Nem sempre o problema mora ao lado

Nem sempre o problema mora ao lado

Claudio Marques

16 de novembro de 2013 | 15h16

Quem acha que morar na Vila Madalena, bairro boêmio paulistano com mais de 100 bares e restaurantes instalados em seu território, é sinônimo de transtorno, e que residir em frente a um hospital significa paz e tranquilidade, pode estar enganado.

A diretora da Pacheco Imóveis, Sueli Pacheco, acredita que o importante para quem busca residir nesses lugares é a praticidade. “As pessoas querem comodidade. Morar perto de onde estão suas atividades diárias é o que importa”, afirma.

O conforto de estar próximo a supermercados, comércio e metrô é um dos motivos que mantêm o consultor de marketing multimídia Luís Flávio Toscano, de 35 anos, residindo na Vila Madalena.

Mesmo tendo uma vizinhança que parece nunca dormir. “Sempre morei aqui, vi o bairro crescer e ganhar essa dinâmica”, diz. Toscano afirma que o barulho do agito não o incomoda. “Moro em um sobrado, não tenho janela antirruído, nem acústica, e eu não acordo com o barulho”, assegura

Além de gostar da vida cultural que pulsa no bairro, ele acredita que o fato de haver movimento nas ruas durante a noite dá mais segurança aos moradores. “Há, ainda, a valorização do metro quadrado, que está em torno de R$ 14 mil. É mais um dos motivos que me fazem adorar a vizinhança.”

Toscano. No agitado bairro da Vila Madalena (Imagem: JF DIORIO/ESTADÃO)

Nem todo mundo, porém, se dá tão bem com o agito quanto Toscano. Também morador da Vila, o desenhista e ilustrador Haroldo Gepp, de 59 anos, apesar de gostar da facilidade de ter comércio e serviços por perto, reclama do que considera falta de educação dos frequentadores e de comerciantes durante as noites e madrugadas. “Nos finais de semana, existe muita gritaria e música alta nos carros.”

Gepp mora com a mulher, Valquíria, em frente a um restaurante. E na esquina próxima a sua casa existem quatro bares. Ele admite que até já pensou em ir para o interior, mas resiste à deixar a praticidade da região. “Durante o dia é mais tranquilo”, alega Gepp.

Sirenes

Moradora de uma casa no bairro de Pinheiros há 39 anos, a assistente financeira Vilma Ribeiro, de 43 anos, tem uma vizinhança bem animada. “A região sempre foi um centro de comércio, por causa da Rua Teodoro Sampaio, mas com a abertura de bares nas redondezas e a chegada dos edifícios o sossego foi embora”, diz.

Ela, porém, afirma que sua falta de sossego vem de um vizinho que se instalou em frente a sua casa há 14 anos: um hospital. “São ambulâncias, caminhões para retirada do lixo hospitalar, carro funerário. Um movimento que ocorre normalmente à noite.”

Enquanto a reportagem entrevistava Vilma, por volta das 22h, era possível ouvir ruídos de um caminhão. “Está escutando? É o caminhão que retira o lixo. Hoje, veio cedo, mas tem dias que ele vem durante a madrugada”, afirma.
Mais recentemente, há quatro anos, ela ganhou um novo vizinho “não tão indesejado assim”: uma faculdade. “Não atrapalha muito, somente na hora de saída, por volta das 22h30. Mas como são cursos de pós-graduação não há muita algazarra”, conta.

Vilma. Hospital acabou com o sossego (Imagem: JF DIORIO/ESTADÃO)

Ela já pensa em se mudar de Pinheiros. “É bom ter a praticidade e toda a estrutura, mas não suporto mais esses vizinhos. Não pretendo mudar para tão longe, algum lugar que tenha infraestrutura, mas com uma vizinhança mais amigável”, espera.

Investimento

De acordo com o gerente comercial da Porte Construtora, as regiões movimentadas da cidade são bastante valorizadas, Um exemplo, segundo ele, são empreendimentos erguidos próximos a shoppings centers.

A construtora, por exemplo, lançou há nove meses um empreendimento ao lado Shopping Anália Franco, na zona leste. E garante que já tem 80% das unidades comercializadas. “Muitos compram para investir devido às facilidades e a localização”, afirma.

Preço atrai morador para rua ao lado do Ceagesp

Dificilmente um vizinho de 700 mil metros quadrados passará despercebido. Principalmente se for a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, a famosa Ceagesp. Ainda assim, o chef de cozinha Elzio Callefi Junior, de 33 anos, não deu atenção ao vizinho responsável pelo abastecimento de frutas, verduras e legumes, entre outros, quando foi adquirir o imóvel.

“Comprei o apartamento na planta há dois anos. Eu o escolhi porque a Vila Leopoldina está crescendo e era uma oportunidade única, porque o preço do metro quadrado estava atrativo”, conta ele. Agora, já vivendo com a mulher no 6º andar de um prédio que fica a 400 metros do entreposto ele diz: “O barulho de caminhão é constante. Durante a madrugada eles buzinam muito para entrar no Ceagesp e eu ouço tudo daqui”. Ele conta que precisou colocar janelas antirruído no quarto para amenizar o barulho. E, mesmo assim, diz que ainda convive com muita balbúrdia.

Segundo o chef de cozinha, um outro vizinho, que está a cerca de quatro quilômetros do seu condomínio – o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros – também causa aborrecimentos. Na avenida em mora, além de ser corredor de ônibus e caminhões, também transitam os carros oficiais da polícia que transportam presos. “Convivemos constantemente com sirenes.”

Callefi. Barulho o incomoda  (Imagem: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO)

Apesar do descontentamento, ele diz que como investimento valeu a pena, mas confessa que pretende se mudar em no máximo três anos. “O incômodo é muito maior de segunda à sexta-feira, em consequência do trânsito. Mas quem tem o Ceagesp como vizinho, tem barulho de segunda à segunda.”

Visitas

Consultor imobiliário da Areal Pires Advogados Associados, Alex Strotbek aconselha a visitar o imóvel em dias e horários diferentes antes de efetivar uma compra ou um contrato de aluguel. “O potencial comprador deve conhecer a vizinhança, inclusive fazendo visitas de madrugada”, orienta.

Segundo o diretor de imóveis prontos da Fernandez Mera, Ricardo Carazzai, regiões que têm comércio, hospitais e escolas são polos atrativos. “As pessoas buscam facilidades. Dependendo do perfil do morador, um comércio atrai mais”, diz.

Carazzai diz, em geral, comércio, escolas e hospitais não são impeditivos para alugar ou vender um imóvel. Ele afirma que, por exemplo, imóveis perto de clubes e da faculdade Mackenzie a vacância é zero. “Essa é uma vizinhança que atrai um público específico que valoriza toda a infraestrutura da região.”

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