Paisagismo valoriza prédios, mas manutenção deve ser levada em conta
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Paisagismo valoriza prédios, mas manutenção deve ser levada em conta

Incorporadoras apostam na vegetação como parte do projeto arquitetônico e têm nas plantas reguladores naturais de temperatura e umidade; custos, porém, são do condomínio

Isaac de Oliveira

09 de fevereiro de 2020 | 06h00

Especial para o Estado 

Colorir o cinza de São Paulo com verde vem sendo uma aposta de incorporadoras. O uso de vegetação é aliado ao projeto arquitetônico dos lançamentos, não só na entrada dos condomínios, mas em toda a verticalidade, seja com jardins em paredes livres ou com sacadas verdes na borda dos apartamentos. Além da valorização do imóvel, a vegetação proporciona outros ganhos, como redução de ruídos, conforto térmico e melhora da paisagem.

“O verde traz sombra natural para o apartamento e é uma barreira de resfriamento”, elenca Ricardo Grimone, diretor da Gamaro. A incorporadora entregou em janeiro de 2019 seu primeiro empreendimento que traz vegetação nas sacadas. O Seed, na Vila Olímpia, rendeu à empresa inclusive o Prêmio Master Imobiliário em 2016, ano em que foi lançado, por solução arquitetônica do projeto.

Ricardo explica que o custo do paisagismo ao longo de 20 andares representou 3,5% do valor total do projeto. Desde o lançamento do empreendimento até a entrega, as unidades se valorizaram em torno de 30%, diz ele, impulsionado também pela vegetação. “Lógico que tem vários outros elementos (de valorização), mas as floreiras ganharam muita força no decorrer do projeto.”

Fachada do Seed, empreendimento recém-entregue da incorporadora Gamaro. Foto: Melissa Binder

O médico Otávio Fraige, de 66 anos, conta ter adquirido um apartamento no edifício por conta do conceito. “Acho que é inovador aqui no Brasil.” Desde outubro morando no empreendimento, Otávio percebe vantagens. “A gente consegue isolamento térmico, há uma redução de ruídos. Acho que a fachada também fica muito bonita, melhora a biodiversidade, atrai pássaros, borboletas.”

Para o diretor de vendas da Lello Imóveis, Igor Freire, o verde em prédios é um item que pode ajudar na decisão de compra ou aluguel, mas não é visto de forma isolada na valorização do imóvel. “O fato de o prédio ter (paisagismo) acaba sendo uma ferramenta a mais da parte estética. Ele é um dos pontos de valorização, mas não é só isso.”

O diretor de incorporação da Tegra, João Mendes, avalia que as fachadas verdes já se tornaram uma tendência mundial, sobretudo pela carência de arborização das grandes cidades. A incorporadora possui dois lançamentos que utilizam floreiras nos terraços, o GIO, no Campo Belo, e o DSG, no Itaim Bibi.

“Essa verticalização é capaz de criar um ecossistema urbano para flora e fauna”, diz Mendes, que ainda elenca como benefícios, além da redução de ruídos e da melhora do conforto térmico, o aumento da umidade e uma barreira natural contra ventos.

A Idea!Zarvos é outro exemplo de incorporadora que aposta no uso de vegetação em seus projetos arquitetônicos. “O verde é uma coisa muito desejada por todo mundo, principalmente em São Paulo, que é uma cidade cinza”, diz o sócio-fundador Otavio Zarvos.

Para a paisagista e bióloga Patrícia Alvarenga, professora do curso de extensão de Jardins Verticais da FAAP, esses projetos paisagísticos beneficiam não só os moradores de determinado condomínio, mas a cidade.

“A vegetação tem um poder calmante e de resgate da nossa natureza. Esses fatores contribuem para o bem estar das pessoas quando elas convivem em espaços que têm verde”, diz.

Cuidados e custo-benefício

Quem opta por um imóvel com essas características, no entanto, tem de estar atento aos custos. Isso porque a manutenção é essencial para a vida desses jardins que se estendem por diversos metros de altura. Poda, insumos e sistema de irrigação são algumas das despesas que ficam por conta do condomínio.

Empreendimento da Idea!Zarvos na cidade de São Paulo. Incorporadora também aposta nos jardins verticais em novos projetos. Foto: Rocco Associados

No casos de jardins verticais em empenas cegas (nome técnico para fachadas sem janelas ou acabamentos), devido a sua longa extensão, os custos para implantar e manter podem ser ainda mais elevados a depender da técnica utilizada, como vasos com terra ou manta geotêxtil.

“A gente até tem prédios com paredes verdes, pequenas, em locais que a gente considerou que a manutenção não seria muito onerosa para o condomínio. Porque a gente acha que (com os jardins verticais extensos) depois fica um ônus para o condomínio. Às vezes o jardim até morre”, comenta Otavio Zarvos.

De acordo com o paisagista e fundador da empresa Movimento90, Guil Blanche, o custo de implantação de um jardim vertical com manta geotêxtil gira em torno de R$ 1 mil o metro quadrado. Já a sua manutenção sai por volta de R$ 20 o metro quadrado (os valores podem diminuir a depender da extensão da parede).

O gerente de núcleo gerencial da administradora imobiliária Graiche, Luiz Tofoli, destaca que é necessária a contratação de empresas especializadas uma vez que esse trabalho pode envolver uso de guindastes e similares. Segundo ele, a manutenção desses jardins em São Paulo varia de R$ 1 mil a R$ 6 mil por mês.

Outro fator que deve ser levado em conta é a escolha das plantas, que devem ser adequadas para a radiação solar e para o clima onde estarão inseridas, aponta Tofoli. “Com isso, você diminui o custo. Num projeto que esteja em desacordo com isso, vai haver muito mais troca de plantas e problemas.”

No caso do recém-entregue Seed, a Gamaro optou por assegurar ao condomínio cinco anos de manutenção das sacadas, ao custo mensal de R$ 5 mil. “A gente queria ter certeza de que o jardim funcionasse e, dentro do nosso portfólio, fosse um exemplo de entrega. Mas é um caso atípico. Normalmente, a manutenção já teria sido passada para o condomínio”, explica Ricardo Grimone.

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