Minimercados ganham protagonismo em condomínios residenciais

Minimercados ganham protagonismo em condomínios residenciais

Incorporadoras, startups e redes de supermercados aproveitam pandemia para apostar em operações reduzidas dentro de prédios, com autoatendimento e experiência digital

Bianca Zanatta

20 de setembro de 2020 | 05h02

Especial para o Estado

Se o fácil acesso a serviços já estava entre os fatores que norteiam novos empreendimentos imobiliários, com a chegada do novo coronavírus a questão se tornou central. Agora, além de localização estratégica, as incorporadoras estão apostando em três características: comodidade, comodidade e comodidade. E por comodidade entenda-se não só proximidade de tudo – transporte, comércio, lazer – como também praticidade.

É nesse contexto que empresas como a Vila 11, que desenvolve e opera residências para locação facilitada, e a Cury Construtora, especializada em empreendimentos econômicos, decidiram incluir um minimercado no rol de facilidades que já previam em seus lançamentos.

No caso da Vila 11, que deve entregar 3 mil apartamentos e 13 empreendimentos na capital paulista nos próximos 5 anos, está em negociação a instalação de uma loja do gênero em seu primeiro residencial, aberto em agosto na Vila Madalena, zona oeste.

Apesar da variedade de comércios do bairro, o alto volume de compras de alimentos dos moradores serviu de alerta para a necessidade de uma opção mais conveniente e prática. “A implementação de minimercados em empreendimentos imobiliários segue uma tendência de comportamento, cujo crescimento temos observado nos últimos anos, que visa uma experiência de moradia facilitada”, afirma o CEO Ricardo Laham.

A Cury, que inaugurou recentemente o estande de vendas de um projeto no Tatuapé, zona leste, também está de olho na ideia. Além de ficar a poucos minutos de estações de metrô, shoppings, supermercados, parque, hospitais e escolas, o condomínio de três torres vai contar com bar, cinema a céu aberto, área de food truck e, claro, minimercado.

Autoatendimento e o ‘honest market’

Desenvolvedora de lojas de conveniência sob medida com sistema de autoatendimento 100% digital, a Onii viu a demanda triplicar durante a pandemia. “Outro dia uma blogueira postou comprando na Onii do condomínio dela e no dia seguinte recebemos mais de 500 e-mails pedindo lojas no Brasil inteiro”, comemora Ricardo Podval, sócio da startup.

Ele diz que as pessoas estão se adaptando bem ao sistema de autosserviço e honest market – ou mercado honesto, conceito baseado na relação de confiança em que o cliente escolhe o produto e paga por ele sem precisar de atendentes para intermediar ou monitorar a transação. “Também criamos um canal para entender as necessidades de cada condomínio.”

Morador do Ipiranga, em São Paulo, Douglas Calzzetta Filho conta com unidade Market4u em seu condomínio. Foto: Taba Benedicto/Estadão

O diálogo faz com que os moradores possam incluir itens específicos no mix da loja. Segundo o empresário, até 80% da base comum é formada pelas principais marcas de cervejas, refrigerantes, sucos, águas e itens de bombonière, entre outros. O restante é ajustado de acordo com a demanda. “Por exemplo, as lojas do Nordeste têm tapioca; já em São Paulo vendemos fondue no inverno.”

Há ainda abertura para itens de produção autônoma ou artesanal. “Até 20% do mix pode ser de orgânicos, pães artesanais, azeites, brigadeiros, sabonetes, velas e alguns artesanatos”, ressalta Podval. Para garantir segurança ao consumidor final, tudo passa por uma curadoria que avalia qualidade, validade e histórico do fornecedor.

Tecnologia e o minimercado 4.0

Tecnologia é a cervical que faz a ideia do autoatendimento funcionar. Presente há seis anos no universo corporativo, a Nutricar passou recentemente a atender também condomínios residenciais com seu modelo de minimercado 4.0. Ferramentas como biometria e reconhecimento facial garantem o controle de quem tem acesso à geladeira de bebidas alcoólicas, por exemplo. A possibilidade de escolher entre diferentes métodos de pagamento democratiza o serviço.

