O imóvel do desejo por quem entende

Jennifer Gonzales

24 de dezembro de 2010 | 18h05

O arquiteto suíço Le Corbusier (1887-1965) disse, certa vez, que a função de uma residência é servir como abrigo contra o calor, frio, chuva, ladrões e curiosos; como receptáculo para a luz e o sol, e para prover um certo número de ambientes apropriados para cozinhar, trabalhar e a vida pessoal.
Arquitetos, engenheiros e incorporadores são responsáveis pela criação de residências que formam, no seu conjunto, ao lado de edifícios comerciais e outros tipos de construções, as cidades no mundo.  Mas são os vendedores de imóveis, ou corretores, como são mais conhecidos, os verdadeiros peritos em moradias.
Na cidade de São Paulo, o maior mercado imobiliário do País, esses profissionais visitam centenas de residências ao longo de suas carreiras, percorrendo visualmente (e muitas vezes com o sentido do tato) cada detalhe arquitetônico, abertura, fenda e divisão dessas moradas, para apresentá-los a interessados.
Alguns profissionais simplesmente apreciam esse rigor.  Foi por isso que, aproveitando a semana do Natal, o
Estado pediu para quatro corretores – Naommy Takahace, Laury Baratella, Thiago Bazidian Riborbin e Dagmar Andrade – para contar como seria o imóvel dos seus sonhos se Papai Noel lhes atendesse o desejo da residência ideal.
Cada um deles tem um perfil diferente e, portanto, cada um dos quatro imóveis possuem distribuição distinta, com recursos diferenciados.  Em alguns pontos, no entanto, os gostos se assemelham, como, por exemplo, no visual moderno dos ambientes.
Se Laury gostaria de ter uma cozinha do tipo americana, aberta para a área social, Dagmar, por outro lado, adoraria uma cozinha do tipo fazenda, “embora o resto da casa teria uma aparência clean”. É interessante notar como as tendências que despontam no mercado imobiliário influenciam o gosto desses profissionais, que acompanham de perto os lançamentos de empreendimentos.  Na hora de imaginar o imóvel perfeito, esses elementos acabam entrando no cenário. Exemplo é o pé direito duplo – às vezes triplo – que vários corretores apontaram como ideal e figuram em muitos apartamentos do tipo loft, construídos atualmente.  O corretor Thiago, da Lopes Imóveis, teria, na sua cobertura dúplex, um pé direito de 7,5 metros.  Já a vendedora Laury adoraria possuir um dúplex com 5,5 metros de altura.
Cozinha gourmet é outro item que entra no sonho de consumo dos profissionais.  Seja localizado no andar superior do dúplex, onde também ficaria a piscina e a churrasqueira, como no imóvel de Naommy, ou em forma de uma cozinha industrial, com móveis e eletrodomésticos de aço escovado, como gostaria Thiago (“a geladeira dos meus sonhos custa R$ 60 mil”, diz), esse ambiente tornou-se definitivamente um local quase glamouroso, onde família e amigos podem passar bons momentos juntos à mesa.
Piscina e vista ampla para o raro verde existente na cidade são dois itens básicos no imaginário dos corretores.  Seja para a garotada se divertir, seja para refrescar-se depois de um banho de sol, o primeiro elemento não perde seu encanto.  Já a vista para o Parque do Ibirapuera é outra imagem sonhada pelos corretores.  Se pudessem, alguns deles morariam em frente à imensa mancha verde e sentiriam o cheiro das árvores todos os dias.
Mas há quem possua, mais do que um sonho de imóvel, nostalgia por um mundo que, ao que tudo indica, será cada vez mais raro.  “Minha casa ideal não teria muros altos ou cercas, mas um belo jardim aberto na frente”, diz a corretora Dagmar.  “Ela seria integrada à rua, não ficaria em um condomínio horizontal fechado, cheio de regras para sair e para entrar. “
Confira a seguir o imóvel dos sonhos de cada corretor.
Naommy Takahace
Century 21 Premiere
Acostumada a trabalhar com imóveis de alto padrão, a corretora de 46 anos traduz, com riqueza de detalhes, o traçado do seu imóvel ideal.  “Seria uma cobertura dúplex de 500 metros quadrados, com quatro suítes grandes, um living com varanda equipada com churrasqueira e uma piscina com solarium.  “Incluí o solarium porque existem piscinas nas quais não se consegue tomar sol, pois não possuem deck, apenas a raia”, conta.  “A piscina não precisava ser enorme, seria apenas para tomar sol e um rápido banho. ” O living seria completamente aberto, do tipo loft, sem colunas e com um pé direito de 3,20 metros.  “Esse ambiente seria dividido
