anos.

Sua história prolonga há anos. As obras deveriam ter sido iniciadas em 2010, tiveram prazo estendido até 2013 e começaram de fato em 2015, com o consórcio Move São Paulo.

Obras paradas na futura estação da Freguesia do Ó, zona norte. Foto: Werther Santana/Estadão-13/11/2019

O consórcio contava com as empreiteiras Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC Engenharia e, por elas estarem envolvidas na Operação Lava Jato, não conseguiram o financiamento necessário e as obras foram paralisadas no ano seguinte.

O governo deveria ter retomado as obras até 2017, o que acabou não acontecendo. Somente em dezembro de 2018 os contratos foram rescindidos e novas negociações foram cogitadas com grupos internacionais. No fim do ano passado, a empresa espanhola Acciona assumiu as obras.

* Colaborou Anna Victória Barbosa, estagiária sob a supervisão do editor de Economia, Alexandre Calais

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