Obras atrasam e SP ganha ‘órfãos do metrô’

Obras atrasam e SP ganha ‘órfãos do metrô’

Contar com uma estação ainda não construída no momento da compra de um apartamento na planta pode ocasionar problemas posteriores

Claudio Marques

31 de julho de 2016 | 07h40

Silas Luque, de 34 anos, teve de mudar de emprego para manter o apartamento que comprou na Vila Sonia, contando que a estacao Vila Sonia do metro ficaria pronta antes ou junto com o apartamento

Silas Luque mudou de emprego para manter o apartamento que comprou na Vila Sonia, contando que a estação Vila Sonia ficaria pronta junto com entrega de apartamento

Márcia Rodrigues
ESPECIAL PARA O ESTADO
Quando o farmacêutico Silas Luque, de 34 anos, resolveu comprar um imóvel maior para morar com a mulher e a sogra, a primeira análise que fez foi que ele deveria ficar mais próximo do trabalho da mulher, que fica em Embu das Artes (27 km a oeste de São Paulo), e de uma estação de Metrô. O local escolhido: Vila Sônia, na zona oeste de São Paulo.

A entrega de uma estação no bairro foi anunciada, inicialmente para 2012, depois passou para 2014, quando estava prevista a entrega do apartamento de Luque, e, agora, o governo confirmou que será entregue oficialmente em 2019.

O atraso não estava nos planos de Luque que, na época, trabalhava em Suzano (44 km a leste de São Paulo) e precisava do metrô e do trem para se locomover com facilidade. “Para não gastar tanto com condução, eu comecei a ir de bicicleta até a estação Butantã (na Linha 4-Amarela) para pegar o metrô e, depois, o trem. Foi um período de muito desgaste. Nem tinha tempo de curtir o meu filho recém-nascido.”

O farmacêutico conta que chegou a pensar em vender o imóvel. “O que me segurou foi que eu achei que não conseguiria receber o que paguei por ele, por causa do atraso da entrega da estação.”
Luque afirma que o que lhe salvou foi a oferta de emprego no bairro do Campo Limpo, na Zona Sul. “Agora, eu consigo ir trabalhar de carro e não gastar muito. Quando eu trabalhava em Suzano isso era inviável financeiramente.”

Ele, assim como outros paulistanos, estão ansiosos e aguardando a entrega de estações das linhas 4-Amarela (que ligará a estação Luz, da Linha 1-Azul, à Vila Sônia), 6-Laranja (estação Joaquim, da linha 1-Azul, à Brasilândia, bairro da zona norte), 5-Lilás (integração com as linhas 2-Verde e 1-Azul e seguirá até o Capão Redondo, na zona sul), Linha 15-Prata (Ipiranga, Linha 2-Verde, até Cidade Tiradentes, na Zona Leste) e Linha 17-Ouro (monotrilho que ligará a estação Jabaquara, da Linha 1-Azul, à estação São Paulo-Morumbi, da Linha 4-Amarela).

Para Mirella Raquel Parpinelle, diretora-geral de atendimento da Lopes, o atraso nas obras do Metrô vem prejudicando muito o planejamento do cliente. “Ter estação de metrô próxima ao empreendimento que será lançado não é mais gancho de venda. Não dá para falar ‘compre agora que a partir de tal data você terá mais mobilidade’, porque os atrasos nas obras estão cada vez mais frequentes.”
Parpinelle acredita que o maior problema está no adiamento das entregas em bairros menos consolidados como a Vila Sônia, por exemplo.

“Se pegarmos a Linha Amarela, podemos perceber que há outras estações que não foram entregues, como a Oscar Freire, mas há infraestrutura e outras estações próximas. O mesmo ocorre com a Linha Lilás. No entanto, em bairros mais afastados como a Vila Sônia, a mobilidade é menor e, por isso, faz toda a diferença.”

A diretora-geral também afirma que o atraso das obras pode afetar a liquidez do empreendimento. “Não consigo mensurar o porcentual , mas há redução nas vendas e, consequentemente, o atraso de novos lançamentos. As construtoras seguram até reduzir os estoques.”

A opinião de Parpinelle é compartilhada pelo presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SP), José Augusto Viana Neto. “Nada pode ser pior para o mercado do que o atraso de uma obra. Traz uma visão totalmente negativa, descrédito para o setor e gera transtorno, principalmente para a pessoa que planejou a sua vida, contando que terá mais mobilidade.”

Ele acredita que o adiamento não afeta a valorização porque a estação será entregue, ainda que tardiamente. No entanto, ele diz que pode dificultar a vida de quem comprou o imóvel para alugar, por exemplo.