Com custo zero de implantação para o cliente – ponto que todos os players do segmento têm em comum -, o acordo prevê que 5% do faturamento mensal sejam revertidos ao condomínio. Desde junho, a empresa já instalou mais de 50 lojas nesse formato. A expectativa é chegar a pelo menos 120 unidades ainda neste ano só na capital paulista e, em 2021, expandir para o resto do País.

A estratégia para montar o mix inclui uma pesquisa inicial e posteriores adaptações de acordo com pedidos que surgem no dia a dia da operação. “O QR Code também permite a interação dos consumidores para sugestões de produtos, flexibilizando a entrada e a substituição de marcas sob demanda em um modelo nada engessado”, diz o sócio Bernardo Fernandes.

Presente em 20 cidades brasileiras e hoje com mais de 60 mil clientes ativos, a Market4u foi outra que cresceu em residenciais. Com apenas seis meses de vida, a startup já tem mais de 100 lojas instaladas e 200 licenças vendidas. Segundo o CEO Eduardo Córdova, além do mix de produtos ser constantemente atualizado pela inteligência artificial do aplicativo a partir das preferências de cada morador, o preço é um diferencial. “Toda a indústria tem nos procurado”, afirma. “Assim conseguimos excelentes negociações, levando preços competitivos comparados ao varejo tradicional.”

Café da manhã fresquinho dentro do prédio

Fazer supermercado por aplicativo já era hábito para o cientista da computação Douglas Calzzetta Filho, de 31 anos, que está em home office desde o início da pandemia. Com a instalação de uma unidade da Market4u no condomínio em que vive, localizado no Ipiranga, zona sul de São Paulo, ele diz que a história ficou mais fácil. “Volta e meia eu sentia falta de alguma coisa, como um chocolate, energético, sorvete ou uma cerveja gelada à noite.”

A novidade tem contribuído até para mudar a qualidade do café da manhã. “Como moro sozinho, o pão de forma que comprava no mercado de rua acaba vencendo”, diz. “Agora desço para pegar opções aqui mesmo e isso tem me ajudado a ter hábitos mais saudáveis.”

Quanto ao sistema de autoatendimento, ele fala que não teve dificuldades, mas que é possível pedir ajuda caso surjam dúvidas. “A loja é monitorada 24 horas, tem câmeras, microfone e autofalante”, conta. “Outro dia desci à noite para pegar uma bebida e, como demorei na frente da geladeira, ouvi uma voz de mulher perguntando se estava tudo bem, se eu precisava de ajuda. Até levei um susto”, diverte-se.

A oportunidade também atraiu a rede de supermercados Hirota, que passou a atender a pedidos por Whatsapp e telefone e fazer entrega em raios de até 1km de distância desde o início da quarentena, mas estava em busca de uma solução mais cômoda para os clientes.

O Hirota Express Em Casa, com duas unidades já implantadas e mais seis inaugurações previstas até o final de outubro, também é baseado no conceito de honest market. “Está na placa que colocamos na entrada: ‘esta loja é sua’”, diz o diretor Hélio Freddi. “A ideia é que o minimercado seja a despensa da pessoa no condomínio.”

Os minimercados da rede medem de 15 a 20 metros quadrados e comportam de 500 a 700 itens diferentes, incluindo produtos da linha de rotisseria Hirota Food. A faixa de preços é a mesma das lojas de rua. “A gente não quer virar uma solução de emergência, então os preços têm que ser atraentes”, afirma Freddi.

Os moradores também têm um canal direto pelo aplicativo. “Por exemplo, se a pessoa manda uma mensagem em um final de semana falando que não tinha carvão, certamente vai encontrar no próximo.”

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