apenas pelos móveis. “A paulistana que vive com o marido e a filha em um apartamento de 100 metros quadrados e três dormitórios, sendo um deles transformado em closet, também teria um sistema de aspiração central que dispensaria o uso de um aspirador.  Terraço, só na área social.  “Os dormitórios não precisariam ter sacadas.  Não gosto de excessos”, afirma.  Um imóvel com essas características valeria cerca de R$ 8 milhões, estima.  “E com um bom paisagista, teria um jardim lindo.”
Laury Baratella
Baroni Negócios Imobiliários
O imóvel dos sonhos existe e está à venda pela própria corretora.  “Quando vi o apartamento me apaixonei e já me imaginei vivendo nele.  Gostaria muito que fosse meu”, revela.  O imóvel tem perfil de loft: pé direito de 5,5 metros e 151 metros quadrados de área útil, cozinha americana, closets imensos e vista para o Parque do Ibirapuera (ele fica no sétimo andar) são outras características do local.
“O entorno do edifício é bastante agradável, com academia e vários restaurantes”, conta ela.  “O condomínio também tem boa infraestrutura de lazer, com sauna e piscina. ” O único inconveniente, porém, é que Laury para pouco em casa.  “Saio de manhã e só volto por volta das 20 horas.  Quando tenho tempo livre, gosto de ficar no meu canto e receber os amigos”, diz. Ela conta que também curte fazer reformas no seu dúplex de 45 metros quadrados.  “Copio ideias que vejo nos imóveis que visito”, diz.  “Como o pé direito tem 5,5 metros, ampliei o mezanino onde fica o quarto.  “E se morasse nesse apartamento que é três vezes maior, receberia meus amigos com muito mais frequência.”
Thiago Riborbin
Lopes Imobiliária
Se é para sonhar, nada melhor do que voar alto.  Esse parece ser o lema do corretor de 31 anos, que teria uma cobertura com pé direito triplo (7,5 metros) no living, a fim de desfrutar de completa sensação de liberdade.  “O resto do apartamento poderia ter apenas 2,7 metros de altura, mas a área social seria imponente”, diz. Uma vista 360º para o Parque do Ibirapuera é fundamental para Thiago.  “Considerando que estamos em São Paulo, seria perfeito ter uma vista verde e sentir o cheirinho da natureza”, opina.  Quatro dormitórios seriam necessários para os três filhos do corretor, mais uma generosa área de lazer.  “Teria uma piscina semi-olímpica com borda infinita.  Ela dá a impressão de que a água está caindo para fora do edifício”, explica Thiago.Lareiras nos quartos e na sala são outro item indispensável para ter uma casa acolhedora, segundo o profissional.  “Assim, aproveitam-se bem tanto os verões quanto os invernos. ” Terraço com cozinha gourmet, mais forno para pizza e churrasqueira faria a alegria da criançada.  “Para mim, queria uma sala de banho de 100 metros quadrados.  Seria o meu spa particular.”
Dagmar Andrade
D&Andrade
O imóvel idealizado pela corretora de 60 anos é um produto em extinção nas grandes cidades.  “Gostaria de uma casa sem cercas ou muros altos, que fosse seguro, mas que não ficasse em um condomínio fechado”, diz.  “Nos condomínios atuais, os visitantes precisam se cadastrar na portaria.  Sonho é com liberdade, sem guaritas e trancas. “Recém mudei para um apartamento em Moema de 130 metros quadrados e alta infraestrutura de segurança.  Acabamos aderindo a esse esquema pela vida urbana, mas não é realmente o que eu queria.” Sua casa dos sonhos teria 200 metros quadrados de área construída e 500 metros de área total, com três suítes.  “Seria uma para mim, outra para minha filha e a terceira para hóspedes. ” Mesmo em um país tropical, lareiras são altamente desejadas por Dagmar.  “Elas trazem mais aconchego no inverno”, explica.  Ao mesmo tempo, a corretora gosta de ambientes claros e modernos.  “Não gosto de penumbra ou mesmo de móveis escuros. ” Quando se trata de pé direito, ela é adepta do meio-termo.  “Os apartamentos atuais têm altura baixa, cerca de 2,70 metros em média.  Meu ideal é 3,30 metros.
Matéria originalmente publicada no caderno Imóveis de 19/12/2010

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