Proximidade. “As pessoas querem a facilidade de morar próximo ao metrô. Não tendo uma estação no entorno, vão atrás de outro imóvel.” O mesmo raciocínio vale para uma compra, segundo o presidente do Creci. “Se o cliente tiver duas opções de negócio com preços equivalentes, ele vai optar por aquele que oferece o metrô.”

A falta de confiabilidade nos prazos dados pelo governo para a conclusão das obras deve ser levada em consideração por quem quer comprar um imóvel, contando com uma estação no seu bairro, segundo Lucas Vargas, CEO da imobiliária VivaReal. “Basta avaliar o histórico das obras públicas. Dificilmente os prazos são cumpridos”, diz ele.

O professor de história Benedito Lima, 46 anos, comprou um apartamento no bairro Água Branca, na zona oeste de São Paulo. “Eu sempre gostei do bairro e achei um imóvel com preço acessível. Para mim, a chegada do Metrô será um facilitador, um valor agregado ao meu dia a dia.”

Benedito Lima, que comprou um imóvel contando com a estação do metrô Santa Marina, da linha Laranja.Mas o projeto do metrô atrasou, e deve ficar pronto em 2020

Benedito Lima comprou imóvel contando com a estação do metrô Santa Marina, da linha Laranja.Mas o projeto atrasou e deve ficar pronto em 2020

No entanto, ele reconhece que está frustrado com o adiamento da entrega da estação Santa Marina, da Linha Laranja, que ficará próxima ao seu apartamento. “Dois anos a mais é muito tempo.”

Lima conta que é adepto do transporte público e gosta de pedalar. O metrô, para ele, facilitará os seus passeios aos fins de semana. “Costumo frequentar as unidades do Sesc e a região da Avenida Paulista, no Centro da capital. Certamente o metrô vai facilitar muito a minha vida.”

Para Celso Petrucci, economista-chefe do Sindicato da Habitação de São Paulo (se), é natural que haja uma valorização dos empreendimentos do bairro com a chegada do Metrô. “Os bairros Tucuruvi e Parada Inglesa, na zona norte, se valorizaram muito com a chegada do metrô. Certamente na Vila Sônia estão sendo promovidos lançamentos muito abaixo da sua capacidade por conta do atraso.”

Celso Petrucci, economista chefe do Secovi

Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP

De acordo com Petrucci, a mesma frustração vem sendo gerada em outros consumidores, que estão esperando pelas obras. “Antes de fechar um negócio, a pessoa deve avaliar a mobilidade que terá na região, sem contar com a chegada do metrô. O bairro fica próximo ao seu trabalho? Perto da escola do seu filho? Assim não deverá haver sofrimento com o atraso da obra.”

A assessoria de imprensa do Metrô informa que as obras estão sujeitas a “intercorrências” que podem afetar o cronograma de execução. É o caso da Linha 4-Amarela, cujas obras foram iniciadas em 2012 e paralisadas no final de 2015, quando o consórcio Corsán-Corviam abandonou os serviços. Nova licitação foi feita e os trabalhos foram retomadas este mês. O novo contrato prevê: 12 meses para a conclusão da estação Higienópolis-Mackenzie, 15 meses para a estação Oscar Freire, 18 meses para a estação São Paulo-Morumbi e 36 meses para a estação Vila Sônia.

Na Linha 5-Lilás, a construção foi iniciada em novembro de 2009 e paralisada em 2010 por conta de denúncias de supostas irregularidades. Retomadas em 2011, a expansão teve sua primeira estação, a Adolfo Pinheiro, entregue em agosto de 2014. A previsão de conclusão e início da operação do trecho Adolfo Pinheiro – Chácara Klabin é para o segundo semestre de 2017, exceto a Estação Campo Belo, prevista para 2018.

As colunas e vigas que compõem a via por onde passarão os trens do monotrilho da Linha 15-Prata foram implantadas até a estação Iguatemi. As obras foram iniciadas em 2011 e o primeiro trecho foi entregue em 2014. O segundo trecho está previsto para 2018.

As obras da Linha 17-Ouro começaram no segundo semestre de 2011 e, segundo o Metrô, sofreram atrasos na liberação de terrenos e na obtenção das licenças ambientais. O consórcio contratado para a construção de três estações e pátio de trens abandonou as obras. Um novo consórcio foi contratado e as obras retomadas. Parte dos serviços também foi afetada pela paralisação feita pelo Consórcio Monotrilho Integração–CMI, responsável pela via e pilares de sustentação.

Atualmente, este contrato encontra-se em renegociação judicial. Por estas razões, alega o Metrô, o cronograma de entrega e início de operação foi afetado e está em revisão. A Linha 6–Laranja estava prevista para ser entregue em 2020. Porém, segundo o Metrô, o início da operação simultânea das 15 estações ocorrerá em 2021, em razão do atraso no financiamento.

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