O destino certo para resíduos recicláveis

O destino certo para resíduos recicláveis

Claudio Marques

08 de fevereiro de 2014 | 15h42

 

Dados da Prefeitura apontam que a cidade recolhe 10 mil toneladas de lixo domiciliar por dia. Boa parte desse montante pode ser considerado reaproveitável. No entanto, o sistema de coleta seletiva ainda não é realidade em grande parte dos condomínios, embora existam casos de quem conseguiu implantar o processo sem apoio.

É o caso da síndica de um condomínio na zona sul da cidade, Rainilde Soares Barros, de 58 anos. Há cerca de oito anos, ela decidiu adotar em seu prédio esse tipo de recolhimento de resíduos. Sozinha buscou ajuda para entender como deveria agir.

Rainilde. Dinheiro obtido vai para a compra de brinquedos FOTO: Hélvio Romero/Estadão

“Procurei conhecer mais sobre o assunto na internet e depois passei circular para os moradores esclarecendo o processo”, diz. O alumínio e o papelão recolhidos eram vendidos e a verba revertida em obras e compras para a brinquedoteca do prédio. Ela procurou uma organização não governamental (ONG) para recolher os resíduos mas, desde 2010, utiliza somente a coleta feita pela Prefeitura uma vez por semana.

Rainilde esclarece que atualmente a venda de latinhas e papelão não rende muito, entre R$ 80 e R$ 100 por mês. “Metade desse valor vai para os funcionários que ajudam na separação do material”, diz.

De acordo com a síndica, a adesão é de 90%. “Tive a ajuda da administradora para realizar a tarefa mais trabalhosa, a conscientização dos moradores. Mas depois que definimos o projeto, levamos para assembleia e conseguimos que fosse aprovado.” Ela conta que o edifício também faz reciclagem de óleo – que é enviado para uma outa ONG.

“O trabalho é bastante aceito. Temos uma moradora que divide a residência entre Brasil e México e levou para lá nossos cartazes de incentivo para mostrar como fazemos aqui. Eles enxergam a benfeitoria.”

Atitude. O diretor de sustentabilidade condominial do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Geraldo Bernardes, defende a necessidade de educar os moradores e funcionários a fim de destinar todo resíduo reciclável para a coleta seletiva.
Para ajudar nesse trabalho, a entidade fez uma cartilha e um folder com orientações para moradores e síndicos que quiserem introduzir esse tipo de recolhimento em seus prédios.

Bernardes, no entanto, alerta: “O grande problema é que os prédios permitem que os funcionários peguem o alumínio e jornal e o que fica para os coletores e cooperativas é o material menos valioso”. Isso, explica ele, leva cooperativas a perder o interesse nesses edifícios.

Incomodado com a quantidade de resíduo reciclável coletado junto com o lixo comum em seu condomínio, Cássio Cavalcanti, de 34 anos, engenheiro civil e síndico do conjunto na zona oeste, decidiu implantar a coleta seletiva em julho de 2013.

Zona Oeste. Prédio tem gasto mensal de R$ 600. FOTO: Robson Fernandjes/Estadão

“Quando assumi a gestão, em novembro de 2012, já estava decidido a resolver a questão do lixo. Foi uma luta. Tive bastante dificuldade no começo”, conta. A primeira tentativa de Cavalcanti foi uma coleta sem custos, com a Prefeitura, mas ao descobrir que era feita apenas uma vez por semana, viu que era inviável. Procurou, então, as empresas homologadas pela administração municipal, mas descobriu que elas não realizam esse tipo de trabalho em condomínios residenciais. A saída foi contratar empresas privadas.

“Encontrei um instituto que tem o conceito e a prática que eu procurava. Coletei todas as informações, marquei reuniões e com todo o projeto em mãos levei para ser discutido em assembleia”, diz.

Contratação. Cavalcanti conta que foi trabalhoso fazer os moradores entenderem que uma “coleta decente” é difícil e tem custo. Mas conseguiu aprovação da medida em assembleia e partiu para a implementação. O custo é de R$ 600 por mês para que o recolhimento seja feito duas vezes por semana.

Segundo Cavalcanti, apesar do interesse, condôminos não querem gastar com esse tipo de ação. “Eles pagam luz, segurança, mas acham que o lixo é responsabilidade da Prefeitura”, alega o síndico. O serviço contratado no condomínio de Cavalcanti incluiu treinamento para funcionários e moradores e entrega de contêineres para a armazenagem dos resíduos.

