Neuroarquitetura usa ciência para criar projetos que impactam emoções
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Neuroarquitetura usa ciência para criar projetos que impactam emoções

Em artigo, arquiteta e urbanista explica como esse ramo da arquitetura pode levar a edifícios que impactam inconsciente, estreitando relação dos usuários com a moradia

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07 Fevereiro 2019 | 15h59

Por Andrea de Paiva *

Imagine como seria o mundo se fosse possível construir edifícios ainda mais eficientes dos que os que já construímos? Como escolas que estimulassem ainda mais o aprendizado, hospitais que impulsionassem a recuperação dos pacientes e diminuíssem sua dor, ambientes de trabalho que aflorassem a criatividade e a colaboração, condomínios residenciais que estimulassem o bem-estar e o bom relacionamento entre vizinhos. Com os conhecimentos de ponta que vêm surgindo na neuroarquitetura, estamos mais próximos de atingir esse objetivo.

Mas o que é a neuroarquitetura? Ela é a junção da neurociência, ciência que estuda o cérebro, com a arquitetura. Cientistas e arquitetos juntam forças para entender melhor a relação cérebro-espaço, buscando compreender como os ambientes que ocupamos impactam nossas emoções, nosso bem-estar, nosso comportamento e os processos de tomada de decisão. Com a ressonância magnética e o eletroencefalograma, por exemplo, hoje podemos analisar que gatilhos ativam as mais diversas partes do cérebro. E alguns desses gatilhos são elementos da arquitetura.

FOTO: Universidade da Califórnia/Reuters

Ou seja, a ciência comprova que há uma relação direta entre ambiente construído e comportamento. Isso quer dizer que cada escolha que fazemos num novo projeto pode ter um impacto direto nos usuários daquele edifício. Layout, cor, textura, proporção, formato, luz, som, temperatura, cheiros, todos esses elementos estão nos influenciando o tempo todo. E o mais importante: nem sempre percebemos isso de forma consciente.

Hoje sabemos que nossa consciência é extremamente lenta e que, muitas vezes o cérebro tem que nos fazer agir antes de termos tempo de pensar sobre o assunto. Por exemplo quando tropeçamos e conseguimos nos reequilibrar sem cair. Todas as reações necessárias para recuperar o equilíbrio acontecem muito rapidamente, de forma automática. Isso mostra como nosso instinto é mais veloz e como ele tem o poder de tomar o controle da situação antes mesmo da gente se dar conta.

“Edifícios serão projetados não apenas levando em consideração a estética e a funcionalidade, mas focando nos impactos gerados no nosso inconsciente”

Mas o que tudo isso tem a ver com a concepção de empreendimentos? O melhor entendimento do cérebro, principalmente dos pensamentos que estão abaixo do nível da consciência, pode ajudar os empreendedores a conceberem edifícios que impactem seus usuários de forma ainda mais profunda e positiva. A compreensão do instinto de sobrevivência, das emoções, da plasticidade cerebral, entre outros, vai fazer com que a arquitetura seja uma ferramenta de transformação de comportamentos ainda mais eficiente do que já é.

Edifícios serão projetados não apenas levando em consideração a estética e a funcionalidade, mas focando nos impactos gerados no nosso inconsciente. Dessa forma, a relação dos usuários com os edifícios vai ficar ainda mais afetiva, o sucesso da ocupação dos edifícios vai ser muito mais duradouro e a fidelização dos clientes com as empresas que constroem edifícios mais humanos vai aumentar ainda mais.

* Andrea de Paiva (andrea.paiva@fgv.br) é arquiteta e urbanista pela FAU-USP, mestre em Arquitetura pela Middlesex University em Londres e professora da FGV e da UniSecovi.