Moradia por assinatura conquista ‘geração sem casa’

Moradia por assinatura conquista ‘geração sem casa’

Empreendimentos apostam em aluguel flexível e inclusão de facilidades, como lavanderia e coworking; segundo pesquisa, brasileiros estão trocando o sonho da casa própria pela praticidade de serviços

Bianca Zanatta

01 de novembro de 2020 | 05h00

Especial para o Estado

A ideia de financiar uma casa e permanecer no mesmo lugar a perder de vista já não é mais regra. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas (Ipespe), encomendado pelo Projeto Moradia, laboratório de ideias que reúne intelectuais brasileiros e estrangeiros para debater tendências da sociedade civil, apontou que 60% das pessoas consideram morar em diferentes tipos de imóveis de acordo com sua fase de vida. De acordo com o estudo, 63% dos entrevistados admitem morar de aluguel com contrato flexível em vez de comprar um imóvel, e 82% dos jovens que têm entre 16 e 24 anos não querem ter o compromisso de financiar a casa própria.

Intensificadas com a chegada da pandemia da covid-19, tendências como a moradia hassle-free (livre de aborrecimentos) conquistam adeptos de diferentes faixas etárias e poder aquisitivo. É o caso da Vila 11, que desenvolve, administra e opera residências para locação na capital paulista. O primeiro dos 13 empreendimentos próprios que a empresa deve lançar nos próximos anos ficou pronto em agosto. Localizado na Vila Madalena, o prédio já tem 21 unidades ocupadas, superando em 25% a expectativa a curto prazo.

Com contrato digitalizado e sem fiador, o modelo oferece limpeza semanal e manutenção 100% feita pela empresa, além de facilidades como lavanderia pay per use, coworking, pet place, piscina, espaço gourmet e academia. Outro diferencial está na portabilidade de contrato, que começa a valer em 2022: os moradores poderão se mudar entre os prédios da Vila 11, todos próximos a estações de metrô, com burocracia zero.

A ideia de um empreendimento com unidades residenciais 100% voltadas para locação surgiu como investimento estratégico, segundo o CEO Ricardo Lahan. “São Paulo é a cidade mais global do País e está tendo uma mudança no significado do imóvel como bem de raiz”, diz. Ele acredita que as pessoas estão transformando a relação com vínculos de longo prazo. “Nem tudo precisa ser tão definitivo, está todo mundo querendo viver melhor agora.”

Comprar imóvel não é objetivo para o casal Caio Pasqualucci e Karine Amâncio, que vivem atualmente na Vila 11. Foto: Taba Benedicto/Estadão

A inversão de pensamento é geral, diz ele, o que explica a diversidade no perfil de moradores. Casais com ou sem filhos, divorciados, pessoas com cachorro grande ou pequeno, moradores mais sênior, pessoas que vieram de outros Estados a trabalho e moradores com ou sem carro. “É um pedacinho da sociedade dentro de um prédio”, observa o empresário.

À procura de um lugar para morar juntos, o empresário Caio Pasqualucci e a jornalista Karine Amâncio viram vantagem na praticidade da solução completa e foram os primeiros a se mudar para o prédio. “Na primeira visita que fizemos, já disse que se não fosse para morar lá, não moraria em lugar nenhum”, conta Karine, que usa todos os serviços e facilidades oferecidos. “É mais aconchegante do que um loft, que tem aquela cara mais temporária”, completa Caio.

O casal acha que esse é o modelo de moradia que melhor atende ao seu momento de vida atual. “É tudo muito inconstante hoje em dia. Por enquanto não queremos pensar em um imóvel próprio.”

Fundador da incorporadora e construtora Vitacon, o engenheiro civil Alexandre Frankel sempre apostou no conceito de apartamentos compactos com fácil acesso a serviços e mobilidade. Na evolução da ideia, lançou a Housi, plataforma de moradia por assinatura com foco na desburocratização da locação residencial.

“A Housi surgiu da percepção de que, para ter essa qualidade, as pessoas não precisam comprar a moradia e ficar imobilizadas e endividadas durante 30 anos”, diz o empresário. “A ideia é poder ter acesso a uma casa que acompanhe cada momento da vida, com a liberdade de morar onde e por quanto tempo quiser.”

Hoje, com aproximadamente 12 mil unidades em mais de 40 prédios espalhados por 14 cidades do País, a Housi tem todos os perfis de moradores, do estudante de 17 anos ao aposentado de 80 anos. A taxa de ocupação é de 85%. “A gente chama de ‘geração sem casa’, pessoas que querem viver com mais liberdade, tempo e em um lugar que esteja conectado com a fase em que ela está”, conta. “É uma revolução na forma como consumimos a moradia.”

Alexandre Frankel criou a Housi, plataforma de moradia por assinatura com foco na desburocratização da locação residencial. Foto: Omar Paixão

Os apartamentos são de tamanhos variados, indo de estúdios de 10 m² a unidades para famílias de até 5 pessoas, todos equipados e prontos para morar. A empresa cuida da manutenção, limpeza e até troca de lençóis e toalhas, se o morador quiser, além de oferecer serviços agregados como telemedicina, personal trainer e modais de transporte. “O custo total é menor porque contratamos tudo em larga escala”, explica Frankel.

Casa própria e nomadismo digital

Ph.D em economia pela Universidade da Califórnia e professor da Fundação Getúlio Vargas, Gesner Oliveira explica que a concepção da moradia como serviço foi intensificada pela pandemia. Segundo ele, diversos fatores contribuem para a mudança de comportamento, da queda da taxa de juros à adesão ao teletrabalho, que se manteve estável mesmo após a reabertura da economia. “Isso leva a pessoa a querer mais equipamentos em casa e é mais fácil viver em um local que oferece tudo do que ter o seu”, diz.

Economicamente, morar com serviços também representa uma redução de custos. O raciocínio é parecido com o que vem transformando o mercado de automóveis. Se antes ter um carro era símbolo de status social, a economia que o uso de aplicativos de transporte individual representa já mudou essa visão. Em um cenário como o do Brasil, onde uma família gasta em média 36,6% da renda mensal com habitação, segundo dados do IBGE, a noção tradicional de moradia enquanto patrimônio também começa a perder sentido. “Aqui e em outros países emergentes o custo de uma transação imobiliária é muito grande, fora toda a burocracia associada”, afirma o economista. “O que torna a multifamily property atraente é a facilidade, além da mobilidade e flexibilidade do modelo.”

As diferentes necessidades de cada etapa da vida de fato pesam na equação. De acordo com Oliveira, uma pessoa que financia um imóvel aos 30 anos terá outras demandas quando chegar aos 60 anos. “Com a inversão da lógica na busca de serviços, que substitui o ‘ter’ pelo ‘usar’, assim como deixamos de comprar DVDs e passamos a usar os serviços de streaming para ver filmes e trocamos o carro na garagem pelos aplicativos, a tendência é termos um olhar cada vez mais prático para o morar”, acredita Oliveira. “Estamos deixando de ver a casa como ativo financeiro e entrando na era da Netflix da moradia.”

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