Para completar, o síndico também recorreu à coleta feita pela Prefeitura uma vez por semana, somando três recolhimentos semanais. “O processo não é fácil, mas é um caminho sem volta, não vivemos mais sem coleta seletiva.”

“Tentei Prefeitura, ONGs, catadores e empresas”

Margareth Perdomo de Castro Paulo, de 38 anos, é síndica de um condomínio de 296 unidades na zona oeste da cidade e desde 2007 – quando ainda era integrante do conselho consultivo –, trava uma batalha para conseguir implantar a coleta seletiva no conjunto.

“Já tentei com a Prefeitura, com ONGs, catadores s e empresas particulares”, diz. As dificuldades, segundo ela, vão desde a adesão, de fazer com que os moradores entendam a dinâmica e a necessidade da reciclagem até a encontrar quem colete os resíduos.

Margareth conta que levou o assunto várias vezes para ser discutido em assembleia o e tentar uma solução. “Os moradores reclamam de precisar pagar para ser feita a coleta e alguns reclamam até de ter o contêiner perto do seu carro – eles se consideram desprestigiados.”

Depois de muitas tentativas, e de ficar quase um mês sem coleta, precisando recolher os resíduos, colocar em sacos e entregar para a coleta de lixo da Prefeitura, Margareth decidiu novamente por uma empresa.

Há um mês ela contratou os serviços de uma companhia pelo valor de R$ 350 para coletas cinco vezes por semana. “Passei comunicado para os moradores e estou usando dinheiro do fundo de reserva, mas sei que na assembleia teremos muita discussão na hora de falar sobre o assunto”, acredita a síndica.

Cidade oferece opções para efetuar o descarte

Os interessados em implantar a coleta seletiva podem optar pelos institutos privados – que atendem de acordo com a necessidade do imóvel – ou a Prefeitura de São Paulo, que efetua a coleta uma vez por semana, por meio de duas concessionárias, Ecourbis e Loga. Essas empresas atuam em partes das zonas oeste, leste e sul, totalizando 45% do atendimento.

Segundo o coordenador de programa de coleta seletiva do município, Paulo Gonçalves, o primeiro passo para quem deseja ser atendido é consultar o site da Prefeitura para saber se a região é abrangida pelo programa e depois contatar o 156, o serviço de atendimento da cidade.

“A concessionária vai agendar uma vistoria no local, avaliar a instalação de contêineres, dar um breve treinamento e informar o dia e hora da coleta”, explica. De acordo com ele, a procura tem crescido e ainda há espaço para atendimento.

Em 2013, a Prefeitura recolheu 66 mil toneladas de lixo reciclável, mais de 5,3 mil toneladas por mês. O destino são as 23 cooperativas conveniadas. “A intenção é que até 2016 a Prefeitura retire cerca de 1,3 mil toneladas de resíduos domiciliares recicláveis por dia.”

Gonçalves revela que cerca de 35% do lixo domiciliar gerado é reciclável. “Com aumento efetivo da população poderemos fazer com que essa porcentagem não vá para os aterros sanitários”, completa.

Dúvida. Alexandre Furlan Braz é sócio-fundador e diretor administrativo do Instituto Muda – responsável pela coleta no edifício do síndico Cassio. Ele conta que a entidade elabora um projeto pensando nas necessidades do condomínio e trabalha como fazer a coleta seletiva.

 Instituto Muda. Treinamento de funcionários FOTO: Divulgação/Instituto Muda

“Todos sabem por que a coleta deve ser feita, os ganhos, os benefícios. A dúvida é como fazer, por onde começar, e é aí que atuamos”, esclarece.

De acordo com Braz, o condomínio precisa saber o que é ou não reciclado, se deve e como limpar os materiais e como chamar e incentivar os moradores. O instituto também orienta em relação ao local adequado para depositar os contêineres, e proporciona um treinamento – com duração de cinco meses.

“O treinamento inclui comunicado visual, preparação dos funcionários do prédio, das empregadas dos apartamentos e dos moradores”, conta.

Os resíduos são doados para cooperativas da Prefeitura. O custo mínimo do trabalho realizado pelo instituto é de R$ 450,00, “varia de acordo com o volume”, diz Braz. Atualmente a empresa atende 85 edifícios no centro expandido da cidade e destina 30 toneladas de resíduos por mês às cooperativas.

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