Móveis robotizados e aplicativos empurram setor imobiliário para o futuro

Móveis robotizados e aplicativos empurram setor imobiliário para o futuro

A tecnologia aplicada ao mobiliário, aos elevadores e às áreas sociais deverá permanecer e alterar o ramo dos imóveis residenciais pós-pandemia; confira exemplos do que veio para ficar

Stefanos Chen, The New York Times

22 de novembro de 2020 | 05h01

O coronavírus pode ser a crise que finalmente impulsionará o setor imobiliário avesso à tecnologia para o século 21. Agora que todo mundo está em casa, o tamanho é mais importante. E a melhor maneira de justificar os preços exorbitantes não é mais o conforto oferecido pela área de lazer; é a paz de espírito ao andar da porta de entrada até a sala de estar.

Estes são os pontos fundamentais para uma série de novas ou mais valiosas tecnologias que surgem no mercado da habitação pós-covid-19, desde os apartamentos cujo aluguel é regulado pelo governo aos condomínios de luxo. Elas variam desde móveis robóticos, que se reinventam no interior das nossas paredes que vão encolhendo, aos incontáveis aplicativos destinados a aproximar os vizinhos. Alguns serão talvez tendências passageiras.

Mas as que pegarem poderão ter implicações a longo prazo para um setor teimosamente analógico. E ainda não se sabe ao certo se estes avanços chegarão ao mercado da habitação mais terra-terra ou continuarão um nicho de luxo. Confira produtos e ideias que poderão permanecer depois que a pandemia se esgotar.

Móveis robóticos

Transformar o mobiliário não é uma ideia nova. Basta pensar na cama Murphy dobrável, patenteada há mais de um século. Mas os que tiverem de trabalhar em casa apertando-se em apartamentos-estúdio a preços absurdos poderão aplaudir uma modificação que não apenas economiza espaço como dobra como um belo fundo da Zoom.

A Ori, abreviação de “origami”, fabricante de mobiliário robótico fundada em 2015, lançou recentemente o escritório de bolso: uma mesa alongável de quase 2,13 metros de altura que graças a um toque no aplicativo vira um gabinete de 0,76 metro em uma mesa de trabalho de tamanho normal com prateleiras para guardar coisas e estantes para livros. Quando fechada, é uma TV com prateleiras e de estética escandinava: quando ela abre, com a ajuda de um sistema de trilho, se divide ao meio, criando um canto para escritório com mesa retrátil em uma parede e um console fixo do outro.

“As pessoas esperam mais do próprio espaço”, diz Hasier Larrea, fundador e diretor executivo da companhia, em um vídeo do seu apartamento de um quarto em Nova York. “Mas o metro quadrado é a coisa mais cara aqui”.

Isto sempre foi próprio das grandes cidades. Mas a política do home office e a perspectiva incerta de uma viagem diária segura para o trabalho, mesmo anos depois que o vírus retroceder, mostrou-se uma solução para a companhia, disse Larrea, segundo quem as encomendas quadruplicaram em relação ao ano passado.

Antes: sala de estar sem o escritório, para aproveitar a TV. Foto: Stefano Ukmar/The New York Times

 

Depois: a parede da TV se move e revela o escritório de “bolso”, da Ori. Foto: Stefano Ukmar/The New York Times

A Bumblebee Spaces, uma companhia sediada em São Francisco, cria camas e móveis modulados que podem ser suspensos no teto com tiras seguras a fim de maximizar o espaço no solo, também viu um aumento do interesse, afirmou Sankarshan Murthy, diretor executivo e cofundador. Os produtos também são dotados de um software que têm a lista dos itens armazenados. “O que mudou é o fato de que as pessoas passarem mais tempo em casa”, diz Murthy, e elas “se dão conta de que a arquitetura tradicional está falida”.

A maior parte das companhias não vende diretamente aos consumidores, mas a gestores de imóveis que procuram maximizar o uso e o apelo dos estúdios, unidades de um dormitório e às vezes maiores, negociando com o proprietário de um imóvel, a unidade. A Bumblebee Spaces vende sua cama flutuante com algumas unidades para armazenamento por cerca de US$ 10 mil a US$ 40 mil, dependendo da instalação e dos produtos escolhidos.

Isto poderá mudar à medida que as companhias intensificarem seus esforços para vender diretamente aos moradores.

Este pode ser um compromisso muito pesado: a “cama nuvem” king-size da Ori, uma estrutura de cama mecânica que pode ser levantada no ar como um dossel, revela um sofá ou uma mesa embutidos, ocupa cerca de 7,24 metros quadrados, pesa cerca de 550 quilogramas e precisa de um teto de aproximadamente 2,60 metros de altura. O preço no varejo não foi fixado, mas para compradores de condomínios, pode variar de US$ 10 mil a US$ 20 mil.

Edifícios mais saudáveis

As mudanças mais importantes nos edifícios de apartamentos provavelmente serão as menos apreciadas: sistemas de higienização de superfícies, para dispersar vírus e abrandam os temores dos residentes. Há uma pressão no setor para purificar o ar e melhorar a circulação do ar nas áreas comuns, elevadores e saguões.

O objetivo é elevar o padrão de ventilação para MERV-13, uma classificação de filtragem de ar considerada eficiente, mas não perfeita, para a captura de vírus que se espalham pelo ar. Em comparação, um condicionador de ar de janela comum tem uma classificação de MERV- 8 ou menor, enquanto os hospitais usam filtros acima de MERV-16. Em todos os casos, a maioria dos especialistas concorda que não há um substituto para o distanciamento social e as máscaras faciais.

Mas a maioria do estoque de habitações das grandes cidades é muito velha para suportar um padrão de filtragem maior porque os filtros mais espessos exigem um fluxo de ar maior, e somente os edifícios concluídos nos últimos 20 anos podem adotar facilmente o upgrade. Agora, muitos edifícios estão fazendo mudanças em outros lugares, principalmente nos espaços exíguos dos elevadores.

A ThyssenKrupp Elevator, uma das maiores fabricantes de elevadores do mundo, começou a instalar sistemas de ar que trazem para dentro o ar purificado do poço do elevador. Em outro, o ar é tratado com raios de luz ultravioleta (os passageiros não são expostos) e peróxido de hidrogênio que neutraliza bactérias, mofo e vírus. Um modelo introduz partículas ionizadas na cabine para desinfetar o ar.

Cama suspensa, que maximiza o espaço no solo. Foto: Stefano Ukmar/The New York Times

A companhia criou um aplicativo de smartphone que permite que os usuários chamem um elevador sem pressionar o botão de chamada, e também vende uma alternativa de baixa tecnologia: “toe to go”, um pedal em lugar de botões na base do elevador.

“Estas inovações não eram esperadas tão cedo”, disse Jon Clarine, diretor de serviços digitais da companhia, observando que a covid acelerou o lançamento de vários produtos.

Mas a velocidade à qual algumas destas tecnologias foram lançadas exige uma análise mais cuidadosa, segundo William P. Bahnfleth, professor de engenharia arquitetônica da Penn State e presidente da força tarefa contra a epidemia da American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers.

“Para mim, soa mais como marketing do que ciência”, afirmou falando de algumas declarações a respeito da ionização e de outros produtos. “A questão é: Qual é o risco, e o que fazer para reduzi-lo?”

Nos espaços comuns e de lazer, vários síndicos informam que adotaram aplicativos para administrar os espaços. Uma beneficiária provável é a tecnologia sem contato que usa porta-chaves ou smartphones para destravar portas.

No terceiro trimestre, as vendas da americana Latch, companhia que opera portas sem contato, tiveram um aumento de 50% em relação ao mesmo período do ano passado, afirma o fundador Luke Schoenfelder.

Uma nova parceria com a Nest thermostat do Google também permitirá que os moradores ou síndicos mudem remotamente a temperatura do ar ou destravem as portas com o mesmo aplicativo. / Tradução de Anna Capovilla

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